Bebiana Rocha
A Heimtextil regressa a Frankfurt em janeiro de 2026 e traz para a sua Trend Arena o tema “Craft is a Verb”, uma proposta que convida a olhar para o artesanato como ação, gesto e processo em constante diálogo com a tecnologia. A apresentação oficial das tendências decorreu esta manhã e esteve a cargo de Valentina Ciuff, Joseph Grima e Alice Moretto, fundadores da plataforma Alcova, que lançaram a reflexão sobre o papel da Inteligência Artificial no design e na criatividade.
O encontro, sob o título “Craft and AI in Design”, evidenciou as potencialidades da IA enquanto ferramenta de experimentação colaborativa, mas também os seus limites face à intuição, sensibilidade e humor característicos da intervenção humana. Os oradores questionaram de forma direta o que significam, para o futuro da criatividade, os avanços de sistemas cada vez mais capazes de simular emoções. A discussão recuperou ainda paralelos históricos: tal como na Revolução Industrial, quando os luditas destruíram teares receando a perda do seu trabalho, hoje voltam a emergir ansiedades perante a automação. No entanto, a experiência do passado mostra que a industrialização acabou por abrir espaço a movimentos criativos e artesanais, como o Arts & Crafts de William Morris, o Bauhaus ou o Memphis, sugerindo que o mesmo poderá acontecer na atual era digital.
Entre as principais direções de tendência apresentadas para 2026 sobressaem propostas que cruzam o digital e o manual, como desenhos transformados em têxteis com falhas visíveis ou colaborações entre impressão 3D e cerâmica artesanal, mas também um regresso à natureza como geradora de padrões e ao ornamento como detalhe de prazer visual. Surgem igualmente abordagens que valorizam irregularidades e marcas deixadas pela mão humana em peças industriais e ainda explorações do chamado “vale da estranheza”, em que objetos produzidos por máquinas parecem humanos mas guardam uma sensação subtil de estranheza.
A sessão incluiu exemplos práticos que expuseram fragilidades da IA aplicada ao design de interiores. A simulação de uma decoradora virtual, batizada Mara Anzen, resultou em espaços uniformes e sem personalidade, enquanto o exercício de redesenhar a icónica Eames House produziu ambientes em cetim cor-de-rosa e preto, sem ligação ao contexto histórico ou cultural da obra. Ficou evidente que, apesar da capacidade de processamento e geração, a IA ainda não consegue criar significado, surpresa ou experiências táteis.
No plano cromático, a proposta para 2026 assenta no contraste entre tons terrosos e naturais e cores digitais intensas, recomendando a sua combinação para criar tensão visual e evitar superfícies demasiado lisas ou perfeitas. Já na feira, a Trend Arena materializará toda esta investigação num espaço físico que promete uma experiência sensorial, marcada pela teatralidade entre a estética austera da tecnologia e as referências orgânicas da natureza. Mais do que um relatório escrito, será um palco de experimentação onde o toque e a materialidade dos têxteis são tratados como uma verdadeira base de dados viva.