Bebiana Rocha
A Lipor desenvolveu, entre 2019 e 2023, um estudo de caracterização de desperdícios têxteis que revela que apenas 75,8% dos resíduos apresentam potencial de reciclagem. A restante fração corresponde a materiais descartáveis por se encontrarem sujos, molhados ou contaminados.
De acordo com Sara Fernandes, responsável pela apresentação dos resultados durante um seminário sobre circularidade realizado na passada semana, a maioria dos descartes corresponde a peças de vestuário feminino (46,23%). Seguem-se os resíduos provenientes de peças de criança (26,26%), sendo os artigos de homem a representar a menor parcela.
Na análise das fibras, o estudo conclui que predominam as não naturais (61,17%), enquanto as fibras naturais representam 38,83%. Sabe-se ainda que em 63,53% dos casos, as peças não possuem acessórios. Destaca-se ainda a presença de padrões, sobretudo o xadrez (18,23%).
No que diz respeito às cores, o azul é o mais frequente (18,40%), logo seguido pelo preto (12,1%). Para Sara Fernandes, a principal conclusão é clara: “há uma grande variedade de resíduos têxteis”.
No mesmo seminário, Alexandre Ventura apresentou a unidade piloto de triagem de têxteis, sublinhando a necessidade de desenvolver a tecnologia ótica, que atualmente apenas deteta uma camada, quando há peças mais complexas, como blazers, que exigem a leitura de duas ou mais camadas.
O responsável da Lipor apontou também as limitações ainda existentes, como a impossibilidade de mecanização total do processo e a incerteza quanto à existência de retomadores. Alexandre Ventura alertou igualmente para a urgência de definir um enquadramento legal e a criação de uma entidade gestora para os resíduos têxteis.
Enquadre-se que a Lipor tem já vindo a desenvolver experiências no terreno, por exemplo, em colaboração com a Câmara Municipal de Vila do Conde, para avaliar até que ponto a população distingue resíduos têxteis de peças que ainda podem ter uma segunda vida e também para ter dados concretos de quantidades de desperdícios têxteis.
Dando seguimento ao seminário, Filipe Portela, da IOTech, apresentou uma plataforma web destinada a empresas, que permite registar resíduos e subprodutos e colocá-los à disposição de entidades interessadas.
A ferramenta, ainda em fase experimental, funciona como um espaço de colaboração para catalogar materiais tão diversos como casca de amêndoa, casca de ovo, caules de alecrim, cinzas da queima do bagaço, poda de videira ou tomilho bela-luz.
O acesso pode ser feito sem registo ou com registo, no caso de produtores, parceiros ou clientes, estando já listados parceiros por áreas de atuação.
A aplicação dispõe de filtros padronizados que facilitam a procura e o contacto entre as partes, permitindo manifestar interesse em determinados materiais. Cada produto é acompanhado por uma descrição do seu potencial de utilização.
Para colocar um subproduto disponível, basta preencher um formulário digital. As empresas podem ainda monitorizar cliques nos seus produtos, assinalar favoritos e verificar a disponibilidade dos artigos. O próximo passo é começar a pensar na gamificação.
Numa fase ainda embrionária, a aplicação contava esta manhã com 20 entidades registadas: 13 produtoras de resíduos, nove transformadoras e cinco clientes. Embora a área têxtil seja predominante, há também participação de setores agroflorestais, alimentares e de gestão de resíduos urbanos.