27 maio 26
Tecnologia

Bebiana Rocha

Giovanni Pizzamigio: “A impressão analógica pertence ao passado”

Num momento em que a indústria têxtil enfrenta uma pressão crescente para reduzir desperdícios, acelerar a produção e responder às exigências de sustentabilidade, a transformação digital deixou de ser uma opção para passar a ser uma questão de sobrevivência. Em entrevista ao T Jornal, Giovanni Pizzamiglio, diretor do segmento roll-to-roll da Kornit Digital, defende que “a impressão analógica pertence ao passado” e aponta a impressão digital “a seco” como a única resposta capaz de conciliar flexibilidade, rapidez e sustentabilidade.

Em destaque está também a nova química DuraTech, integrada na Presto MAX Plus, que promete expandir a impressão digital aos têxteis técnicos, do sportswear ao setor automóvel. Ao longo da conversa, Giovanni Pizzamiglio sublinha ainda o potencial de Portugal, que considera continuar a ser “um dos países com maior know-how e tradição no setor têxtil”, especialmente nos têxteis-lar, mas alerta que o futuro exigirá inovação, flexibilidade e uma nova visão estratégica: “não podemos continuar a falar apenas de preço; temos de começar a falar da sustentabilidade económica de toda a cadeia de abastecimento”.

A indústria têxtil e do vestuário atravessa um período particularmente complexo, marcado pela pressão sobre os custos, exigências de sustentabilidade, preocupações com a sobreprodução e mudanças nas expectativas dos consumidores. Na perspetiva da Kornit, quais são atualmente os maiores desafios?

A indústria têxtil, e em particular o setor do vestuário, está a atravessar uma grande transformação em resultado das mudanças na dinâmica internacional. Muitas empresas encontram-se incapazes de responder às novas exigências do mercado em termos de rapidez, melhor rotação de stock e produção on-demand em pequenas séries. Esta não é uma situação totalmente nova, mas sim o agravamento de problemas já existentes, que atingiram agora um ponto em que, para muitas empresas, deixaram de poder ser ignorados — muitas vezes devido ao adiamento de decisões e atualizações tecnológicas.

O consumo de água continua a ser um dos desafios ambientais mais urgentes da indústria têxtil. Até que ponto a produção digital sem água pode contribuir para reduzir a pegada ambiental dos fabricantes?

Não existe um único país, quer nos mercados mais avançados quer nos países em desenvolvimento, que não tenha introduzido regulamentos e legislação para incentivar os fabricantes têxteis a adotar sistemas de tratamento e purificação de água. Em alguns países, é mesmo impossível instalar novas unidades de produção devido àquilo que se tornou uma escassez crónica de água. A única forma de enfrentar estes problemas é através da impressão “a seco”, que, utilizando tintas pigmentadas, oferece agora uma verdadeira alternativa para qualquer tipo de fibra têxtil. A Kornit, que sempre defendeu esta abordagem, é hoje, sem dúvida, o fabricante que oferece a melhor tecnologia, com tintas vibrantes, toque suave e tinta branca para impressão sobre tecidos previamente tingidos.

A Kornit apresentou a Presto MAX PLUS como uma “solução digital de produção num único passo e sem utilização de água”. O que diferencia esta tecnologia dos sistemas convencionais de impressão têxtil atualmente disponíveis no mercado?

A Presto MAX Plus não é apenas uma atualização de uma plataforma existente, mas sim uma verdadeira revolução tecnológica na impressão têxtil. O objetivo é expandir o leque de aplicações para além dos limites do vestuário e dos têxteis-lar, tornando a impressão digital numa solução para tecidos técnicos, desde o calçado – tanto no setor desportivo como de forma mais abrangente – ao sportswear, com capacidade para produzir estampados que tornam o tecido funcional; passando pelos têxteis outdoor com resistência excecional à abrasão; pela camuflagem militar com estampados duráveis e totalmente conformes com os padrões de assinatura IR; até às crescentes necessidades de personalização no setor automóvel. Todas estas aplicações beneficiam da inovadora tecnologia Kornit Duratech, que melhora o desempenho do têxtil impresso sem necessidade de tratamentos pós-impressão.

Até que ponto considera que os fabricantes têxteis estão preparados para a transição para modelos de produção digitais e on-demand? A indústria está a evoluir com rapidez suficiente?

Como referi anteriormente, a indústria têxtil está a perceber que muitas decisões anteriormente adiadas têm agora de ser tomadas. Já não é uma questão que possa continuar a ser adiada, pois para muitos fabricantes trata-se da própria sobrevivência neste setor. Apenas a tecnologia digital (“a seco”) responde às exigências de sustentabilidade ambiental – impostas por todas as grandes marcas -, ao reabastecimento rápido e ao crescimento exponencial das coleções e variantes. A impressão analógica pertence ao passado e, exceto em algumas áreas muito específicas, representa hoje mais um problema do que uma oportunidade de negócio.

Que conversas ou tendências de mercado se destacaram mais durante a Texprocess? Os fabricantes têxteis estão atualmente a dar prioridade a preocupações diferentes das de anos anteriores?

Ao contrário do que acontecia em anos anteriores, o setor dos têxteis técnicos procura agora ativamente soluções inovadoras que permitam maior flexibilidade durante a produção, sobretudo face à redução dos tamanhos das encomendas, à maior variedade de amostras, à necessidade de prototipagem rápida e, não menos importante, à redução dos custos de preparação de impressão e de mão de obra.

A Kornit regressou à Texprocess apresentando ao vivo no stand a nova Presto MAX PLUS. Quais foram os principais objetivos da vossa presença nesta edição e como avalia o feedback recebido dos visitantes e profissionais do setor?

O principal objetivo foi demonstrar ao mercado, aos nossos clientes e potenciais clientes, os enormes progressos alcançados pela Kornit na área da impressão para têxteis técnicos, através de uma inovação totalmente nova destinada a revolucionar a impressão de uma vasta gama de têxteis técnicos. A resposta superou as expectativas, demonstrando que o setor procura alternativas à impressão analógica.

Considera que a relação entre fabricantes e fornecedores de maquinaria está a evoluir de um modelo tradicional de fornecimento para uma parceria de inovação mais colaborativa?

Sim, sem dúvida. Ao contrário do passado, os fabricantes têxteis estão hoje mais conscientes de que a mudança tecnológica ocorre a um ritmo acelerado e de que é difícil acompanhar todas as evoluções; por isso, valorizam os fornecedores de tecnologia que procuram envolvê-los em iniciativas de partilha de informação, formação e parceria. Estar atualizado e bem informado é hoje mais valioso do que nunca, precisamente porque tantos modelos de negócio estão a mudar.

Portugal tem-se afirmado como um destino de sourcing têxtil flexível, de elevada qualidade e cada vez mais sustentável. Que potencial vê no nosso país?

Portugal continua a ser um dos países com maior know-how e tradição no setor têxtil, particularmente na área dos têxteis-lar, e esteve entre os primeiros a enfrentar os desafios da inovação tecnológica na indústria. Hoje, o desafio passa também por expandir o setor para além dos mercados da moda e dos têxteis-lar, entrando em materiais e mercados mais técnicos, como os setores automóvel, sportswear, calçado e outdoor. Todos estes são setores em rápido crescimento, onde a experiência da indústria têxtil portuguesa pode servir de base para construir o futuro próximo.

Olhando para o futuro, como imagina a evolução da indústria têxtil e do vestuário nos próximos cinco a 10 anos?

O mercado mudou significativamente nos últimos quatro anos (desde a pandemia), mas o ritmo da mudança está a acelerar ainda mais, e as novas palavras de ordem são inovação e flexibilidade. O desafio é complexo e nem todas as empresas conseguirão superá-lo. Não se trata apenas de investimento; exige conhecimento e uma estratégia com um objetivo claro: decidir hoje onde queremos estar amanhã. A rapidez de execução, por si só, já não é suficiente sem reduzir desperdícios, melhorar a gestão de stocks e reabastecimento e implementar uma verdadeira política de sustentabilidade que envolva consumidores, marcas e produtores. Não podemos continuar a falar apenas de preço; temos de começar a falar da sustentabilidade económica de toda a cadeia de abastecimento.

Por fim, que mensagem gostaria de deixar aos fabricantes têxteis que ainda hesitam em investir na transformação digital?

Evoluir não é uma escolha, mas uma necessidade. Isto aplica-se a todas as organizações, independentemente da sua dimensão. Vivemos numa era digital; aqueles que compreendem o seu potencial colhem os benefícios e conseguem moldar o seu próprio futuro, enquanto os que hesitam e continuam a adiar decisões estratégicas perdem gradualmente a sua vantagem competitiva e podem mesmo ultrapassar o ponto de não retorno.

Partilhar