Bebiana Rocha
“A indústria têxtil portuguesa é estratégica na produção de proximidade”. É com esta convicção que a Garcia & Silva tem vindo a investir continuamente na melhoria interna, quer ao nível da eficiência dos processos, da qualidade, do conforto, da sustentabilidade e da complexidade do produto, quer na preparação para responder às exigências das mais prestigiadas marcas globais.
Fundada em 1969, a empresa de meias e collants encontra-se atualmente na terceira geração familiar e apresenta uma capacidade diária de produção entre 4 mil e 6 mil pares, dependendo do modelo. A internacionalização representa 92% da faturação anual.
Em entrevista ao T Jornal, a empresa afirma ter registado uma evolução consistente ao longo dos anos, marcada pela inovação e pela capacidade de adaptação. Entre os principais marcos históricos destaca a internacionalização, iniciada na década de 80, que abriu “portas a novos mercados e impulsionou o crescimento”.
Esse crescimento mantém-se ainda hoje, apesar do contexto macroeconómico desafiante dos últimos anos. A Garcia & Silva revela um incremento de 12% face ao período homólogo, resultado da reorganização e otimização interna que tem vindo a implementar, enquanto continua a conquistar novos mercados.
Os principais destinos são a Europa, os Estados Unidos e o Reino Unido. “Para os próximos anos pretendemos reforçar a presença no mercado norte-americano, nos países nórdicos e explorar oportunidades nos mercados asiáticos, como o Japão e a Coreia do Sul”, partilha a empresa.
Entre os seus principais pontos fortes, destaca a flexibilidade na produção, a rapidez de resposta e a capacidade tecnológica para concretizar designs complexos e com múltiplas cores.
A produção divide-se entre 70% para o segmento adulto e 30% para o infantil. No segmento adulto, sobressaem as clássicas tennis socks, com ou sem padrões, e as meias casuais com desenhos all-over. Já no infantil, a empresa produz tanto meias como collants e, mais recentemente, meias de desporto, numa diversificação que permite responder a diferentes públicos e contextos, desde o quotidiano às cerimónias.
A inovação é central no desenvolvimento de novas meias e collants”, sublinha. Com essa consciência, a empresa investiu recentemente em máquinas de tricotagem e de costura de última geração, que permitem obter costuras mais precisas e confortáveis, ao mesmo tempo que prepara a integração futura de sistemas digitais de simulação de padrões e estruturas de malha, capazes de agilizar o desenvolvimento de amostras, testar combinações antes da produção física e reduzir desperdícios de matéria-prima. “Estamos também a acompanhar a evolução dos softwares de desenvolvimento têxtil e de gestão de cor, que permitem tornar o processo de criação e replicação de amostras mais rápido e eficiente.
Entre as prioridades está também uma presença digital mais consistente, atualmente em desenvolvimento através de um projeto de rebranding. “Este trabalho tem permitido não só comunicar de forma mais consistente com o mercado, mas também organizar internamente a catalogação e o registo de técnicas, produtos e processos, bem como apoiar o desenvolvimento de novos projetos de marca própria”, explica.
A qualidade continua igualmente no centro da estratégia. A Garcia & Silva tem investido na implementação de sistemas internos de gestão da qualidade e em certificações que garantam maior segurança e confiança aos clientes. “Recebemos clientes de perfis muito diversos, desde grandes licenciamentos a pequenas marcas com detalhes premium”, enquadra, reforçando a necessidade de estar preparada para diferentes exigências.
Atualmente, a empresa é certificada pela GOTS e pretende expandir para certificações como a OCS e a OEKO-TEX. “A médio prazo queremos implementar certificações de gestão da qualidade, incluindo a ISO 9001”, adianta.
Ainda nesta vertente, a Garcia & Silva assegura internamente todas as etapas-chave do processo: tecelagem, confeção, aplicação de acessórios, dobra, embalagem, armazenamento e expedição. A estrutura integra equipas específicas nas áreas comercial, de desenvolvimento, financeira, planeamento, produção, qualidade e logística, garantindo um acompanhamento próximo ao cliente.
“O que se manteve constante desde a fundação foi o atendimento próximo e personalizado, garantindo produtos de elevada qualidade e atenção ao detalhe”, afirma.
Empresa de base familiar, a Garcia & Silva encara a entrada das novas gerações como fundamental para trazer uma visão renovada, capaz de otimizar toda a cadeia de valor, desde a aquisição da matéria-prima até ao produto final, com foco na sustentabilidade e na digitalização.
Produzir em Portugal é, para a empresa, sinónimo de “know-how combinado com elevados padrões sociais, ambientais e de qualidade”, uma associação que pretende continuar a potenciar. “Produzir localmente permite maior flexibilidade, controlo rigoroso do processo produtivo e uma resposta rápida às solicitações do cliente”, refere.
É com esta visão que a Garcia & Silva pretende continuar a firmar a sua presença nos mercados atuais e conquistar novos clientes. A verdadeira diferenciação da empresa “surge através da flexibilidade nos mínimos de produção, da rapidez de resposta e do reforço do valor do made in Portugal”, remata.
Em entrevista ao T Jornal, a administração reconhece que um dos principais desafios enquanto produtor europeu passa por “manter preços competitivos face à concorrência internacional e à instabilidade macroeconómica, num contexto de custos crescentes de matéria-prima, energia e elevada carga fiscal”.
Ainda assim, a estratégia mantém-se: consolidar a presença nos mercados atuais, expandir para novos destinos e tirar partido do acordo UE-Mercosul, com aposta na América do Sul. “Continuaremos a dedicar todos os esforços para fortalecer a nossa reputação no setor”, conclui.
Relativamente à escassez de mão de obra, a empresa revela ter adotado uma estratégia diferenciadora: a redução da semana de trabalho para 36 horas. “Há cerca de três anos implementámos a sexta-feira livre, valorizando o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Esta medida foi muito bem recebida pelos nossos colaboradores e tem sido fundamental para atrair e reter talento.”