Bebiana Rocha
O CITEVE organizou, no passado dia 3 de março, um evento de apresentação dos resultados do Programa de Formação e Assistência Técnica em Empresas, desenvolvido no âmbito do projeto Be@t. Para ilustrar o impacto concreto deste modelo de formação-ação, participaram numa mesa redonda as empresas Casa da Malha, Twintex, Benoli Confeções e Lameirinho.
Filipa Costa, diretora de inovação da Casa da Malha, destacou o Roadmap da Sustentabilidade criado em conjunto com Assunção Mesquita, do CITEVE. Salientou que a sustentabilidade tem estado no centro das preocupações da empresa desde a sua fundação e que, desde 2019, já detinham as principais certificações do setor.
O ponto mais relevante desta troca de experiências foi o envolvimento de toda a equipa. Filipa explicou que a empresa iniciou com um diagnóstico, a partir do qual identificou os principais indicadores de sustentabilidade, transformando dados em análises concretas e apresentando um plano estratégico com horizonte até 2030, incluindo a digitalização de processos e foco no valor acrescentado.
Jorge Leitão, adjunto da direção da Lameirinho, reconheceu o contributo de Joana Cunha, da Universidade do Minho, no alargamento de horizontes em termos de conceção e inovação.
A têxtil-lar tem feito avanços na introdução de produtos sustentáveis, mas Jorge destacou a realidade do mercado: existem diferentes tipos de clientes, alguns já comprometidos com a sustentabilidade e outros ainda não, sendo aqui fundamental a atuação da legislação, que, segundo ele, tem sido lenta. Como exemplo, citou um projeto de patchwork, em que desperdícios de fitados foram reutilizados para criar peças únicas, que também contribuíram para a união das equipas. Este projeto serve de marco para a empresa, mas o retorno em termos de encomendas tem sido limitado.
Joana Leitão, auditora na Benoli Confeções, também orientada por Joana Cunha, focou-se na comunicação. “Todos nós já tínhamos práticas sustentáveis, mas a formação ajudou a comunicá-las internamente e externamente, unindo equipas”, explicou. Destacou a importância de adaptar empresas com mais de meio século de existência às novas necessidades do mercado.
Beatriz Tavares, Embaixadora para a Sustentabilidade Social e Ambiental da Twintex, enfatizou os benefícios de ter alguém externo a transmitir às equipas o porquê de certas práticas. “A sustentabilidade nunca está a 100%. É preciso munir as equipas de conceitos, explicar o porquê de determinados processos. A sustentabilidade é um barco, não um departamento”, afirmou. Sublinhou que a formação dá segurança tanto às equipas como aos clientes, sendo um ativo estratégico para a empresa.
Numa segunda ronda do painel, Filipa Costa reforçou que a formação serviu para ajustar práticas internas, mesmo estando a empresa já avançada na sustentabilidade: desde 2024, implementou zero papel, separação de resíduos, energia 100% verde, triplicação dos painéis solares e compra de energia renovável. Destacou ainda a implementação de um canal de denúncia, portal de clientes e fornecedores e um programa de inclusividade.
“Todos os dias surgem desafios, oportunidades de melhoria e a necessidade de resintonizar quem diverge”, confessou.
A Casa da Malha já integra também fibras recicladas nas suas coleções e, como resultado do Roadmap, iniciou um rethinking das coleções próprias. A responsável deu nota que caminham para o monomaterial, biobased e reciclado.
Jorge Leitão apresentou experiências semelhantes na Lameirinho, como a transformação de restos de corte em fios mais grossos para novas aplicações. Apesar do teste ter sido apresentado em feiras internacionais, o feedback em encomendas foi residual. Neste sentido, destacou as limitações da reciclagem mecânica em artigos de gama média/alta, onde preço e durabilidade são fatores críticos. No entanto, não baixa os braços e partilha que a empresa explora alternativas como uso de resíduos para isolamento acústico e luminoso, mas reconhece que a sensibilização do cliente é fundamental.
Filipa Costa complementou, referindo que a equipa comercial relata barreiras encontradas em feiras, como clientes que não aceitam alterações no toque ou acabamento final dos produtos, ou resistem ao impacto do preço.
“As empresas estão prontas para fazer cada vez melhor e com menor impacto. Falta o outro lado para termos impacto real”, concluiu Jorge Leitão.
Beatriz Tavares reforçou que o setor caminha para uma indústria mais verde, mas é crucial transferir conhecimento para o consumidor. “A União Europeia avança com medidas ecológicas, embora muitas sejam atrasadas. Precisamos de ser guardiões da sustentabilidade.”
Joana Leitão acrescentou que é igualmente importante transmitir estas mensagens às futuras gerações, educando filhos e netos sobre escolhas de consumo e preocupações ambientais.