24 março 26
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Fitecom, Riopele, Adventech e U.Porto exploram soluções inteligentes de água

O projeto GIATEX apresentou, na passada semana, as respostas encontradas pelo consórcio aos desafios da gestão inteligente da água. As empresas Riopele e Fitecom integraram o terceiro painel do evento, dedicado ao PPS3 – Novos produtos/sistemas inovadores e mais sustentáveis para apoio no tratamento de águas residuais. A este grupo juntaram-se também a Adventech e a Universidade do Porto.

Fernando Pereira, docente da FEUP, destacou a iniciativa como um exemplo de cooperação eficaz entre a academia e a indústria, sublinhando a capacidade de ambos os lados comunicarem numa linguagem comum e de passarem da ideia ao produto. Ainda assim, apontou como principal desafio a elevada variabilidade dos efluentes no sector.

Durante a mesa redonda, Sérgio Silva, fundador da Adventech, explicou que a missão da empresa passa por aliar a engenharia do ambiente e o tratamento de água industrial à investigação científica. “Sabíamos da variabilidade e sazonalidade, e propusemo-nos desenvolver tratamentos adaptados a este tipo de efluentes complexos”, referiu, acrescentando que a indústria necessita de sistemas robustos e estáveis à escala industrial, capazes de equilibrar o controlo de custos com o scale-up dos processos. “As empresas precisam de uma garantia absoluta de que a água tratada vai ter o comportamento esperado”, afirmou.

Por sua vez, João Carvalho, CEO da Fitecom, contextualizou a entrada da empresa no consórcio. Se inicialmente o tratamento da água era assegurado na ETAR da Covilhã, a necessidade de internalizar esse processo levou a empresa a considerar um investimento num projeto de tratamento biológico. Foi nesse momento que surgiu o convite para integrar o GIATEX. Ao longo do projeto, foram desenvolvidos estudos que culminaram na construção de uma ETAR própria. “A água sempre me preocupou. Desde a fundação, tentamos ser autossustentáveis, aproveitando águas pluviais, de arrefecimento e de enxaguamento”, explicou.

Seguidamente, Paulo Machado, diretor do departamento de qualidade, ambiente e segurança da Riopele, partilhou a experiência da empresa, que há 25 anos trabalha na reciclagem de água. Este processo começa na caracterização das correntes e na seleção das que podem ser tratadas. Atualmente, 59% dos efluentes da empresa são reintegrados no sistema – um resultado que, embora impressionante, decorre de sucessivas tentativas fora da zona de conforto, de um esforço contínuo e de uma abordagem holística. O responsável destacou ainda a existência de sistemas automatizados de captação de água, que evitam perdas, bem como a utilização de sensores de turbidez.

Numa segunda ronda de intervenções, Fernando Pereira abordou os desafios associados à matéria orgânica, desafios de cor e do sal. Em resposta, a Adventech apresentou detalhes sobre o piloto de tratamento MBR para efluente bruto, desenvolvido com o objetivo de remover essa matéria orgânica. Numa primeira fase, o processo assenta no tratamento biológico por membranas, que a Fitecom inicialmente considerava suficiente. No entanto, com a evolução do projeto, tornou-se necessário implementar também um tratamento por osmose inversa.

No final do projeto, a empresa de lãs espera alcançar poupanças de água na ordem dos 80%, combinando ganhos de eficiência nos processos com o tratamento de efluentes.

Do lado da Riopele, Paulo Machado apresentou outros indicadores do esforço desenvolvido, destacando a captação anual de 8 milhões de litros de águas pluviais. Para o responsável, um dos principais desafios é garantir a homogeneização da água. Nesse sentido, a empresa está a implementar uma câmara com inteligência artificial, capaz de analisar o floco e emitir alertas em tempo real, complementando o sistema já existente.

A Universidade do Porto acrescentou ainda a possibilidade de no futuro haver uma recuperação de sal dos processos, apontando para um amanhã em que a indústria não caminhe necessariamente para uma lógica “a seco”, mas sim para um modelo de zero waste.

A encerrar o painel, João Carvalho sublinhou o impacto positivo que espera que o projeto tenha junto dos clientes. “Espero melhorar a imagem em termos sociais e ambientais”, afirmou, deixando também um apelo a uma maior sensibilização da indústria da moda para a redução das remontas.

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