Bebiana Rocha
A indústria têxtil portuguesa já incorporou várias práticas de circularidade, mas continua pouco preparada para responder à vaga de regulamentação europeia que vai alterar a forma como os produtos são concebidos, rastreados e geridos no seu fim de vida. Esta é uma das principais conclusões do diagnóstico realizado a 36 empresas no âmbito do projeto Fashion Forward, que atribuiu ao conjunto uma maturidade circular média de 78,6 pontos em 100, mas encontrou na regulação a dimensão com pior desempenho.
O contraste é particularmente evidente no Passaporte Digital do Produto (DPP): 83,3% das empresas conhecem o conceito, mas apenas 31% consideram dispor dos dados necessários para responder às futuras exigências. Na área das emissões, a diferença é ainda maior: apesar de 86,1% monitorizarem o consumo de água e 83,3% a energia, apenas 44,4% possuem informação sobre emissões e pegada de carbono.
O diagnóstico e a visão estratégica do programa de mentoria Fashion Forward foram detalhados a 28 de julho, em Vila Nova de Famalicão, numa sessão que apresentou também o roteiro definido para acelerar a transformação circular do cluster têxtil do Vale do Ave.
A dimensão regulatória obteve a pontuação média mais baixa do estudo e um quarto das empresas permanece num nível de maturidade considerado emergente. Menos de metade conhece as duas áreas legislativas com maior impacto estrutural no setor: apenas 47,2% identificam os impactos do Regulamento de Ecodesign de Produtos Sustentáveis (ESPR) e 41,7% conhecem as implicações da Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP). O Regulamento de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) é a norma menos conhecida e, por isso, uma das prioridades imediatas de capacitação.
A pressão, contudo, já está a chegar às empresas por duas vias. 78,4% dizem sentir simultaneamente as exigências dos clientes e dos mercados e a regulação direta do setor, enquanto cerca de 90% já responderam a questionários de reporte ESG solicitados por clientes.

É neste contexto que os resultados do programa de mentoria ganham relevância. As nove empresas que receberam acompanhamento estratégico direto ao longo de quatro sessões atingiram uma maturidade circular média de 81,3 pontos, acima dos 77 pontos registados pelo grupo alargado sem mentoria. Os maiores impactos fizeram-se sentir nas dimensões ‘Do resíduo à peça’ e ‘Regulação como driver’, tendo o domínio da rastreabilidade e do DPP registado um aumento de 11,2 pontos entre as empresas acompanhadas.
A amostra de empresas mentoradas – Têxteis Penedo, Recutex, JF. Almeida, Troficolor Denim Makers, Fiavit, ATB, Quimfer, Barata Garcia e Retex – reuniu de forma inédita toda a cadeia de valor, incluindo o pós vida. Estiveram representadas: fiação, tecelagem e malha, tinturaria e acabamentos, confeção, trading e distribuição, reciclagem e plataformas de circularidade.
Também na gestão dos resíduos existe uma diferença entre saber gerir e conseguir criar valor. 75% das empresas conhecem as quantidades de resíduos que produzem e a separação está já consolidada, mas apenas 38,9% fazem uma valorização económica sistemática e 51% utilizam ou identificam esses resíduos como matéria-prima secundária.
No produto, a utilização de materiais reciclados está mais avançada: 88,9% das empresas já desenvolveram artigos com materiais ou fibras recicladas. A reciclabilidade futura, contudo, ainda não está suficientemente integrada no design, sendo considerada por apenas 47,2% das empresas na fase de conceção.
O Fashion Forward pretende agora transformar este diagnóstico numa agenda de ação para o território. Nos próximos meses está prevista a publicação formal dos resultados deste programa.
Foi lançado o desafio durante o evento de, num horizonte de um a dois anos, o roteiro formalizar um plano de ação local para a circularidade e uma nova avaliação dos níveis de maturidade, permitindo medir a evolução face à linha de base agora estabelecida. A ambição passa por aproveitar a concentração industrial do Vale do Ave para desenvolver soluções coletivas de simbiose industrial, recolha e triagem, recuperação de resíduos e produção de matérias-primas secundárias e à posteriori envolver também outras regiões, como o Vale do Cávado.
“O que não pretendemos é que isto seja apenas uma apresentação de resultados do programa, mas que daqui possam resultar mapas e planos estratégicos para aproximar a circularidade das empresas, dos territórios e das cidades”, afirmou Luís Cristino, cofundador da OMA, dando conta que a sessão de encerramento do projeto será também feita em Portugal, no mês de novembro.
O Fashion Forward é um projeto europeu de cooperação transnacional que envolve Portugal, Espanha e o sul de França e procura acelerar a transição da indústria têxtil e da moda para modelos mais sustentáveis, circulares e digitais. Em Portugal, conta com o CITEVE, a Têxteis Penedo e o Município de Vila Nova de Famalicão, com suporte técnico da OMA e da INOTEC.
