Bebiana Rocha
A EY apresentou, na passada semana, as tendências e oportunidades no setor da defesa e da segurança. Hermano Rodrigues, principal da consultora, dividiu a sua exposição em dois momentos: um primeiro mais estratégico e um segundo focado em Portugal.
O que se constata é que, fruto das alterações geoestratégicas e geopolíticas em curso, existe hoje uma dinâmica mais forte na Europa na área da defesa quando comparada com o passado. “Esta dinâmica vai acelerar”, afirmou. “Está-se a inverter um processo de subinvestimento. Há um aumento significativo do investimento em defesa e segurança, sobretudo nos países de maior dimensão.”
A Comissão Europeia tem vindo a assumir responsabilidades crescentes nesta área, estando já em implementação um conjunto de iniciativas europeias, num valor total de 800 mil milhões de euros, dirigidas à defesa e a contextos adjacentes.
O crescimento da procura reflete-se na projeção de investimento público nas principais regiões do mundo. A meta da NATO de alocar 2% do PIB à defesa aponta para um crescimento estimado de 5,3% entre 2019 e 2030. Na União Europeia, o incremento previsto é de 8,7%. No Médio Oriente, também se espera um aumento das despesas com defesa, liderado pela Arábia Saudita, com uma variação estimada de 7,2% no mesmo período. Na América Latina, Hermano Rodrigues destacou oportunidades, sobretudo na reparação e comercialização de equipamentos obsoletos, com um crescimento estimado de 6,4%. Já os BRICS apresentam uma forte dinâmica, impulsionada sobretudo pela Rússia e pela China, com uma expansão projetada de 8,6%. Ainda assim, a NATO continua a concentrar o maior volume de investimento global.
Hermano Rodrigues reconheceu que existem ritmos de crescimento distintos, em parte porque os contextos de partida também são diferentes. “A inovação está a alterar as características subjacentes à defesa. Há uma lógica crescente de duplo uso nas economias. Os processos de inovação são agora mais bidirecionais”, sublinhou.
No âmbito da Estratégia Industrial Europeia de Defesa para 2030, destacou três metas principais: 40% das aquisições de defesa deverão ser conjuntas entre países da União Europeia; 35% do valor do mercado europeu da defesa deverá resultar de comércio intracomunitário; e 50% dos orçamentos de contratação pública em defesa deverão ser canalizados para fornecedores sediados na UE. Atualmente, recordou, a defesa europeia continua a depender em larga medida de fornecedores estrangeiros, nomeadamente norte-americanos, o que evidencia que o setor está num claro processo de transformação.
Sobre o conceito de dual use (duplo uso), apresentou vários exemplos de tecnologias com aplicação civil e militar: inteligência artificial, cibersegurança, computação quântica, sistemas de navegação, radares e sistemas sensorizados, exoesqueletos, satélites e drones.
O responsável da EY abordou ainda as barreiras à entrada neste setor. “As elevadas barreiras de entrada em defesa e segurança limitam a concorrência, mas oferecem aos investidores potencial ainda pouco explorado e lucros estáveis, impulsionados pelo aumento da procura e pelos contratos públicos.” Entre os principais obstáculos, apontou a forte regulação, políticas e exigências de conformidade, propriedade intelectual e tecnologias proprietárias, elevados investimentos de capital e longos ciclos de produção, acesso restrito a contratos governamentais, necessidade de diferenciação técnica e investimento prolongado em I&D, além da complexidade da cadeia de abastecimento.
Outro dos temas abordados foi a fragmentação da cadeia de valor. Segundo Hermano Rodrigues, o setor da defesa — particularmente entre fornecedores de nível 2 e nível 3 (tier 2 e tier 3 contractors) — continua altamente fragmentado, o que cria oportunidades de consolidação, nomeadamente para fundos de private equity.
Neste contexto, salientou que Portugal pode tornar-se um interveniente relevante na cadeia de abastecimento europeia da defesa, apesar da sua dimensão ainda reduzida. Entre os fatores favoráveis identificados estão a base industrial existente, com competências relevantes para processos de remilitarização; capacidade instalada subutilizada em vários setores; condições económicas favoráveis; predisposição de fabricantes para entrarem no espaço da defesa; interesse de investidores e fundos de capital em aplicar recursos neste setor; e um enquadramento político favorável.
No caso português, Hermano Rodrigues revelou que existem 444 empresas no ecossistema da defesa, com um valor agregado de vendas de 11 mil milhões de euros. Contudo, ressalvou que a informação disponível ainda é limitada e pouco robusta. Considera, por isso, essencial criar um identificador claro para perceber quem são efetivamente as empresas com atividade de duplo uso e como tem evoluído a proporção deste negócio.
A defesa representa atualmente 2,5% das exportações nacionais totais. Entre 2012 e 2025, o setor registou um crescimento de 110%.
“Portugal está hoje plenamente alinhado, quer ao nível institucional, quer em termos de trajetória de investimento, com a agenda europeia da defesa”, resumiu. Entre os principais instrumentos deste enquadramento destacou a Estratégia BTID 2023-2033, um plano industrial de defesa com horizonte de uma década; a idD Portugal Defence, holding estatal que gere participações públicas em empresas do setor e coordena a plataforma Smart Defence; a Lei de Programação Militar, que estabelece um quadro de aquisições para 12 anos, com 5,5 mil milhões de euros programados entre 2023 e 2034 e incentivos à incorporação de conteúdo nacional; e ainda o acesso a financiamento europeu e da NATO, com Portugal envolvido em mais de 17 projetos do Fundo Europeu de Defesa (EDF) e elegível para instrumentos como SAFE, EDIP, EUDIS, o NATO Innovation Fund e o programa DIANA.