04 setembro 26
Relações Internacionais

Bebiana Rocha

Euro-Med quer transformar proximidade em vantagem para o têxtil

A proximidade geográfica entre a Europa e o Mediterrâneo abre uma oportunidade concreta para construir cadeias de valor têxteis mais resilientes, mas concretizá-la exige maior integração, investimento e cooperação entre os diferentes mercados. Esta foi uma das principais conclusões da primeira edição da conferência Euro-Med Textiles, que decorreu esta quinta e sexta-feira, em Tunes, sob o tema “Construir uma cadeia de valor têxtil Euro-Mediterrânica resiliente”.

Organizado em colaboração com a EURATEX, a Federação Tunisina do Têxtil e do Vestuário (FTTH), GIZ, SIPPO e International Trade Centre, o encontro reuniu mais de 120 participantes da União Europeia, Egito, Marrocos, Tunísia e Turquia, com o objetivo de aprofundar a integração das cadeias de abastecimento e discutir os desafios colocados pela transformação do setor europeu. O evento integrou o projeto Tunisia Circular Apparel, desenvolvido pelo CBI.

A participação da EURATEX colocou em evidência o potencial ainda por explorar nas relações comerciais entre a União Europeia e os parceiros mediterrânicos. O presidente da confederação europeia, Mário Jorge Machado, defendeu que “a região Euro-Med pode reforçar a sua posição enquanto parceiro de aprovisionamento resiliente da Europa”, numa perspetiva em que a proximidade pode ser transformada numa vantagem para as cadeias de fornecimento europeias.

Rapidez, flexibilidade e capacidade de resposta são algumas das características que distinguem esta região enquanto potencial plataforma de aprovisionamento apontou. A possibilidade de produzir têxteis de maior valor acrescentado constitui outra das vantagens identificadas pela EURATEX, num momento em que a indústria europeia procura reforçar a resiliência das suas cadeias de abastecimento.

Mas a construção desse ecossistema enfrenta ainda obstáculos significativos. Entre os principais desafios estão a disponibilidade regional de matérias-primas e bens intermédios, a melhoria dos processos logísticos e aduaneiros e o investimento em tecnologia e automação. A EURATEX acrescenta ainda a necessidade de reforçar as competências disponíveis e de estabelecer relações mais duradouras entre compradores e fornecedores.

A mensagem que atravessou os debates foi clara: a competitividade não será alcançada pela atuação isolada de cada país. “O potencial da região dependerá da capacidade de combinar as diferentes especializações industriais e aproveitar as forças complementares dos produtores mediterrânicos e europeus para construir uma cadeia de valor efetivamente integrada”.

A sustentabilidade ocupou também um lugar central nos debates, nomeadamente na sessão dedicada à relação entre sustentabilidade e proximidade. A questão colocada foi além do cumprimento das novas exigências europeias: poderá a transição sustentável transformar-se numa proposta de valor competitiva para o ecossistema Euro-Med?

Para a EURATEX, a resposta passa por transformar as exigências regulatórias em ações concretas ao longo da cadeia, apoiadas por investimento, alinhamento regulamentar e responsabilidade partilhada entre os diferentes intervenientes.

Esta dimensão assume particular importância num contexto de crescente pressão sobre as empresas europeias para reduzir o impacto ambiental, melhorar a rastreabilidade e adaptar os processos produtivos às novas regras comunitárias. A conferência permitiu, assim, cruzar a agenda de sustentabilidade com a discussão sobre proximidade e resiliência das cadeias de abastecimento.

A dimensão política do encontro reforçou esta visão. Giuseppe Perrone, embaixador da União Europeia na Tunísia, considerou que o nearshoring euro-mediterrânico abre novas perspetivas para a indústria têxtil e do vestuário, mas insistiu que a proximidade geográfica só se poderá transformar numa vantagem sustentável através de uma ação coordenada.

“A UE está preparada para acompanhar esta dinâmica através do diálogo político, da experiência especializada, dos instrumentos financeiros e das parcerias com o sector privado”, afirmou, enquadrando esta abordagem no Pacto para o Mediterrâneo, que tem entre os seus objetivos reforçar as trocas comerciais, estimular o investimento e desenvolver parcerias industriais.

A discussão realizada em Tunes coloca, desta forma, uma questão que ultrapassa as relações bilaterais entre a Europa e cada um dos seus parceiros mediterrânicos: pode o espaço Euro-Med funcionar como um ecossistema industrial integrado, capaz de oferecer à indústria europeia maior proximidade, flexibilidade e resiliência?

A resposta dependerá da capacidade de transformar os compromissos políticos em investimento, infraestruturas, competências e relações empresariais ao longo da cadeia de valor. Para a EURATEX e os restantes intervenientes, a oportunidade existe; o próximo passo será criar as condições para a concretizar.

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