Ana Rodrigues
A Euratex, representante da indústria têxtil europeia, ainda que apoie a estratégia têxtil da Comissão Europeia apresentada no ano passado, alerta para a necessidade de equilibrar o processo entre sustentabilidade com competitividade. A estratégia comum, segundo a Euratex, deve ser considerada com cautela.
Primeiramente, porque, refere, a Comissão está atualmente a elaborar pelo menos 16 peças de legislação que pretendem transformar a indústria têxtil num sector estritamente regulamentado e a qualidade desse novo quadro regulatório deve ser fundamental para o sucesso da estratégia. Seguidamente, é necessário considerar que as empresas têxteis irão necessitar de financiamento substancial para cumprirem este novo quadro e esse financiamento deve ser destinado em exclusivo ao sector e apenas às áreas de inovação e digitalização.
Mais ainda, a estratégia da UE exige a procura de têxteis sustentáveis por parte dos consumidores individuais e das autoridades públicas. No entanto, são necessárias medidas concretas para que seja oferecida uma vantagem competitiva aos produtos têxteis sustentáveis e de alta qualidade, nomeadamente uma taxa de IVA diferente, regras rígidas de aquisição e uma cooperação mais estreita entre marcas/retalhistas, produtores e consumidores.
Por fim, a estratégia pode falhar se a dimensão global da indústria têxtil for ignorada. Até 80% dos produtos de vestuário são produzidos fora da UE e esses produtos precisam de cumprir as novas regras – mas não existe forma de garantir condições equitativas. Nesse sentido, a vigilância do mercado precisa de ser intensificada, incluindo vendas online, o que exigiria esforços significativos dos Estados-membros – que atualmente não estão disponíveis.
Assim, para tornar as empresas mais fortes e, ao mesmo tempo, garantir que os benefícios superem os custos, a indústria precisa de fazer uma transição ecológica e digital bem-sucedida. Porém, a guerra russa na Ucrânia eclodiu quase ao mesmo tempo que o lançamento da estratégia da Comissão, o que dificultou a transição, sobretudo devido ao aumento dos preços da energia, aos bloqueios prolongados na China e às políticas defensivas nos EUA.
“Queremos ser um líder global em têxteis sustentáveis, com base no empreendedorismo, qualidade e criatividade de cerca de 150 mil empresas têxteis europeias. Criar essa nova estrutura é um desafio incrível, que exige um diálogo próximo entre a indústria e o regulador. Mas, bem concebido e cuidadosamente implementado, pode definir uma nova era para a indústria têxtil europeia”, conclui Dirk Vantyghem, diretor-geral da Euratex, em comunicado.