20 maio 26
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Estudo português aponta DPP como peça-chave para a competitividade

O Passaporte Digital de Produto (DPP) representa uma oportunidade para o setor têxtil e vestuário português, destacando-se sobretudo pela consolidação de dados atualmente dispersos num sistema unificado. Esta é a conclusão do artigo científico “Circular Economy: literature review on the implementation of the DPP in the Textile Industry”, da investigadora Catarina Carvalho, doutorada em Engenharia Têxtil e membro do 2C2T, com orientação do CITEVE e da Universidade do Minho.

O estudo analisa o papel da economia circular e do ciclo de vida dos produtos, bem como a implementação do DPP no setor, identificando benefícios para empresas e consumidores. Entre as principais vantagens destacam-se a maior transparência ao longo da cadeia de valor, a verificação mais simples de alegações de sustentabilidade, o acesso a informação detalhada por parte do consumidor e o desenvolvimento de novos modelos de negócio. O artigo sublinha ainda impactos positivos no design, produção, logística e decisões de compra, bem como o reforço da rastreabilidade e da responsabilização dos diferentes intervenientes.

Nas conclusões, o trabalho defende que a gestão inteligente dos dados ao longo do ciclo de vida do produto será determinante para uma transição sustentável, permitindo o desenvolvimento de produtos mais circulares, duráveis e eficientes. Ainda assim, reconhece que a implementação do DPP será gradual e complexa para a maioria das empresas.

Em entrevista, Catarina Carvalho sublinha que a competitividade da indústria já não depende apenas do preço, da rapidez ou da capacidade produtiva, mas também de fatores ambientais, digitais e regulatórios. Neste contexto, defende que a ciência é essencial para transformar a indústria de um modelo reativo para um sistema mais preditivo, transparente e orientado por dados.

A investigadora destaca o contributo da investigação no desenvolvimento de novos materiais sustentáveis, fibras recicladas ou biodegradáveis, processos de menor impacto ambiental e ferramentas digitais de rastreabilidade, bem como no apoio à adaptação a regulamentos europeus como o Ecodesign for Sustainable Products Regulation e o próprio DPP.

Para Catarina Carvalho, esta evolução será determinante para reposicionar a indústria portuguesa em segmentos de maior valor acrescentado, defendendo que Portugal deve competir não apenas pela produção, mas pela capacidade de produzir com mais conhecimento, transparência e responsabilidade ambiental.

Um dos principais desafios do DPP será a confiabilidade dos dados, que deverão ser verificáveis, comparáveis e atualizados. A investigadora alerta ao T Jornal que, sem normas comuns, verificação independente e governação clara, o sistema pode perder eficácia e tornar-se apenas uma camada digital sem verdadeira transformação.

Nesse sentido, defende a necessidade de harmonização de dados, metodologias e critérios de verificação, bem como mecanismos de auditoria e validação externa para evitar riscos de greenwashing. Sublinha ainda que a tecnologia – incluindo inteligência artificial e blockchain – pode reforçar a rastreabilidade e a integridade da informação, mas não substitui a governação e a responsabilidade na gestão dos dados.

A IA poderá apoiar a análise de grandes volumes de informação, prever impactos ambientais, otimizar processos e apoiar decisões de ecodesign, enquanto o blockchain poderá reforçar a rastreabilidade em cadeias globais. Ainda assim, “o sucesso do DPP dependerá da qualidade dos dados, da colaboração entre empresas e da definição clara de responsabilidades”.

No caso português, Catarina Carvalho vê uma oportunidade estratégica relevante, assente numa indústria têxtil já fortemente industrializada, com aposta crescente em inovação, sustentabilidade e digitalização. O DPP poderá ainda abrir caminho a novos modelos de negócio, como reparação, reutilização, revenda e reciclagem.

Apesar disso, alerta para desafios significativos, sobretudo nas PME, que enfrentam limitações de maturidade digital e recursos para implementar sistemas complexos de gestão de dados. Entre os principais obstáculos estão também a interoperabilidade entre sistemas, a proteção de informação sensível, a cibersegurança e a atualização contínua dos dados.

A investigadora conclui que a harmonização será essencial para evitar um sistema fragmentado e burocrático, defendendo que o objetivo deve ser transformar o DPP numa ferramenta de competitividade, transparência e aceleração da transição sustentável da indústria têxtil europeia.

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