04 setembro 26
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Estudo da FFMS mostra como Portugal está a usar a sustentabilidade na moda

A sustentabilidade está a deixar de ser apenas uma exigência ambiental para assumir um papel estratégico na competitividade da indústria têxtil e vestuário portuguesa. Esta é uma das principais conclusões do estudo “Sustentabilidade na Moda: Inovação e Competitividade em Portugal”, publicado esta sexta-feira pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e assinado por Céline Abecassis-Moedas, Laura Leglise e Mariana Pereira Silva.

A investigação, desenvolvida entre 2022 e 2024, analisa diferentes inovações desenvolvidas em Portugal para reduzir a pegada ambiental dos produtos de moda e procura perceber de que forma estas soluções podem contribuir para a competitividade económica do setor.

O trabalho parte de uma ideia particularmente relevante para a indústria portuguesa: a cadeia de valor têxtil já não pode ser entendida segundo o modelo tradicional em que as marcas assumem o papel central na definição da inovação e os fornecedores se limitam à execução industrial. Em Portugal, defendem os autores, o conhecimento técnico, a maquinaria, o investimento e a capacidade produtiva estão a assumir um papel determinante no desenvolvimento de novos materiais e processos.

O estudo está organizado em seis capítulos e aborda a sustentabilidade a partir das suas dimensões ambiental, social e financeira, antes de se centrar na inovação orientada para a sustentabilidade e no papel das colaborações ao longo da cadeia de valor.

Colaboração como motor de inovação

A investigação recorreu a 13 entrevistas com especialistas do setor, entre os quais representantes da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal e do CITEVE, e complementou esta análise com a observação de eventos profissionais, incluindo a conferência anual da EURATEX. Foram ainda desenvolvidos sete estudos de caso, abrangendo diferentes etapas da cadeia de produção, e são estes sete casos o corpo principal.

Entre os exemplos identificados está a colaboração entre a RDD e a marca portuguesa ISTO., no desenvolvimento de uma T-shirt em algodão regenerativo. Outro dos casos acompanha o desenvolvimento de umas calças em poliéster reciclado, numa colaboração que envolveu a Riopele, a empresa dinamarquesa Shaping New Tomorrow e um produtor norte-americano de fibras.

A investigação acompanha também uma T-shirt de desporto em liocel Tencel, desenvolvida pela marca Winqs em colaboração com uma empresa portuguesa. Outro dos casos permite observar uma cadeia de valor portuguesa de forma mais abrangente. Silsa, Acatel, Inovafil e Casa da Malhas foram acompanhadas no desenvolvimento de peças de vestuário em algodão regenerativo, numa colaboração que surge novamente no quinto estudo de caso, desta vez associada ao desenvolvimento de têxteis à base de ácido polilático produzido a partir de fontes de açúcar, com a participação da Noosa e de uma marca francesa.

A inovação no tingimento surge igualmente como uma das áreas analisadas, através do trabalho conjunto da Colorifix, RDD e uma marca sediada no Reino Unido, num processo de tingimento com recurso a microrganismos. Já o último caso estudado acompanha a colaboração entre a Somelos e a Archroma no desenvolvimento de um processo de tingimento e acabamento mais sustentável para tecidos de ganga, através da tecnologia Pad-Dry/Ox.

Da reciclagem de resíduos aos novos materiais

Além dos estudos de caso, o documento apresenta vários exemplos de empresas e projetos que ilustram a diversidade de respostas que estão a surgir no setor.

A Altri é referida a propósito da construção de uma biofábrica na Galiza, destinada à produção de fibras têxteis à base de celulose, com uma capacidade prevista de cerca de 200 mil toneladas por ano.

Na área dos processos produtivos, a Tintex é destacada pelo trabalho desenvolvido no tingimento sustentável, nos revestimentos sem petróleo e na utilização de resíduos de outras indústrias como matéria-prima, nomeadamente através do projeto Invinotex.

A circularidade surge, por sua vez, associada à PlayUp, marca ligada ao grupo Etfor. O estudo destaca a utilização dos próprios resíduos têxteis pré-consumo para produzir o fio Replay, bem como o desenvolvimento de um programa para trabalhar os resíduos pós-consumo. A marca é ainda apresentada como exemplo de integração da circularidade no design, através do desenvolvimento de peças concebidas para acompanhar o crescimento das crianças.

Também o projeto Loop, da FORTeams Lab, é analisado como exemplo de circularidade aplicada ao setor desportivo, através da recolha de artigos desportivos não utilizados e da sua preparação para uma segunda vida.

Investir para consolidar a vantagem competitiva

Apesar dos diferentes exemplos demonstrarem a capacidade da indústria portuguesa para desenvolver soluções de menor impacto ambiental, o estudo deixa também recomendações para a próxima etapa.

Os autores concluem que Portugal conseguiu utilizar a sustentabilidade e a inovação como instrumentos para preservar uma posição de destaque enquanto fornecedor da indústria europeia. Para manter essa vantagem, contudo, será necessário transformar as relações estabelecidas ao longo da cadeia de valor em opções estratégicas de longo prazo.

Entre as recomendações está a adoção, por parte dos fornecedores, de uma abordagem mais estratégica ao investimento em ativos específicos das relações que estabelecem com os seus parceiros. O estudo aponta, em particular, para a importância do investimento em certificações, formação e processos organizacionais.

 

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