Bebiana Rocha
O Passaporte Digital de Produto (DPP) é um desafio transversal que exige o envolvimento de toda a cadeia de valor. Esta foi uma das principais mensagens deixadas por Ana Gonçalves, Chief Product Officer da DataColab, durante o seminário promovido pela SGS, no passado dia 21 de maio, na Casa de Camilo, em Vila Nova de Famalicão.
Perante uma plateia ligada à indústria têxtil e vestuário, a responsável enquadrou o tema no contexto da política europeia, recordando os objetivos do Green Deal e a meta da neutralidade climática até 2050, bem como a Estratégia Têxtil para 2030, que tem vindo a evoluir no sentido de reforçar a incorporação de conteúdo reciclado nos produtos, a responsabilidade alargada do produtor e os princípios do ecodesign previstos no Regulamento ESPR.
No entanto, o foco da apresentação esteve sobretudo nos passos que as empresas devem começar a dar para se prepararem para a chegada do DPP. «Neste momento tem de se fazer um mapeamento da cadeia de fornecedores e identificar lacunas de dados», sublinhou Ana Gonçalves. Entre as prioridades identificadas estão a implementação de sistemas de rastreabilidade, a avaliação dos requisitos de informação por categoria de produto, a seleção de parceiros tecnológicos para integração e a revisão dos contratos com fornecedores, introduzindo cláusulas de transparência.
A responsável recordou que o setor têxtil e vestuário trabalha com produtos de ciclo de vida prolongado, o que coloca exigências acrescidas ao sistema. «É suposto este identificador único persistir ao longo desse ciclo de vida, pelo menos durante 25 anos», salientou, defendendo a necessidade de encontrar formatos que garantam a preservação e transferência da informação ao longo do tempo e entre diferentes utilizadores.
Além de assegurar a identificação do produto, o DPP deverá disponibilizar informação detalhada para diferentes stakeholders, incluindo recicladores, reguladores e certificadores. Dados sobre composição de fibras e materiais, reparabilidade, durabilidade e reciclabilidade serão alguns dos elementos considerados essenciais. «A base do Passaporte é garantir que a peça tem mais possibilidades para ser usada», resumiu.
A harmonização dos sistemas digitais será igualmente determinante. Ana Gonçalves alertou para a necessidade de os fornecedores de software trabalharem de forma alinhada e em conformidade com os requisitos regulamentares. «A informação constante deverá ser comum», afirmou, defendendo soluções de registo simplificadas face ao elevado volume de produtos que terão de ser abrangidos.
Quanto ao calendário de implementação, a responsável reconheceu que continuam a existir aspetos regulamentares por clarificar, mas apontou como marcos principais a publicação do ato delegado para os têxteis ainda este ano, a entrada dos primeiros DPP obrigatórios em 2027, o alargamento a novas categorias em 2028 e a obrigatoriedade generalizada até 2030.
Para apoiar a preparação das empresas, apresentou um roteiro dividido em três fases. Entre o primeiro e o terceiro quadrimestre de 2026, o foco deverá estar no diagnóstico e mapeamento, através da auditoria aos dados existentes – ERP, PLM e fichas técnicas -, do mapeamento dos fornecedores de diferentes níveis e da identificação das categorias de produto prioritárias, complementados por uma análise de lacunas face aos requisitos do ESPR.
Numa segunda fase, entre o terceiro quadrimestre de 2026 e o primeiro quadrimestre de 2027, as empresas deverão concentrar-se na implementação técnica, com a seleção e configuração da plataforma DPP, integração com os sistemas internos, onboarding dos fornecedores críticos e realização de projetos-piloto em duas ou três linhas de produto.
Já entre o segundo e o quarto quadrimestre de 2027, a operacionalização deverá estar em marcha, abrangendo o rollout para toda a gama de produtos, a geração dos passaportes digitais para as categorias prioritárias, processos de verificação e validação por auditoria e os primeiros exercícios de reporte de conformidade.
Apesar do caminho definido, Ana Gonçalves reconheceu as dificuldades que persistem. «A recolha de dados é complexa, não há tempo para os recolher no dia a dia e os dados estão descentralizados», referiu, apontando ainda a falta de interoperabilidade entre sistemas como um dos principais obstáculos a ultrapassar.
Na sua visão, os dados obrigatórios deverão organizar-se em quatro grandes áreas: sustentabilidade, produção e rastreabilidade, identificação e acesso, e fim de vida circular. Foi precisamente para responder a estes desafios que apresentou a proposta de valor da DataColab, assente na gestão do fluxo de dados, gestão da cadeia de fornecedores, avaliação do ciclo de vida (LCA) e partilha de informação com os diferentes stakeholders.
A responsável fez ainda questão de sublinhar que o DPP não é apenas uma responsabilidade dos fabricantes. «É importante que as marcas mobilizem a cadeia», afirmou, lembrando que o sucesso da implementação dependerá do envolvimento de todos os intervenientes.
Na reta final da apresentação, destacou a importância da granularidade da informação. Quanto maior for a qualidade e profundidade dos dados recolhidos, maiores serão as possibilidades de tomar decisões informadas, aumentar a transparência, criar valor para o produto e aceder a mecanismos de financiamento verde.
A mensagem final foi clara: a exigência regulatória vai aumentar. A economia circular e a transparência já estão presentes em várias iniciativas legislativas europeias e a preparação das empresas é agora um fator crítico para garantir competitividade e conformidade nos próximos anos.