24 setembro 25
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Desafios da circularidade têxtil em debate na Lipor

A circularidade no setor têxtil esteve ontem em debate na mesa-redonda “Como se cose a circularidade dos têxteis”, promovida pela LIPOR no âmbito do projeto Be@t. O encontro reuniu representantes da indústria e da gestão de resíduos para discutir os desafios e as oportunidades da reciclagem têxtil em Portugal e na Europa, com a participação de Ana Tavares (RDD), Nuno Lima (Refibertech), Ana Dinis (ATP), Manuel Teixeira (ANIVEC) e Filipe Carneiro (LIPOR).

Ana Dinis, diretora-geral da ATP, começou por destacar as dificuldades acrescidas que as plataformas de ultra fast fashion trouxeram à Indústria Têxtil e do Vestuário (ITV) europeia. Recordando que, na semana passada, as associações europeias assinaram uma declaração contra este modelo de consumo acelerado.

“Não conseguimos controlar os produtos, não conseguimos medir, monitorizar, nem saber a sua qualidade. O produto vai diretamente para a casa do cliente final”, afirmou. Defendendo a necessidade de taxar estes pacotes e travar a fraude fiscal já identificada. Durante a sua intervenção censurou a inação europeia: “Já passou demasiado tempo e não acontece nada do lado das entidades europeias, enquanto isso a indústria está a deixar de vender e a destruir-se”.

Ana Dinis sublinhou que a estratégia da ATP continuará a assentar no trabalho de pressão política: “Continuar a ‘massacrar’ as pessoas responsáveis e atribuir responsabilidades pela inação”, disse. Deu ainda o exemplo da França, que já avançou com medidas individuais, criando uma “dupla pressão”.

Lembrou, por último, a responsabilidade de todos como consumidores e alertou que os “30 meses” previstos no novo regulamento europeu para reduzir o desperdício têxtil “é pouco para a dimensão do problema”. Chamando ainda a atenção para os riscos de uma transposição desalinhada com os interesses da indústria e defendendo que é preciso monitorizar o mercado e “acabar com os minimis, no imediato”.

Remotamente, Nuno Lima, da Refibertech, apresentou a missão e os parceiros da empresa, reconhecendo que a separação dos resíduos “é um desafio grande, sobretudo do ponto de vista da garantia da qualidade”.

Já Ana Tavares, CEO da RDD, falou da sua participação nos ReHubs, que nasceram em 2020 no âmbito da Euratex. Sublinhou a importância desta rede para o acesso a informações em tempo real da União Europeia, que não chegam às empresas por parte das autoridades portuguesas.

“Tem de haver uma agilização maior por parte de quem tem poder para legislar, não são as empresas que legislam. A situação arrasta-se há muito tempo. Quando se tem contacto com outros países vemos que podíamos ser mais céleres”, criticou.

Questionou ainda se “nos outros países não haverá as mesmas dificuldades que falam em transpor”, lamentando que Portugal corra “o risco de ficar para trás por questões burocráticas”.

A CEO da RDD acrescentou que “é muito satisfatório integrar este grupo porque há um alinhamento entre todos, há um remar para conseguir novas soluções, angariar financiamento”. E deixou um pedido: “Espero que a Europa não dê agora um passo atrás, como se está a perspetivar para o DPP. Os interesses de todos os stakeholders têm de estar alinhados. Portugal não pode continuar a operar no mercado se não for por esta via”.

Da parte da LIPOR, Filipe Carneiro reforçou a necessidade de garantir soluções para o destino do material recolhido. “Tem de ser garantida a saída do material gerado”, disse, apontando o exemplo do vidro, em que apenas 60% é reintegrado. Chamou ainda a atenção para o problema das peças de baixa qualidade e lembrou que “somos todos precisos para trabalhar em cadeia”.

Já Manuel Teixeira, da ANIVEC, destacou a fragmentação da ITV, alinhando com Ana Dinis na constatação de que “as marcas não têm os mesmos interesses da indústria”. “O mercado do vestuário está muito diferente. Foi inundado por artigos de baixo valor, por uma explosão de consumo de artigos vindos do mercado chinês. É um mercado profundamente diferente do que havia antes da pandemia”, observou.

Manuel Teixeira denunciou igualmente a concorrência desleal que atravessa a Europa e alertou que o modelo de responsabilidade alargada do produtor “foi pensado para uma indústria mais próxima das marcas”. Deixou também um aviso: “Esperamos avançar bem para não matar toda a indústria na Europa”.

Sublinhou, por fim, que “somos dos poucos países que tem uma indústria capaz de ser verdadeiramente circular”, mas para isso é preciso criar mercado. “O eco valor vai ter de ser passado para o consumidor, uma vez que o produtor não tem margem”, sinalizou ainda.

Entre as frases-chave deixadas nesta mesa-redonda, Ana Dinis sintetizou: “Não são os regulamentos que per si nos vão tornar mais competitivos, mas podem ser um pilar importante. Sozinhos não vamos a lado nenhum, temos de nos integrar melhor em rede para resolver os desafios”.

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