Bebiana Rocha
Cinco espaços, cinco perspetivas. Foi desta forma que o be@t apresentou os resultados finais de um projeto que se estendeu ao longo de quatro anos e envolveu 58 parceiros num consórcio mobilizador que acabou por ganhar vida própria, demonstrando que a bioeconomia têxtil não é apenas uma visão para o futuro, mas uma realidade já presente.
A par das conferências, a organização transformou um piso do Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões num espaço expositivo composto por demonstradores organizados segundo o conceito de diferentes espaços: uma loja, uma garagem, um quarto, uma sala de estar e jantar e um laboratório. Cada um destes espaços reuniu evidências do trabalho desenvolvido e das possibilidades concretas de novos produtos de elevado valor acrescentado para o ecossistema têxtil nacional.
A Loja do Futuro foi concebida não como um simples ponto de venda, mas como um espaço de informação, responsabilidade e recolha. Neste ambiente foram abordados temas como a rastreabilidade, o Passaporte Digital do Produto, as peças reconvertidas e a recolha de têxteis pós-consumo, demonstrando que a sustentabilidade depende de informação clara e de decisões mais conscientes ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos. Participaram neste espaço o CITEVE, Confetil, Fermir, J. Gomes, Lipor, MO, Raiz, Riopele, Salsa, Valerius 360 e Zippy.
A área incluiu peças com Passaporte Digital do Produto, coordenados desenvolvidos segundo princípios de ecodesign, soluções com incorporação de materiais reciclados e novas abordagens para prolongar o ciclo de vida dos têxteis. Estiveram também em destaque exemplos de remoção de estampados e reestampagem, uma caixa de recolha pós-consumo que assinalava a importância das campanhas de recolha e separação, bem como um espaço dedicado a acessórios, com botões e cabides produzidos em biocompósitos resultantes de simbioses industriais.
Na Garagem, o foco incidiu sobre a aplicação da bioeconomia à mobilidade, aos acessórios e à construção. Este espaço evidenciou o potencial dos não tecidos e dos biorrevestimentos, conjugando desempenho, leveza, durabilidade, reciclabilidade e valor estético. As entidades envolvidas foram o CeNTI, CITEVE, ERT e TMG Automotive.
Entre os exemplos apresentados encontravam-se um painel de porta produzido com materiais de base biológica, não tecidos para isolamento, um banco automóvel biorevestido, soluções têxteis intermédias e fios híbridos. Em destaque esteve ainda um relógio em biocompósito, produzido através de impressão 3D, demonstrando como os novos materiais podem dar origem a objetos funcionais para o quotidiano.
O Quarto, enquanto espaço mais íntimo, apresentou soluções desenvolvidas a partir de materiais de origem biológica e reciclada, aplicadas à roupa de cama, toalhas e outros elementos associados ao conforto, à decoração e ao descanso. Participaram neste espaço a Belfama, o CeNTI, o CITEVE, a Lameirinho, a Oldtrading, a Raiz e a Tintex.
Entre os demonstradores foi possível observar uma cabeceira de cama forrada com não tecido termomoldado produzido a partir de algodão mecanicamente reciclado e poliéster bicomponente; roupa de cama, edredão e almofadas em cetim de algodão orgânico estampados com pastas de base biológica que incorporam cinza de caldeira de biomassa, poda de videira e casca de pinheiro; uma toalha de felpo 100% algodão com acabamento antiodor, funcionalizada com extrato aquoso obtido a partir de resíduos da produção de cerveja; painéis decorativos com aplicações em não tecido produzidas com algodão mecanicamente reciclado e ácido polilático; um biombo forrado com malha revestida e incorporação de resíduos de casca de amêndoa. Nos armários encontravam-se ainda várias peças de vestuário, entre as quais um fato de desporto seamless sem elastano.
Já a Sala de Estar e Jantar demonstrou como é possível valorizar resíduos e subprodutos provenientes de outros setores, incluindo cortiça, casca de pinheiro, casca de amêndoa, casca de ovo, bugalho, resíduos da produção de cerveja, folha de oliveira, bagaço de uva e borras de café. O resultado traduz-se em têxteis com identidade própria e elevado valor acrescentado.
Entre as peças apresentadas encontravam-se toalhas de mesa em tecido jacquard produzidas com fios de algodão revestidos com resíduos de cortiça e casca de pinheiro; cadeiras estofadas com malha de algodão orgânico revestida com uma formulação de base biológica incorporando casca de ovo; capas de almofada em malha revestida com casca de amêndoa e casca de ovo, complementadas com botões em biocompósito; uma manta produzida com fio de algodão reciclado e poliéster reciclado, estampada por space dyeing com infusões de dréche, folha de oliveira e casca de pinheiro; um cobertor produzido com algodão reciclado e liocel, estampado por space dyeing com infusões de bagaço de uva e borras de café; um tabuleiro individual produzido em cânhamo colorido com bugalho; um quadro Photfabric desenvolvido com tecido jacquard produzido a partir de fios de algodão revestidos com resíduos de cortiça e casca de pinheiro; e um vaso em não tecido agulhado, produzido com liocel e funcionalizado com lenhina. Nesta divisão participaram o CeNTI, o CITEVE, a Cork-a-Tex, a JF Almeida, a Têxteis Penedo, a Tintex e a Raiz.
Por último, o Laboratório representou o espaço onde tudo acontece: onde as soluções são testadas, validadas e preparadas para avançar para novas fases de desenvolvimento. Frascos, gobelés, placas de Petri, amostras e outros equipamentos laboratoriais deram a conhecer o trabalho experimental associado ao projeto de investigação, no qual participaram o CeNTI, o CITEVE, a UCP e a UM.
Neste espaço foi possível observar exemplos de liocel, cânhamo, linho, fibras de ananás e de bananeira, plantas de algodão em cultivo hidropónico e diversas amostras utilizadas como ponto de partida para o desenvolvimento de novos materiais, acabamentos e revestimentos. Estiveram igualmente expostos ensaios que permitiram compreender o comportamento dos materiais em condições de degradação biológica, bem como instrumentos utilizados na validação dos materiais desenvolvidos ao longo do projeto.