20 março 26
Eventos

Bebiana Rocha

DECO, Zippy e MO Fashion debatem desafios do consumidor

A DECO, a MO Fashion e a Zippy estiveram ontem na ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, onde analisaram o comportamento do consumidor e as suas escolhas no âmbito do evento “O Futuro da Moda em Portugal”, organizado em parceria com a UN Global Compact Portugal.

Celeste Pacheco, diretora de qualidade da MO Fashion, começou por partilhar uma experiência de compra pessoal, que a levou a questionar a eficiência do serviço de apoio ao cliente das plataformas asiáticas de fast fashion, assim como a problemática da pegada de transporte associada às devoluções.

Seguiu-se Sandra Teixeira, jurista do departamento jurídico e económico da DECO, que confirmou um aumento de reclamações registadas no portal relacionadas com plataformas de ultra fast fashion, sublinhando a importância de proteger o consumidor de práticas comerciais agressivas.

Fátima Santos, diretora de qualidade e sustentabilidade da Zippy, destacou que o consumidor ainda não consegue acompanhar as novidades sem comprometer a sustentabilidade. Citou um estudo da marca infantil em que os consumidores afirmam querer ser sustentáveis, mas na hora da escolha esse critério passa para último plano.

No segmento infantil, a segurança dos produtos assume ainda maior relevância: se dúvidas houvesse, Fátima Santos confirma que as plataformas asiáticas não cumprem as mesmas exigências que as marcas europeias, por exemplo em relação a botões que possam ser engolidos, produtos químicos, ou tamanho dos cordões, colocando-se ao lado da indústria em termos de desafios de concorrência desleal.

Acrescentou que o consumidor carece de formação para interpretar e valorizar certificações sustentáveis, como o selo GOTS. A Zippy tem vindo a lançar projetos com materiais reciclados e orgânicos, mas a adesão ainda é limitada devido ao preço. Confirmando também o ponto da indústria.

Numa segunda ronda de questões, a DECO colocou-se do lado do consumidor, alertando para a necessidade de clarificar a confusão de informação existente no mercado, muitas vezes de greenwashing, e recordou quem estava a assistir que “não são o consumidor médio”, dado o seu envolvimento profissional.

Uma das estratégias das marcas para se aproximarem do consumidor é o recurso a content creators. O alinhamento entre a filosofia do criador digital e a marca pode aumentar a aceitação de determinado produto e tanto a MO Fashion como a Zippy partilharam exemplos de campanhas que exploram o conceito de família com estes influencers e criam um storytelling próprio, com o objetivo de estabelecer uma ligação emocional do consumidor com as peças com o objetivo de não as descartarem com tanta facilidade.

Contudo, Sandra Teixeira alertou que esta estratégia também pode ser usada de forma agressiva e para fins contrários. Plataformas de ultra fast fashion recorrem a influenciadores no TikTok para atingir adolescentes, incentivando-os a decidir entre um número considerável de peças devem manter e quais devolver. É necessário, na sua visão, uma maior consciencialização sobre o destino das peças devolvidas.

A DECO desenvolve ações de formação junto de escolas primárias, secundárias e séniores, defendendo o consumo responsável e sustentável, e usa a sua influência no processo legislativo para que estas preocupações se reflitam em normas europeias, algo que tem já sido pedido pela indústria e que demonstra um alinhamento e disponibilidade de cooperação para o mesmo fim: proteger uma concorrência justa e o cliente.

O painel concluiu que o futuro da moda está em evolução. As marcas europeias devem continuar a diferenciar-se e a cumprir os requisitos regulamentares, mas é necessária uma repartição de responsabilidades: o governo deve legislar para proteger a competitividade das marcas, e o consumidor deve ser responsabilizado pelo que consome, tal como acontece com a taxa aplicada a garrafas, que é devolvida em caso de retorno.

Do lado da Zippy e da MO Fashion, ficou o compromisso de continuar a procurar alternativas de produção cada vez mais sustentáveis, apostando em peças monomateriais, elastano biobased e práticas de ecodesign e ecomodulação.

Partilhar