20 março 26
Sustentabilidade

Bebiana Rocha

Da floresta à moda: como a PEFC impulsiona fibras sustentáveis no setor

A transição para modelos de produção mais sustentáveis é hoje um imperativo estratégico para a Indústria Têxtil e de Vestuário (ITV). Neste contexto, a PEFC Portugal organiza, no próximo dia 27, no Laboratório da Paisagem, em Guimarães, o seu quinto Fórum de Stakeholders, desta vez dedicado à moda.

Sob o mote “A Moda muda, a floresta fica”, o encontro reunirá fabricantes, retalhistas, marcas e outros intervenientes empenhados na promoção de uma moda mais sustentável.

Impulsionadas pelas novas exigências regulatórias, pela urgência da descarbonização e pela necessidade de reduzir o impacto dos microplásticos, têm vindo a ganhar destaque alternativas baseadas em fibras de origem florestal. É precisamente neste domínio que a PEFC Portugal afirma o seu posicionamento, promovendo a gestão florestal sustentável, incentivando o aumento da área certificada e reforçando o reconhecimento da certificação PEFC.

No âmbito desta iniciativa, o T Jornal entrevistou Paula Salazar, adjunta da direção da PEFC Portugal, que detalha o papel da organização e a sua atuação junto do setor.

Para quem ainda não conhece a PEFC Portugal, qual é o vosso papel na promoção da gestão florestal sustentável?

O PEFC Portugal existe para assegurar que a floresta portuguesa – um dos nossos maiores patrimónios naturais – é gerida de forma sustentável, apoiando o desenvolvimento rural e valorizando as populações que dela dependem. Defendemos uma floresta viva, produtiva e resiliente, sustentada nos pilares ambiental, económico e social.

No PEFC Portugal acreditamos que só é possível alcançar esta missão através de uma abordagem inclusiva. Envolvemos proprietários, autarquias, empresas, associações setoriais e consumidores, promovendo parcerias que ampliam o impacto coletivo da certificação. Este é o nosso compromisso: unir o setor e criar condições para que produtos de base florestal sustentáveis – desde madeira e cortiça até fibras têxteis e biocompósitos – possam integrar estratégias de descarbonização em diversos segmentos da economia.

De que forma a certificação que promovem contribui para garantir cadeias de abastecimento responsáveis e transparentes?

A certificação PEFC tem um papel determinante na garantia de cadeias de abastecimento confiáveis. Trabalhamos em todos os setores que utilizam madeira, cortiça e produtos derivados destes materiais, assegurando que os mesmos têm origem sustentável.

A madeira e os seus derivados são centrais na transição climática: substituem materiais fósseis, permitem ciclos fechados, têm pegada reduzida e são renováveis, reutilizáveis, recicláveis e biodegradáveis. Mas para que possam cumprir este papel, é essencial garantir que a sua origem é sustentável.

A certificação PEFC de Cadeia de Custódia permite rastrear o percurso dos materiais desde a floresta até ao consumidor final. Esta rastreabilidade independente reduz riscos, aumenta a confiança das marcas e protege as empresas perante novas exigências regulamentares, exigências dos clientes e sociedade.

Que tipo de atividades e serviços disponibilizam às empresas do sector têxtil e vestuário? 

O setor da moda atravessa uma transformação profunda, pressionado por novas regras europeias, pela necessidade de reduzir emissões e pelo desafio crescente dos micro e nanoplásticos. Neste contexto, as fibras de base florestal apresentam-se como uma alternativa de elevado valor ambiental, e o PEFC desempenha um papel crucial na credibilização desta opção.

Apoiamos as empresas têxteis e de vestuário através de: acompanhamento técnico para integração de fibras certificadas; formação em rastreabilidade, requisitos normativos e boas práticas; apoio na criação de políticas de aprovisionamento responsável; colaboração com marcas para comunicação transparente ao consumidor e promoção de inovação baseada em fibras celulósicas sustentáveis.

Que dados podem servir de exemplo de impacto do vosso trabalho?

A evolução da certificação PEFC é hoje um indicador de transformação real dos mercados. Atualmente, 13% das florestas mundiais são certificadas, e 75% dessa área segue as normas PEFC. Estas florestas absorvem anualmente centenas de milhões de toneladas de CO₂, reforçando o papel do setor florestal como solução natural e eficaz para a mitigação das alterações climáticas.  Simultaneamente, geram produtos naturais de elevado desempenho ambiental – biomateriais de excelência que suportam indústrias como a construção, a embalagem, a bioenergia e, cada vez mais, o setor têxtil.

De que forma a certificação do PEFC pode ser uma mais-valia para as empresas? Que vantagens retiram?

A certificação PEFC oferece às empresas: garantia de conformidade com regulamentação europeia (como o ESPR e a Due diligence); redução de riscos reputacionais e legais; diferenciação no mercado através da rastreabilidade; resposta direta às expectativas dos consumidores e acesso facilitado a mercados que exigem certificação.

Em Portugal, empresas como The Navigator Company e o Grupo Altri desempenham um papel decisivo na produção de celulose certificada, essencial para fibras têxteis sustentáveis. São exemplos de como a aposta na certificação traz impacto real, tanto ambiental como económico.

Qual é a cobertura da certificação PEFC no mundo e em Portugal?

Globalmente, mais de metade do mercado de viscose é atualmente abastecido por produtores certificados PEFC na cadeia de responsabilidade – um sinal claro da maturidade e da crescente exigência deste segmento.

Em Portugal, o nosso objetivo passa por aprofundar esta integração, estendendo a certificação PEFC aos produtos celulósicos e a todas as soluções de base florestal que o setor têxtil utiliza, reforçando assim a autonomia, a rastreabilidade e a sustentabilidade da indústria nacional.

Entre os exemplos mais inspiradores no mercado ibérico, destaca-se a Textil Santanderina (Espanha), que incorpora a certificação PEFC nas suas operações, demonstrando que a rastreabilidade florestal é já parte integrante da inovação têxtil.

A nível nacional, a Heliotextil é hoje uma referência neste percurso: uma empresa certificada PEFC que cria, desenvolve e produz etiquetas, transferes, fitas, elásticos, produtos para embalagem, têxteis personalizados e lanyards.

Como podem as empresas iniciar o processo de integração?

Qualquer empresa da cadeia de valor pode iniciar o seu processo com base na norma PEFC ST 2002:2020 de Cadeia de Custódia. No PEFC Portugal trabalhamos com modelos adaptados a diferentes realidades e colaboramos com associações setoriais para facilitar a implementação. Apoiamos as empresas na identificação das metodologias mais adequadas, formação e preparação nas normas de referência.

Como surgiu a ideia de dedicar esta edição ao STV?

Esta edição do Fórum de Stakeholders é dedicada ao STV porque se trata de uma indústria em profunda reconfiguração, com desafios ambientais significativos, exposição pública elevada e capacidade de influenciar tendências globais. Queremos contribuir com conhecimento, diálogo e soluções concretas.

Que temas destacaria no programa? Que perspetivas pretendem trazer para o debate?

Os temas escolhidos respondem a três critérios: relevância regulatória, impacto ambiental mensurável e aplicabilidade prática. Destacam-se o futuro das fibras florestais, inovação tecnológica, rastreabilidade, políticas de aprovisionamento e casos reais de implementação.

Quais são as vossas ambições de médio prazo?

O nosso objetivo para os próximos anos é claro: aumentar a área de floresta certificada em Portugal; reforçar a presença da certificação de origem dos materiais de base florestal no setor da moda; ampliar a rastreabilidade em toda a cadeia e posicionar Portugal como referência europeia em fibras sustentáveis de base florestal.

Acreditamos que a moda pode deixar de ser parte do problema e passar a ser parte da solução. Porque as tendências mudam – mas as florestas têm de ficar.

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