13 julho 26
Digitalização

Bebiana Rocha

Controltextil muda de nome e reforça software com IA

Após uma década a desenvolver soluções de monitorização e gestão de chão de fábrica para a indústria têxtil e vestuário, a Controltextil anunciou, na passada quinta-feira, durante o FutureTex, no CITEVE, uma nova etapa da sua história: a integração da Inteligência Artificial na sua plataforma.

O momento serviu também para revelar a nova identidade da empresa, que passa a designar-se Softextil, refletindo a visão de futuro dos seus fundadores.

“Esta é uma indústria extremamente difícil porque toda ela é diferente. O cliente é o mesmo, o produto é o mesmo, mas cada empresa tem a sua forma de produzir”, começou por explicar Pedro Mariano, cofundador da empresa, defendendo que é precisamente essa complexidade que tem impulsionado o desenvolvimento da plataforma.

A nova versão 8.0 resulta, segundo o responsável, dos contributos recolhidos junto das empresas ao longo dos últimos anos.

Denis Petrov, também cofundador da empresa, apresentou as principais novidades da atualização, descrevendo-a como uma plataforma mais rápida e mais estável, assente numa base de dados completamente renovada e otimizada.

Entre as melhorias destacam-se o funcionamento de terminais em modo offline, uma maior rapidez na disponibilização de dados nos dashboards e uma interface totalmente redesenhada, disponível em vários idiomas. Construídos de forma personalizada para cada empresa, os dashboards permitem acompanhar, em tempo real, os principais indicadores (KPIs) de produção e exportar a informação diretamente para Excel ou PDF.

Os registos de produção passam a ser efetuados diretamente nos terminais instalados no chão de fábrica, eliminando a necessidade de documentação em papel, reduzindo erros de registo e aumentando a fiabilidade dos dados.

“Foram também melhorados os mecanismos de correção de erros de registo do operador. Temos uma API aberta a tudo o resto”, acrescentou, destacando ainda uma nova funcionalidade de planeamento visual que permite acompanhar, de forma intuitiva, a ocupação da empresa. Outra novidade é a criação de uma estrutura de relatórios personalizável, que deixa de depender da equipa da Softextil para passar a ser gerida autonomamente pelas próprias empresas.

O principal salto tecnológico, contudo, está na incorporação de um assistente baseado em Inteligência Artificial. “Quando o gestor de produção tem perguntas pode colocá-las ao chat, que responde. É também capaz de dar sugestões, fornecer instruções e até executar ações em nome do utilizador, mediante autorização”, explicou Denis Petrov.

Entre as suas capacidades está, por exemplo, a análise automática da capacidade produtiva da empresa e a sugestão de redistribuição de operadores para otimizar a produção. A acompanhar estas novas funcionalidades, a empresa desenvolveu ainda um manual interativo para facilitar a utilização da plataforma.

Durante o evento foi igualmente anunciada a preparação da entrada da Softextil no mercado brasileiro. Pedro Mariano revelou que a empresa marcará presença na próxima edição da Febratex, com o objetivo de avaliar o potencial de negócio naquele mercado. “Queremos perceber de que forma podemos estar no Brasil”, afirmou.

A tarde do FutureTex contou ainda com a intervenção de Ana Dinis, diretora-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, que traçou um retrato do momento atual da indústria e das tendências que irão moldar o futuro do sector.

A responsável começou por recordar que os últimos anos foram marcados por “muitas pressões” sobre a indústria têxtil e do vestuário. “A questão já não é apenas recuperar a procura. É em que mercado vamos competir quando ela recuperar”, afirmou, sublinhando que o sector enfrenta sinais contraditórios, uma vez que “para a mesma tipologia de produto e mercado temos feedbacks diferentes”.

Ao longo da apresentação, Ana Dinis destacou a importância da cultura organizacional nas empresas e defendeu que o aparecimento de novos modelos de negócio, aliado ao crescimento do mercado de segunda mão, obriga as empresas a adaptarem-se. Entre as oportunidades identificadas apontou a reparabilidade e a rastreabilidade dos produtos.

A dirigente lançou igualmente uma reflexão sobre o fenómeno do ultra fast fashion, não apenas na perspetiva do preço, mas sobretudo da estratégia seguida por estas plataformas, convidando também as empresas a refletirem sobre o posicionamento do segmento de luxo.

Pelo meio introduziu o conceito de “consumidor camaleão”, caracterizado por uma menor fidelização às marcas, lembrando que a vantagem competitiva já não reside apenas no custo de produção, mas sim na capacidade do sistema como um todo. Esse sistema, explicou, integra a utilização de dados, a leitura e teste da procura, as plataformas digitais, o marketing e a aquisição de cliente, a produção, a logística e a escala. São estes fatores que, na sua perspetiva, determinarão as empresas que irão liderar o mercado.

Ana Dinis apelou ainda à criação de uma cultura de detalhe e de excelência no serviço, defendendo que só dessa forma Portugal conseguirá continuar a aumentar o valor acrescentado da sua oferta.

Entre os desafios identificados destacou igualmente a redução dos níveis de inventário ao longo da cadeia de valor, que se traduz em menor risco de stock para os clientes, menos compromissos antecipados e uma crescente necessidade de resposta rápida por parte dos fornecedores. “Não estamos nas empresas a conseguir cobrar esta pressão de gestão de risco”, alertou.

A responsável chamou ainda a atenção para o facto de a diversificação do sourcing não significar um regresso generalizado da produção à Europa. O movimento atual, explicou, corresponde antes a uma “regionalização seletiva”, em que a produção é repartida por diferentes geografias consoante as suas vantagens competitivas.

Neste contexto, defendeu que o caminho passa por responder com rentabilidade, privilegiando a margem e um cálculo rigoroso do custo real do produto. “Os custos vão além das despesas operacionais”, recordou.

De forma esquemática, apresentou quatro quadrantes de análise, desafiando as empresas a avaliarem o seu posicionamento por cliente e a identificarem o mix mais alinhado com os seus objetivos estratégicos. Já no âmbito da digitalização, deixou um último alerta: “A tecnologia sem organização resulta em desorganização digitalizada.”

Partilhar