Bebiana Rocha
A cidade de Guimarães prepara-se para acolher, a partir de 5 de setembro, a 8.ª edição da Contextile, que será a maior de sempre da bienal dedicada à arte têxtil. Ao longo de 85 dias, a Contextile 2026 reunirá 53 obras de 50 artistas de 27 países, numa programação que cruza arte, território e comunidade e que coloca o têxtil no centro da reflexão sobre memória, conflito, sustentabilidade e transformação social.
O grande destaque da edição é o artista convidado Ai Weiwei, que apresenta três projetos em diferentes espaços da cidade: Camouflage, na Plataforma das Artes e da Criatividade; Net, nos Tanques de Couros; e Fabrication, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães.
Segundo a organização, “as três intervenções estabelecem relações entre o legado têxtil de Guimarães e algumas das grandes inquietações do presente, explorando os têxteis enquanto matérias de memórias, conflito, vigilância, deslocamento e resistência”. Os projetos convocam, assim, questões relacionadas com a guerra e com as transformações políticas e sociais.
Subordinada ao tema By a Thread, que parte do fio enquanto metáfora e matéria de trabalho, a Contextile 2026 apresenta uma programação que se estende para lá das exposições, através de novas parcerias locais e internacionais, residências artísticas, arte pública, conversas e workshops.
Cinco artistas refletem sobre resistência e futuros possíveis
Entre os momentos centrais da programação está a exposição A change in the weather? Material Storytelling in an Age of uncertainty, com curadoria de Janis Jefferies. A mostra reúne obras de cinco artistas – Jakkai Siributr (Tailândia), Movana Chen (Hong Kong), Simon Callery (Inglaterra), Taloi Havini (Papua Nova Guiné) e Teresa Lanceta (Espanha) – numa reflexão sobre “a necessidade de imaginar outras formas de resistência e outros futuros”, explica a organização em comunicado.
A exposição estará distribuída por três localizações de Guimarães: Palacete de Santiago, Sociedade Martins Sarmento e Galeria Garagem Avenida.
Outro dos projetos em destaque é Weaving the Green, desenvolvido em parceria com a Guimarães Capital Verde Europeia 2026. O projeto reúne nove criativos em residências artísticas dedicadas aos temas da água, resíduos, energia e produção têxtil.
Participam Alan Hernández (México), Yen-Yu Tseng (Taiwan), Mathieu Fecteau (Canadá), Guillaume Brisson-Darveau (Canadá), Lara Salous (Palestina), Coletivo Palma (Portugal), Krzys Bykowski (Polónia), Ambre Baimbault (França) e Idoia Cuesta (Espanha).
A programação inclui ainda a instalação Growing House, realizada em parceria com a Chinese Academy of Art, de Hangzhou. “Entre estruturas provisórias, caixas, fios e tecidos, constrói-se uma casa em permanente transformação, pensada como espaço de passagem, abrigo e encontro”, enquadra a organização.
Textile Talks discutem futuro do setor e da produção
As Textile Talks, marcadas para os dias 6 e 7 de setembro, no auditório do Centro Cultural Vila Flor, serão outro dos pontos de encontro da bienal. Os momentos de reflexão e debate estarão organizados em torno de cinco subtemas: Change in the weather, Narratives of power, Textile waste as art, Dynamic, working slowly and with care e More than human approaches.
A programação pretende abordar questões como a relação entre cuidar da terra e cuidar da humanidade, propondo uma reflexão crítica sobre o presente e o futuro coletivo. As conversas irão também explorar a arte têxtil enquanto voz de autoridade e a necessidade de reimaginar a sustentabilidade como uma oportunidade de experimentação.
A noção do fio em movimento e a sua capacidade de se reconfigurar ao longo do tempo será igualmente analisada, a par de uma reflexão sobre a herança industrial e sobre a possibilidade de recuperar formas pré-industriais de produção e o artesanato como caminhos para uma produção mais sustentável. A programação termina com uma reflexão sobre a sabedoria dos animais e das plantas e o seu potencial enquanto agentes ativos.
Workshops aproximam criação e técnicas têxteis
A componente de workshops arranca a 8 de setembro e prolonga-se pelos dias 9, 10, 12 e 19, com cinco sessões de caráter técnico e criativo.
A programação inclui Estampagem e pintura têxtil com corantes naturais, por Lara de Dios, dedicada à preparação de pastas de mordente para estampar e à estampagem por corrosão; Paper meets textile – Experimental Papermaking, por Magda Sobon, que explora a relação entre a pasta de celulose, as fibras têxteis e os fragmentos de tecido; e Desafiar a cor: Tinturarias Naturais, por Joana Sequeira, Luís Gonçalves Ferreira e Mónica Faria, que introduz técnicas históricas de tinturaria natural.
Completam o programa Fios da Teia e da Trama, por Fernando Rei, dedicado à tecelagem artesanal, e Oficina Têxtil – Do projeto à produção do tecido, por Orenzio Santi, também centrada na tecelagem.
Com esta programação, a Contextile 2026 reforça a ligação entre criação artística, património e indústria têxtil, usando o fio como ponto de partida para discutir os desafios ambientais, sociais e políticos do presente e pensar novas possibilidades para o futuro.