Ana Rodrigues
A produção de vestuário através de desperdício de peixe é já uma tendência nos países nórdicos e este é um caminho que começa a dar os primeiros passos em Portugal, nomeadamente através da Conservas Ramirez, que vai agora começar a tratar os desperdícios de peixe de forma diferente.
“Vamos ver se o produto pode ser melhor trabalhado por parte dos nossos clientes, ou seja, não é uma área de negócio nossa. Aquilo que vamos fazer é preparar o produto da melhor forma, separá-lo se calhar de uma melhor forma para permitir que os nossos clientes – no fundo – utilizem esse produto noutro tipo de segmento”, contou Luís Avides Moreira, administrador da Ramirez, em reportagem da TVI.
Prática já regular nos países nórdicos, é de destacar o trabalho de um cluster privado sediado em Reiquiavique (Islândia), o Iceland Ocean Cluster, que reúne a indústria, empresas e investigação e inovação com boas ideias para fazer coisas e criar valor com diferentes partes do peixe.
“Portanto, muitas coisas podem ser feitas para criar esse valor. Por exemplo, coisas simples como criar ração para animais de estimação ou farinha de peixe para aquacultura, por exemplo. E, ainda podemos ir mais longe, por exemplo fazer aplicações biomédicas a partir da pele do peixe”, referiu Alexandra Leeper, Managing Director da Iceland Ocean Cluster, que “hoje, já é utilizado em têxteis, roupas e acessórios e as empresas mundiais estão a começar a usar na moda ‘mainstream’”
Exemplo disso é a pele de peixe utilizada na Gucci ou nos produtos de couro da Nike. Em Portugal, a B2E-Colab – surgida em 2019 – investiga potencialidades deste material: “há partes do peixe do colagénio que também podem ser utilizados em medicina, em tratamentos de pele. Portanto, há aqui uma série de produtos que podem ser criados e utilizados e a função do B2E-Colab é ver essa inovação, porque acreditamos realmente que pode ser feita em Portugal, temos todas as condições para o fazer”, explicou Ana Rita Ribeiro, técnica de inovação da B2E-Colab.
Com um desperdício anual mundial que ronda os 10 milhões de toneladas, em Portugal o desperdício de peixe é usado nas conservas biodiesel, na comida para animais e no patê alimentar, mas os primeiros passos no segmento do vestuário já começam a ter tomados, pois a “inovação já ultrapassa fronteiras da medicina à moda, o lixo pode passar a luxo”.