06 março 26
Entrevistas

Bebiana Rocha

Catarina Cardoso: “A presença feminina transforma a indústria têxtil”

Para assinalar o Dia da Mulher, o T Jornal entrevistou três protagonistas da indústria que integram os órgãos sociais da ATP -Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. De gerações e segmentos distintos da indústria, foram convidadas a partilhar as suas histórias, aprendizagens e a deixar uma mensagem de futuro para o sector.

Catarina Cardoso, planning manager da Carmafil, inaugura esta série de entrevistas. Cresceu no meio das malhas, das linhas e das histórias que fazem a indústria têxtil, uma proximidade que moldou a forma como hoje olha para o sector e para o seu papel dentro dele. Na conversa, defende que “a presença feminina transforma a ITV, porque traz sensibilidade, visão holística e uma capacidade notável de gerir complexidade”.

Convicta de que a força da indústria se constrói também com a coragem das mulheres que nela trabalham, Catarina Cardoso acredita que a sensibilidade feminina acrescenta valor às lideranças e às decisões estratégicas. É com esse espírito que espera poder contribuir para “uma ITV mais humana, mais inovadora e consciente do seu impacto”, assumindo o desejo de ser lembrada como alguém que ajudou a criar pontes dentro do sector.

Ao longo da entrevista, deixa ainda três ideias que considera essenciais para o futuro da indústria: “a resiliência é um dos maiores talentos coletivos, inovar é vital e colaborar é mais poderoso do que competir”.

Numa mensagem direta, e representando uma nova geração na indústria, Catarina Cardoso recorda que a ITV é, antes de mais, uma comunidade feita de pessoas, culturas e histórias – e acredita que o futuro do sector será feminino, plural e progressista.

 

Como começou a sua ligação com o STV?

A minha ligação ao sector têxtil e vestuário começou muito antes de qualquer experiência profissional. Nasci em Barcelos, onde cresci rodeada por malhas, linhas e histórias desta indústria. A confeção da minha mãe foi o meu primeiro contacto com esta indústria, passei a infância a fazer roupas para as bonecas enquanto observava o rigor e o ritmo de quem trabalha no setor. Nas férias, acompanhava o meu pai às visitas a fornecedores, e isso permitiu‑me conhecer desde cedo toda a cadeia de valor, das matérias‑primas ao produto final. Mais tarde, quando fui estudar Gestão no Porto, já sabia que o meu caminho seria inevitavelmente este. Nunca coloquei outra hipótese: a moda e a ITV sempre foram a minha paixão e o meu lugar natural.

Que momentos mais marcaram a carreira?

Considero que a minha carreira ainda está a começar. Com cerca de 10 anos de experiência, sinto que estou agora na fase mais consciente e alinhada com aquilo que quero construir. Mesmo assim, houve momentos que marcaram o meu percurso.

 

O primeiro foi o início formal no setor, quando percebi que toda a curiosidade e conhecimento intuitivo da infância ganhavam finalmente um propósito profissional, foi a confirmação de que estava no caminho certo.

 

O segundo foram os primeiros projetos, que me mostraram o impacto real de transformar ideias em produtos e o nível de exigência, mas também de satisfação, que isso envolve.

 

O terceiro foi assumir funções de liderança. A partir daí, passei a olhar para a indústria como uma comunidade feita de pessoas, culturas e histórias. Descobri que tenho um interesse profundo pelo bem‑estar das equipas e fui criando dinâmicas onde todos se sintam integrados, ouvidos e valorizados.

 

Acredito que a sensibilidade feminina acrescenta muito à liderança, a escuta, a atenção ao detalhe emocional e a capacidade de cuidar sem perder firmeza. Uso essa sensibilidade como ferramenta de gestão e tem sido uma das partes mais enriquecedoras da minha carreira.

 

Quais são as maiores aprendizagens?

Aprendi que a ITV é, acima de tudo, feita de pessoas, e que a resiliência é um dos nossos maiores talentos coletivos. Percebi também que inovar não é opcional, é vital, e que colaborar é sempre mais poderoso do que competir. Ao longo do meu percurso, confirmei ainda que Portugal tem uma capacidade extraordinária de fazer bem, rápido e com qualidade, algo que verdadeiramente nos distingue. Mas talvez a maior aprendizagem seja esta, a tradição e o futuro não são forças opostas, são duas energias que, quando alinhadas, tornam a nossa indústria única no mundo.

Como sente que a presença feminina transforma a ITV? Que características femininas acrescentam valor?

A presença feminina transforma a ITV porque traz sensibilidade, visão holística e uma capacidade notável de gerir complexidade. As mulheres têm, e sempre tiveram, um papel fundamental em todo o ecossistema têxtil, desde as linhas de produção à liderança estratégica. Acredito que características como empatia, capacidade de mediação, atenção ao detalhe e visão humana da gestão acrescentam valor real à indústria. Hoje, mais do que nunca, precisamos de lideranças que combinam rigor técnico com inteligência emocional, e as mulheres fazem essa ponte de forma natural.

Que mudanças gostaria de ver no sector nos próximos anos?

Gostaria de ver uma valorização mais visível das pessoas que fazem a indústria acontecer, reconhecendo o seu contributo diário e o papel essencial que desempenham em toda a cadeia de valor. Acredito também que é fundamental um maior investimento em qualificação, inovação e digitalização, garantindo que a nossa indústria mantém a sua competitividade e continua a posicionar‑se na linha da frente. Defendo ainda um reforço da sustentabilidade real, genuína, que comece dentro das empresas e não apenas no marketing, traduzindo‑se em práticas concretas e responsáveis. E, claro, considero essencial que existam mais mulheres em posições de liderança, porque a representatividade não deve ser exceção, deve ser estrutura e reflexo natural de um setor que quer evoluir.

Que mensagem deixaria às mulheres do sector?

Que nunca subestimem o seu valor. Que acreditem no seu talento e ocupem espaços, mesmo aqueles onde ainda não há lugares à espera delas. E que a força de uma indústria inteira se constrói também com a coragem de cada mulher que decide ficar, crescer e liderar.

Que legado gostaria de deixar na indústria?

Gostaria de deixar um legado de propósito: contribuir para uma ITV mais humana, mais inovadora e mais consciente do seu impacto. Quero ser lembrada como alguém que ajudou a criar pontes, entre gerações, entre áreas, entre a tradição e o futuro, e que inspirou outras mulheres a acreditarem que também têm lugar à mesa das decisões.

Que mulheres inspiram a sua forma de liderar e estar?

Inspiro‑me em mulheres que lideram com autenticidade, algumas da minha família, que me ensinaram a força do trabalho e da persistência, e outras da indústria que provaram que é possível ser firme sem deixar de ser sensível.
Gosto de lideranças que unem competência e humanidade. E é nessa combinação que encontro a minha inspiração diária.

Como imagina o futuro do sector e qual é o papel das novas gerações femininas?

Imagino um setor mais tecnológico, mais sustentável e mais global. Um setor que não tem medo de mudar e que se posiciona como referência europeia de qualidade e inovação. E as novas gerações femininas têm um papel decisivo, são elas que vão acelerar a transformação cultural da ITV, trazendo novas linguagens, novas competências e uma visão mais diversa, inclusiva e colaborativa. O futuro da indústria não é apenas feminino, é feminino, plural e progressista.

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