Ana Rodrigues
A indústria têxtil é, como sabemos, uma das mais poluentes do mundo e a “ITV está a assumir a responsabilidade de resolver um problema que é o destino das peças utilizadas e depois descartadas”, esclarece Braz Costa, diretor geral do CITEVE, acrescentando que “não é só um problema, mas também uma oportunidade de negócio”.
No segundo episódio da reportagem da SIC ‘O que vamos vestir amanhã’, viajamos pelo mundo da reciclagem têxtil, pelas novas formas de criar fibras, mas também pela “revolução movida por microrganismos”. Desta viagem faz, igualmente, o projeto be@t que aposta na resolução dos problemas, liderado pelo CITEVE e com mais 56 parceiros, “é um projeto transformador”.
Consciente que apenas 1% do desperdício é, atualmente, tornado em roupa nova e que, até 31 de dezembro de 2024, vai ser proibida a queima de desperdício têxtil, a ITV portuguesa ‘não baixa os braços’. “O princípio é utilizar lixo de outras indústrias para produzir matéria-prima de grande valor para este sector”, enfatiza Braz Costa.
Visionário, o grupo Valérius criou um centro de reciclagem – Valérius 360 – “uma aposta de 2017, quando um empresário acreditou que a reciclagem é futuro da têxtil e agora temos a certeza”, salientou Ana Tavares. Um estudo realizado nesse mesmo ano, à Alemanha, Inglaterra e Espanha, concluiu que haviam – só nesses países – 750 mil m2 de stocks parados.
Com uma capacidade produtiva de fio de 7 a 8 toneladas diárias provenientes de stocks parados, “esta fábrica é provavelmente única na Europa, e única no sentido em que temos centro de reciclagem junto com o da fiação”, esclareceu a CEO da RDD.
Sendo que Portugal não tem matéria-prima e, habitualmente, importa fibras ou fios que depois transforma e exporta para o mercado externo, “com este processo de reciclagem têxtil podemos começar a ser produtores de matéria-prima”, explicou o Presidente do grupo Valérius, José Manuel Ferreira: “estamos a criar um novo modelo de negócio. Nós temos que educar os nossos clientes, temos essa responsabilidade. É uma nova indústria de serviços”.
Nesse sentido, também pelas 96 agulhas da tecelagem circular da Clothius “passam cada vez mais fios que já foram desperdício. Neste momento, 20% a 25% da produção já é feita com matéria reciclada”, afirmou José Vale da Clothius.
Também investidos na inovação e sustentabilidade, por seu turno, a Tintex Textiles transforma desperdício em alternativa para os revestimentos, tendo tido a primeira patente de bio-coloração do mundo. Através dos mais diversos resíduos – plantas, uvas, couro, cortiça, tomilho, entre outros – a empresa conta, nas palavras de Pedro Magalhães, diretor de inovação, “que o nosso método é revolucionário naquilo que é o tingimento do algodão. O segredo do processo tem muito a ver com o algodão e com a sua mudança para que consiga absorver estas componentes”.
Porém, o caminho parece também passar pelos microrganismos. Como explica, Vítor Vasconcelos, Presidente da CIMAR: “Não é ambicioso, mas realista. Já temos os microrganismos e só temos que usar as suas moléculas em nosso benefício. Temos que aprender com a natureza” e, caso de sucesso é já o da Kod Bio.
Mas, não esqueçamos a importância da inteligência artificial. A Smartex, pioneira na inspeção de tecido para evitar o desperdício têxtil, garante: “a inspecionar com IA já poupamos 80 milhões de litros de água”, disse António Rocha, fundador e diretor técnico da Smartex.
O caminho é, portanto, claro e já está a ser bravado e, tendo já Portugal ultrapassado toda a dinâmica que lhe foi exigida há uns anos, “será um ator muito importante na área da reciclagem em termos Europeus e, sendo em termos europeus, será também em termos mundiais”, conclui Braz Costa.