Bebiana Rocha
A AICEP reuniu ontem o setor têxtil e vestuário na Casa da Música, no Porto, para refletir sobre o Brasil enquanto mercado estratégico e discutir as oportunidades existentes para as empresas portuguesas. A iniciativa “Em Foco no Brasil” contou com a participação de Francisco Saião Costa, delegado da AICEP em São Paulo, Fernando Pimentel, da ABIT, Ricardo Silva, presidente da ATP, e César Araújo, presidente da ANIVEC.
Com o foco colocado na competitividade, o encontro concluiu que as empresas portuguesas estão preparadas para responder à crescente procura brasileira por qualidade e design premium, à expansão dos segmentos de moda casual e desportiva, às exigências acrescidas em matéria de sustentabilidade e rastreabilidade e, ainda, à valorização de coleções autênticas.
O workshop foi estruturado em quatro momentos distintos, sendo o primeiro dedicado à apresentação de um enquadramento macroeconómico do Brasil. Francisco Saião Costa abriu os trabalhos com um retrato da economia brasileira em 2025 e das perspetivas para 2026. Entre os indicadores destacados estiveram os 2,2% de crescimento do PIB, sinal de uma economia estável e em expansão, uma inflação controlada nos 4,4% e a taxa de desemprego mais baixa desde 2012. O responsável da AICEP salientou ainda que o Brasil atingiu um recorde histórico na corrente de comércio internacional, totalizando 629,1 mil milhões de dólares.
“De grosso modo, os principais indicadores da economia brasileira apontam para uma economia estável e em crescimento”, afirmou perante os participantes.
Apesar do cenário positivo, Francisco Saião Costa alertou para alguns desafios relevantes. Entre eles está a taxa SELIC, atualmente fixada em 14,75%, uma medida do Banco Central destinada a conter a inflação, mas com impacto direto no rendimento das famílias e no custo do capital para as empresas. A dívida pública brasileira já representa 80% do PIB e, segundo o responsável, o contexto de 2026 deverá ser mais contido devido ao calendário eleitoral.
A intervenção incluiu também um momento de desconstrução de alguns mitos associados ao mercado brasileiro, nomeadamente a ideia de que a afinidade cultural e linguística é suficiente para garantir uma vantagem competitiva. Para Francisco Saião Costa, o sucesso exige preparação, estratégia e presença contínua no terreno.
Nesse sentido, deixou várias recomendações às empresas portuguesas, começando pela aposta em nichos de elevado valor acrescentado e numa oferta reduzida e diferenciadora. “Hoje em dia, não só há uma clara especialização setorial, como também um reconhecimento da qualidade do produto português”, destacou, incentivando as empresas a tirarem partido de parcerias locais e de sinergias no mercado.
O responsável reforçou igualmente a importância da capacitação e do acesso à informação: “É fundamental para evitar abordagens temporárias”. A sua experiência no terreno mostra que “o Brasil não permite abordagens temporárias, é um mercado duro e complexo. Se eu não estudo a parte tributária, vou falhar”, alertou. Ainda assim, sublinhou tratar-se de “um mercado cheio de oportunidades” e com capacidade para “dar escala” às empresas portuguesas.
A proximidade foi outro dos aspetos destacados. “As visitas são fundamentais”, afirmou, recordando que o mercado brasileiro valoriza relações comerciais sólidas, acompanhamento próximo e confiança. “Vão ter de encontrar o vosso nicho”, acrescentou, defendendo uma análise cuidada dos custos e do potencial produtivo antes da entrada no mercado.
Como orientação prática, aconselhou as empresas a avançarem com uma proposta clara e objetiva. “Vão para o mercado com uma oferta clara e reduzida. Não é um mercado que vá ter predisposição, num primeiro momento, para absorver muita coisa. Vão com um portefólio de três a cinco produtos, no máximo, com uma proposta de valor clara, integrada e diferenciadora”, recomendou.
Francisco Saião Costa defendeu ainda uma estratégia “step by step”, Estado a Estado, tendo em conta a dimensão do país, idealmente apoiada por um representante local e por uma abordagem de equipa.
Sobre o acordo UE-Mercosul, atualmente em processo de ratificação, considerou que, apesar de o cronograma ser longo, existe potencial significativo, não apenas ao nível comercial, mas também no investimento. O workshop surge precisamente num momento em que o acordo ganha relevância para o setor, já que o Brasil é o principal mercado do Mercosul. O entendimento prevê uma redução gradual — e, em alguns casos, a eliminação — dos direitos aduaneiros aplicáveis a produtos têxteis e de vestuário originários da União Europeia, abrindo novas oportunidades para as empresas portuguesas.