Bebiana Rocha
O Be@t levou, na passada semana, ao Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões uma experiência imersiva e três painéis de debate para apresentar os resultados do projeto de bioeconomia, que termina este ano após quatro anos de trabalho colaborativo.
O primeiro painel reuniu a Nau Verde, a ERT, a TMG Automotive e a Altri. Carla Silva, do CITEVE, contextualizou o tema em cima da mesa recordando que, na época dos Descobrimentos, Portugal tinha uma forte tradição na produção de linho e cânhamo. Com o passar dos anos, esse conhecimento foi-se perdendo, sendo um dos objetivos do Be@t recuperá-lo através da experimentação de diferentes sementes e regiões de cultivo. O resultado traduziu-se em plantações de linho no Norte do país e de cânhamo no Alentejo. Carla Silva destacou ainda a capacidade regenerativa do cânhamo para os solos.
Pela Nau Verde, Isabel Carneiro salientou a capacidade instalada para a produção de fio de linho. “Esta capacidade permite trazer escala para a Europa e reduzir a dependência do mercado asiático”, afirmou. A responsável recordou que o linho é uma fibra muito procurada e que a linha-piloto desenvolvida no âmbito do Be@t permite valorizar praticamente toda a planta: as fibras curtas podem ser misturadas com outras matérias-primas, enquanto as fibras longas são destinadas a produtos de elevada qualidade.
A perspetiva das fibras celulósicas foi apresentada pela Altri. Que destacou o potencial da floresta portuguesa e a oportunidade de transformação da indústria têxtil. “Existe um excesso de fibras sintéticas no mercado. A celulose é também uma alternativa ao algodão. Falta aproximar estas duas indústrias e o Be@t deu mais confiança para esse cruzamento”, referiu. O projeto permitiu ainda alcançar, pela primeira vez em Portugal, a produção de fibras celulósicas regeneradas, abrindo caminho para uma futura escalabilidade.
Helena Aguiar Ribeiro, da TMG Automotive, classificou o Be@t como um projeto catalisador de inovação e de cocriação. “A cocriação facilita a introdução de novos produtos no mercado”, afirmou, lembrando que os têxteis técnicos enfrentam requisitos particularmente exigentes ao nível da performance. “Na TMG temos percorrido este caminho em conjunto com clientes, academias e centros tecnológicos. Definimos um roadmap e temos trabalhado nele, nomeadamente na incorporação de fibras naturais e biopolímeros”, acrescentou.
Já Luís Soares, diretor de produção da ERT, abordou o potencial dos biocompósitos e os desafios da indústria automóvel, cada vez mais pressionada a utilizar materiais leves e sustentáveis. Entre os exemplos apresentados destacaram-se painéis de porta e apoios de braço desenvolvidos segundo os princípios da bioeconomia. No âmbito do Be@t, a empresa avançou ainda com uma linha-piloto para reutilização de aparas de couro. “A principal dificuldade é garantir a performance do produto”, reconheceu.
Entre as intervenções, os participantes foram convidados a visitar os demonstradores instalados noutro piso do Terminal de Cruzeiros, permitindo visualizar as soluções desenvolvidas ao longo dos quatro anos do projeto.
O segundo painel reuniu representantes da JF Almeida, Lameirinho, Tintex Textiles e Cork-A-Tex. A sessão foi introduzida através dos demonstradores, onde puderam ser observados guardanapos produzidos com fios à base de cortiça e casca de pinheiro, a manta Be@t e almofadas revestidas com casca de ovo, casca de amêndoa e extratos de bugalhos.
A organização recriou diferentes ambientes — laboratório, garagem, sala de jantar e sala de estar — para demonstrar a aplicação prática dos novos materiais e produtos. João Almeida, administrador da JF Almeida, destacou como vantagem competitiva a estrutura vertical da empresa, uma característica ainda rara em Portugal. “O Be@t permitiu-nos dar um passo mais largo no reforço do nosso ADN de inovação. Os novos produtos trazem também novos serviços ao cliente”, afirmou. O responsável reconheceu ainda que o mercado está cada vez mais agressivo e que a diferenciação pelo serviço será decisiva.
Xavier Leite, da Têxteis Penedo, abordou a receção do mercado às soluções desenvolvidas. Embora exista curiosidade em torno da incorporação de cortiça nos têxteis, persistem dúvidas por parte dos clientes, sobretudo no segmento dos têxteis-lar, onde o contacto direto com o corpo torna as exigências particularmente elevadas.
A experiência imersiva incluiu ainda a apresentação de um quarto equipado com uma capa de edredão estampada através de uma pasta de origem biológica, utilizando resíduos de poda de videira e cinzas de caldeira de biomassa como fonte de coloração. A cabeceira da cama foi produzida com um não tecido à base de materiais reciclados. O espaço integrava também toalhas de banho com propriedades antiodor, obtidas através da aplicação de resíduos de dreche, bem como diversos elementos decorativos produzidos a partir de não tecidos e casca de amêndoa.
“O fator preço continua a ser um desafio limitador, mas a economia de escala poderá alterar esse cenário”, observou Carla Silva, sublinhando o potencial das soluções desenvolvidas.
A sessão contou ainda com vídeos de embaixadores do projeto. Entre eles esteve Lutz Walter, da Textile ETP, que destacou a capacidade do Be@t para demonstrar internacionalmente o potencial das soluções de base biológica.
Jorge Leitão, da Lameirinho, partilhou a experiência de desenvolvimento de uma cama completa – incluindo edredão e fronha – com recurso a uma nova pasta de estampagem. “O caminho percorrido foi extremamente interessante. Estamos num TRL 7, mas precisamos de chegar ao TRL 9”, afirmou. O responsável reconheceu que continua a ser desafiante encontrar fornecedores, transformadores e comercializadores alinhados com estas soluções, mas considera que o percurso deve continuar.
Pedro Magalhães, da Tintex Textiles, destacou a evolução da empresa na área dos revestimentos, começando pela cortiça e expandindo depois para outras soluções. “Os projetos mobilizadores levam-nos a olhar de forma mais ambiciosa para o nosso papel enquanto hub. Na Tintex recebemos resíduos de outras indústrias, o que nos permitiu explorar novas perspetivas, estabelecer contactos e complementar aquilo que já fazíamos”, explicou.
O terceiro painel reuniu a Lipor, a Riopele, a MO e o CITEVE para debater a circularidade no setor têxtil. Mais uma vez, os participantes foram conduzidos através de uma experiência imersiva, desta vez centrada na loja Be@t, onde predominavam produtos com elevado conteúdo reciclado. Foi igualmente apresentado um contentor de recolha têxtil utilizado nas campanhas de recolha e reparação promovidas ao longo do projeto.
Carla Silva reconheceu que continuam a existir desafios significativos ao nível da recolha e triagem dos resíduos têxteis, tema aprofundado pelos restantes intervenientes.
Filipe Carneiro, da Lipor, destacou a unidade-piloto de triagem têxtil criada no âmbito do Be@t, classificando-a como uma oportunidade transformadora. “Portugal tem metas de reciclagem muito ambiciosas e esta unidade permite dar passos firmes nessa direção”, afirmou. O responsável explicou que foi desenvolvido um extenso trabalho de caracterização e compilação de dados para dimensionar a linha de triagem, sendo a composição e a cor dos materiais os principais critérios de separação.
Segundo Filipe Carneiro, cerca de 200 mil toneladas de resíduos têxteis continuam a ser descartadas nos resíduos indiferenciados, um volume que tem vindo a aumentar ao longo dos anos e que reforça a importância de infraestruturas como a da Lipor.
Pela Riopele, Ângela Teles abordou a crescente exigência dos consumidores em matéria de transparência e sustentabilidade. “Os clientes querem credenciais sustentáveis verificáveis”, sublinhou. Neste contexto, o passaporte digital do produto surgiu como um dos demonstradores do projeto, evidenciando a importância da rastreabilidade e da informação ao consumidor.
João Oliveira, responsável pela transição digital no CITEVE, reforçou a relevância da plataforma de Digital Product Passport (DPP). “Nenhuma empresa consegue resolver esta questão sozinha. A cadeia têxtil é muito fragmentada e a informação tem de ser recolhida em vários pontos”, afirmou, defendendo uma recolha de dados mais estruturada e integrada digitalmente.
Fátima Santos, da MO e Zippy, partilhou a experiência da marca na aplicação destes princípios sustentáveis. “É um desafio, mas também uma oportunidade de aprendizagem”, afirmou. Como exemplo, referiu um lote de cerca de quatro mil t-shirts com defeitos de estampagem que foi recuperado através de um processo de reestampagem, permitindo a sua comercialização.
A responsável destacou ainda o desenvolvimento de três modelos de peças com passaporte digital do produto e apresentou o caso de um chapéu Panamá, que chegará brevemente às lojas. O produto resultou da recolha de resíduos têxteis, da criação de um novo tecido e do desenvolvimento de um novo artigo final, acompanhado pelo respetivo DPP. “Isto prova que o Be@t foi um projeto de sucesso”, concluiu.
A visita aos demonstradores terminou no espaço dedicado ao laboratório, onde foi evidenciado o papel da ciência na validação das soluções desenvolvidas, nomeadamente através de ensaios de biodegradabilidade dos materiais.
No encerramento, Carla Silva destacou o alcance do projeto: 58 milhões de pessoas impactadas indiretamente, mais de 3.500 alunos do ensino básico envolvidos em ações de sensibilização, presença internacional em feiras como a Première Vision Paris e a Techtextil Frankfurt, bem como a publicação dos primeiros relatórios técnicos. Um conjunto de resultados que demonstra a dimensão e o impacto alcançados pelo Be@t.