Bebiana Rocha
A Europa tem perdido capacidade industrial ao longo dos anos. Em dezembro de 2024, a produção industrial na Zona Euro caiu 2,0% em termos homólogos, enquanto na União Europeia a redução foi de 1,7%. Em média, a produção industrial europeia contraiu 2% no conjunto do ano, e as previsões para este ano não são otimistas. A queda foi impulsionada, sobretudo, pelo recuo na produção das indústrias intensivas em energia, como é o caso da têxtil. Mário Jorge Machado, Presidente da ATP, defende que, para a União Europeia se reindustrializar, é essencial que coloque a indústria em pé de igualdade com os outros blocos económicos. Caso contrário, avisa, “vamos continuar a perder”.
“O que queremos é que a competitividade seja promovida através das boas práticas”, reitera, destacando o desfasamento das horas de trabalho entre as empresas europeias e asiáticas, além da persistente falta de cumprimento dos critérios de sustentabilidade. A Associação Têxtil e Vestuário de Portugal tem sido proativa ao abordar o Governo sobre essas questões, e agora, na sua função na EURATEX, Mário Jorge Machado tem levado essa mensagem a Bruxelas.
“Há uma perceção clara de que as medidas precisam ser alteradas, mas essas mudanças demoram sempre anos. No entanto, o Governo pode sempre tomar ações para apoiar as empresas no imediato. Por exemplo, em Itália foi aprovado um pacote de ajuda para a digitalização, descarbonização, promoção de parcerias entre marcas e artesãos, e para a promoção do ‘Made in Italy’. Em Portugal, poderíamos fazer o mesmo para evitar que as empresas recorram à insolvência durante períodos de menor procura”, sugere.
O foco está na necessidade de maior flexibilidade para se adaptar às sazonalidades do setor. “A indústria têxtil e de vestuário portuguesa emprega 125 mil trabalhadores. Somos o maior ecossistema, e na região do Vale do Ave e áreas circundantes está concentrado mais de 85% da produção nacional, o que, do ponto de vista da sustentabilidade, é excelente. Num raio de 30 km conseguimos responder rapidamente às necessidades das marcas. Somos uma fileira completa, com fiação, tecelagem, tinturaria, acabamento e confeção. Se por um lado é uma vantagem, por outro, se algum dos elos dessa cadeia colapsar, toda a fileira estará em risco”, destaca, evidenciando a força e a dimensão do setor.
Mário Jorge Machado apresenta dados que reforçam a qualidade do produto nacional: “As exportações portuguesas para a União Europeia caíram 5% em 2024 e 11% nos últimos dois anos, em termos de valor. Na Europa, essa queda foi de 25%, mais do que o dobro, o que significa que Portugal está a ganhar quota de mercado num mercado em contração. Não estamos a perder marcas nem clientes, mas sim a ver uma diminuição nas compras, pois o mercado está em transformação; estamos numa economia de guerra”, esclarece.
As guerras tarifárias aumentam as dificuldades na gestão da tesouraria das empresas. “Este sistema instável está a afetar as empresas e pode levar-nos de volta aos anos 30 do século XX. Os Estados Unidos representam 500 milhões de euros anuais e têm vindo a crescer devido às nossas excelentes características de fornecimento. Em alguns casos, até 30% da faturação das empresas vem do mercado americano, um bom trabalho de internacionalização que, com as políticas do Presidente Trump, pode ser prejudicado. O que defendemos é uma igualdade de tarifas”, continua.
“A tesouraria das empresas está a ser esmagada, e estamos apenas a ver a ponta do iceberg”, alerta, pedindo medidas urgentes, nomeadamente o layoff como no tempo de pandemia. “Se a situação continuar até 2026, veremos o dobro dos fechamentos, e se não agirmos em 2027, o número vai dobrar novamente, numa progressão aritmética”, prevê, mencionando ainda a questão da energia. “Uma energia mais barata ajudaria a tornar a Europa mais competitiva”, conclui, apontando também para a importância de garantir o fornecimento de empresas nacionais em concursos públicos.