Cláudia Azevedo Lopes
São duas as opções essenciais, garante o presidente da ATP, Mário Jorge Machado, que terão de ser seguidas para auxiliar as empresas a ultrapassarem a atual crise energética: a ajuda direta e a maior flexibilidade no regime laboral, nomeadamente através do lay-off simplificado, e não linhas de crédito – que só vão aumentar o endividamento.
Em declarações à CNN Portugal, o presidente da ATP explicou que a linha de crédito de 400 milhões de euros disponibilizada pelo governo não resolverá o problema e agravará o endividamento das empresas. “A linha de crédito que foi anunciada vem ajudar as empresas mas não vem resolver o problema. As empresas continuarem a endividarem-se, como já fizeram para conseguir atravessar a conjuntura pandémica, é um paliativo, não é a solução”, afirmou Mário Jorge Machado, que traçou em alternativa o caminho que deve ser seguido para garantir a sobrevivência das têxteis portuguesas.
“A solução para as empresas conseguirem ultrapassar este momento assenta em duas linhas, que já estão a ser discutidas na União Europeia. A primeira é a ajuda direta às empresas para auxiliar a pagar o sobrecusto da energia, especialmente as empresas cujos aumentos têm mais impacto no seus fatores de produção”, definiu o presidente.
A segunda é dar às empresas uma maior flexibilidade no regime laboral, especificamente com o lay-off simplificado, o que, garante, dará às empresas a flexibilidade necessária para se adaptarem às circunstâncias do mercado e que ainda estará em vigor em países como a Alemanha e Itália. “Nos dias em que a energia atinge valores mais elevados, as empresas devem ter a possibilidade de parar, sem ficarem responsáveis pelo custo dessa paragem. Houve dias em que o custo do gás natural atingiu 300 euros por megawat, cerca de 150 vezes mais que o valor habitual. É impossível as empresas fazerem repercutir esse aumento nos clientes, o que faz com que nesses dias de trabalho as empresas tenham um prejuízo gigantesco”.
Prejuízos que para o presidente da ATP geram o risco de redundar em situações de insolvência num sector que emprega mais de 140 mil pessoas, tem mais de seis mil empresas, e que em 2020/2021 atingiu o seu recorde em exportações – mais de 5,4 mil milhões de euros. “Tudo isto está posto em causa por uma conjuntura a que todos estamos alheios”, avisa.
Questionado acerca da possibilidade de as empresas produzirem a sua própria energia com recurso a fontes renováveis, Mário Jorge Machado clarificou que o sector têxtil, na sua grande maioria, já está a produzir parte da energia elétrica que consome, sendo, a nível internacional, um dos sectores mais reconhecidos pela produção sustentável. “O mesmo acontece com o gás natural: estão a ser utilizadas outras soluções como a biomassa e a introdução da produção de hidrogénio, para ser utilizada em conjunto com o gás natural. E está em curso um programa para a descarbonizaçao do sector têxtil, que contará com o investimento de muitos milhares de euros por muitas empresas”, salienta o presidente da ATP.
José Vilas Boas Ferreira, presidente da Valérius, marcou igualmente presença no boletim noticioso da CNN, e em linha com Mário Jorge Machado, revelou não acreditar que a linha de crédito de 400 milhões de euros disponibilizada pelo governo seja capaz de fornecer o apoio que as empresas precisam. “Só vai acabar por endividar mais as empresas e não resolve o problema, porque se a crise energética dura mais três meses, as empresas podem consumir essa linha de crédito e depois não ter forma de honra-la”, explica. E reforçou que o sector “não precisa de caridade, mas sim de decisões concretas que apoiem a fileira e mantenham a estabilidade, porque neste momento há pânico. Com a guerra, as energias dispararam. De 12 euros chegou nos primeiros dias a picos de 350 euros”.