Bebiana Rocha
“Não podemos viver na iminência do dia a dia” foi a mensagem central do workshop “Como tornar as PME mais resilientes”, organizado hoje no CITEVE, no âmbito do projeto RISE-SME. O painel de discussão juntou Ricardo Silva, presidente da ATP, e César Araújo, presidente da ANIVEC, sob moderação de João Nuno Oliveira, diretor do departamento de transição digital do CITEVE, que destacou o papel das associações na promoção da resiliência do setor.
Ricardo Silva não escondeu a preocupação perante o contexto atual: “Estamos na terceira crise consecutiva. O consumo caiu drasticamente, o mercado está mais baixo, mas os custos variáveis e a massa salarial continuam a aumentar mais do que as vendas”, afirmou, também na qualidade de CEO da Tintex Textiles. Na sua perspetiva, é essencial agir internamente: “Os custos não vão regressar aos níveis iniciais. Temos de tomar medidas internas e não esperar por ninguém.”
O dirigente reforçou a necessidade de uma gestão ativa e estratégica: trabalhar continuamente na eficiência, não depender apenas das encomendas e conhecer bem os clientes – identificando os mais relevantes, os menos rentáveis e a concorrência. “É preciso tomar medidas no dia a dia e antecipar movimentos”, sublinhou, com base na sua experiência.
Por seu lado, César Araújo recorreu à metáfora de um veleiro para ilustrar o momento do setor: mais do que o vento, importa a forma como se ajustam as velas. “O nosso ecossistema tem de ser forte”, afirmou, lembrando que o impacto da geopolítica é global. Ainda assim, acredita que Portugal deve concentrar-se em vender bem e preparar-se para colher os benefícios da crescente procura por fornecimento de proximidade.
Relativamente aos Estados Unidos, destacou que, apesar de as exportações portuguesas rondarem os 300 milhões de euros, existe um elevado potencial por explorar. “As empresas devem continuar a bater à porta dos clientes”, defendeu.
César Araújo identificou três grandes dimensões de transformação no setor: digitalização, robotização e renovação geracional. Ricardo Silva acrescentou uma quarta – a transparência – elogiando a crescente abertura das empresas, que pode impulsionar novas oportunidades de negócio.
Num espírito de cooperação, o presidente da ATP salientou o trabalho conjunto entre associações, que têm procurado falar a uma só voz. Como exemplo, apontou o alinhamento nas posições relativamente aos acordos comerciais UE-Mercosul e UE-Índia. Para César Araújo, o acordo com a Índia levanta reservas – classificando-o como uma “chatice” e criticando a abertura excessiva do mercado europeu – enquanto vê no acordo com o Mercosul uma oportunidade, sobretudo na relação com o Brasil, desde que trabalhada de forma estratégica.
O dirigente da ANIVEC voltou também a alertar para a falta de reciprocidade com a China: “Se quisermos exportar, não conseguimos. É um mercado protecionista.” Defendeu que esta questão deve ser levada ao debate em Bruxelas.
A competitividade voltou a emergir como tema central. Ricardo Silva sublinhou que esta deve assentar na diferenciação, uma vez que os custos – nomeadamente da energia – são significativamente mais elevados na Europa, chegando a ser três vezes superiores aos de outras regiões. Neste contexto, considerou o Brasil uma oportunidade relevante para produtos diferenciados portugueses, apontando ainda o potencial de reforço na utilização de algodão brasileiro como forma de reduzir a dependência de outros mercados.
Sobre a Índia, manifestou reservas quanto à facilidade de entrada, ilustrando com o exemplo do setor vitivinícola, cujo entusiasmo inicial não se traduziu em resultados devido a diferenças culturais de consumo. “A distância geográfica e cultural entre Portugal e a Índia é maior do que entre a Índia e países como a China ou o Bangladesh”, observou.
Ainda assim, deixou uma mensagem clara: o setor deve olhar de frente para os mercados. “A estabilidade política tornou-nos mais confortáveis”, afirmou, apelando a um maior dinamismo empresarial.
Na reta final do debate, César Araújo destacou o trabalho de advocacy junto das instituições europeias, apontando progressos na regulação das pequenas encomendas e no combate a práticas como fraude fiscal, infrações ambientais e contrafação. “A lei vai mudar. Estamos mais próximos de uma maior regulação”, disse, apelando a uma participação mais ativa das empresas junto das associações. “Ainda são poucas as que partilham o seu pensamento.”
Num tom otimista, acrescentou que as empresas poderão valorizar significativamente num futuro próximo – possivelmente dentro de dois anos -, impulsionadas por novas exigências legais que limitarão práticas como a destruição de têxteis ou o envio para aterro ou para países africanos. Este cenário deverá favorecer produções mais flexíveis e de proximidade, criando uma oportunidade clara para Portugal.
Da parte da ANIVEC, ficou o compromisso de continuar a promover a indústria, reforçar a sua capacidade e intensificar o lobbying político.
A encerrar, Ricardo Silva destacou os três vetores estratégicos da ATP: o lobbying – assumindo a associação como interlocutora junto dos decisores políticos -; a promoção do ecossistema, fomentando o trabalho em rede e facilitando as exportações; e o apoio à evolução das empresas, através de ferramentas de análise, benchmarking e formação de gestores mais preparados. “As associações têm um papel agregador e disseminador de informação”, concluiu.
Já César Araújo deixou um último apelo, partilhado também pela ATP, à reflexão: a necessidade de Portugal apostar na criação de marcas próprias, passando de um modelo assente na venda de minutos para um modelo centrado no produto, e de garantir a transição para uma nova geração de empresas mais modernas.