07 abril 26
Economia

Bebiana Rocha

ATP defende apoio direto ao custo da energia para salvar competitividade

Mário Jorge Machado, vice-presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, esteve na passada sexta-feira no noticiário das 12h00 da RTP a reagir à medida de apoio às empresas anunciada pelo Governo.

Em direto, o representante explicou que a ATP, juntamente com outras associações de setores industriais intensivos em consumo de energia, reuniu nessa semana com o Ministro da Economia. Em cima da mesa esteve o problema da competitividade das empresas e da indústria portuguesa, fortemente condicionado pelos custos da energia em Portugal, em particular do gás natural e da eletricidade.

“As medidas que foram anunciadas pelo Governo vão no bom sentido”, começou por referir. No entanto, deixou um alerta: “o Governo está a propor ajudar a tesouraria das empresas, mas o problema não é de financiamento, é de competitividade – e essa não se resolve com apoios de tesouraria, mas sim com medidas que atuem diretamente sobre o custo da energia”.

Como exemplo de uma resposta eficaz, Mário Jorge Machado recordou o apoio implementado aquando do início da Guerra na Ucrânia. “O programa desenhado na altura concedia à indústria um apoio direto ao custo da energia. Esperamos que esta proposta venha a ser acolhida. Esta será uma medida inicial, mas temos expectativa de que possa evoluir no sentido do que defendemos”, afirmou.

Recorde-se que, em 2022, foi criado um programa de apoio ao gás natural que previa a partilha de custos entre o Estado e as empresas. “A partir de determinado nível de preço, 50€ do aumento ficariam a cargo das empresas e o restante seria suportado pelo Governo. Estamos a falar de um apoio direto ao gás natural”, explicou, sublinhando a importância de soluções semelhantes no contexto atual.

Relativamente à eletricidade, destacou que a estrutura de custos é distinta, mas igualmente crítica: “mais de 50% das faturas que as empresas pagam atualmente não correspondem ao custo da energia em si”, mas a outros encargos associados, nomeadamente custos de rede.

Para tornar mais clara a dimensão do problema, recorreu a comparações do quotidiano: “é como se o gasóleo, que anda próximo dos 2€, passasse a custar mais de 3€. Ou como se uma fatura mensal de 100€ subisse para cerca de 170€”.

O dirigente salientou ainda a evolução dos preços do gás natural: antes da guerra na Ucrânia, a indústria pagava cerca de 20€/MWh; posteriormente, esse valor subiu para 30–35€/MWh; atualmente, situa-se entre os 55 e os 60€/MWh.

“Estamos a pagar três vezes mais do que pagávamos no início da guerra. Quando comparamos com o resto do mundo, a energia na Europa é 3 a 5 vezes mais cara – e isso está a promover um processo de desindustrialização”, alertou.

Enquanto presidente da EURATEX, Mário Jorge Machado tem vindo a sublinhar, em várias intervenções internacionais, que as fábricas mais eficientes e com menores emissões de CO₂ estão localizadas na Europa. “São precisamente essas unidades que estão a encerrar, sendo substituídas por importações provenientes de geografias com maior pegada carbónica”, referiu.

Perante este cenário, deixou um último apelo ao Governo: agir sobre as variáveis estruturais que afetam a competitividade, sobretudo o custo da energia, para evitar o encerramento de mais empresas e travar o risco de desindustrialização.

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