Bebiana Rocha
A força da colaboração e a criação de valor através de ativos intangíveis estiveram em destaque esta quinta-feira, 27 de novembro, durante o evento ‘O Digital para Vender Made In Portugal’, organizado pela ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, com o apoio do Município de Guimarães, no âmbito do projeto Digi4Fashion.
O painel contou com quatro vozes da indústria têxtil e vestuário e também da moda de autor: João Viana, da marca Veehana; José Cardoso, da empresa O Segredo do Mar; Pedro Neto, da marca The Neto; e Hélder Gonçalves, da confeção Spring, que partilharam experiências e estratégias de colaboração no setor da moda portuguesa.
Pedro Neto abriu a sessão com a sua experiência de 11 anos na área da moda, enquanto designer, criador de marcas e, mais recentemente, consultor. Destacou que, muitas vezes, um “não” de uma empresa não é definitivo e que é importante explorar outras formas de parceria, como utilizar stocks de tecidos de outras marcas em projetos. “As parcerias têm de ser Win-Win”.
João Viana, jovem designer de knitwear, falou sobre a importância da colaboração para o desenvolvimento criativo, citando experiências com artesãos que lhe transmitiram know-how essencial para transformar os seus moodboards em peças concretas.
Destacou ainda o papel do digital para criar comunidades e permitir colaborações com escultores e bailarinos. Para João, a marca Veehana é também uma forma de terapia, mas deixou a mensagem: “com colaboração e partilha é possível chegar a lugares novos a que não se chegaria sozinho”.
José Cardoso trouxe uma visão de longo prazo sobre a indústria, baseada em décadas de experiência, e enfatizou a importância de envolver fornecedores nos projetos, incluindo investimentos nas marcas, à semelhança do que se vê em Espanha.
No entanto, o ponto que mais marcou o painel foi a reflexão sobre ativos intangíveis: “Portugal só cria ativos tangíveis, tem de começar a apostar nos intangíveis, pois são esses que trazem mais valor. Não estamos a criar valor acrescentado e temos dificuldade em dizer o que vamos ser daqui a 10 anos. A Farfetch foi a única portuguesa com ativos intangíveis. As pessoas contam com projetos futuros quando vão investir, temos de explicar o que vamos fazer”.
Hélder Gonçalves, CEO da Spring, reforçou a necessidade de apoiar designers emergentes e de criar estruturas flexíveis para produção de séries pequenas, defendendo que “o futuro passa pelas marcas”, mesmo num mercado interno limitado como o português.
Falou também da necessidade de um fundo de investimento dedicado às marcas e de consultoria especializada, e destacou os desafios de showrooms caros e a importância de iniciativas conjuntas.
O debate levou ainda à questão do apoio à alta-costura em Portugal. João Viana destacou a colaboração crescente entre designers e a valorização do trabalho dos jovens, enquanto José Cardoso realçou a incompatibilidade entre a lógica de rentabilidade da indústria e a contabilização do valor do trabalho de alta-costura.
Uma solução sugerida foi a criação de uma Associação de Alta Costura, capaz de integrar profissionais reformados com enorme know-how, mas que não pretendem cumprir jornadas completas de produção, garantindo que o conhecimento e a tradição do design de autor possam ser preservados e explorados.
O painel mostrou, de forma inequívoca, que colaboração, inovação e investimento em ativos intangíveis são fundamentais para o futuro do setor têxtil português, apontando caminhos concretos para criar valor, apoiar talentos emergentes e reposicionar Portugal no mapa internacional da moda.