Bebiana Rocha
O Armazém dos Linhos foi o fornecedor do tecido Jaipur que reveste as paredes da nova loja da Portugal Jewels, recentemente inaugurada na Baixa de Lisboa. Num vídeo partilhado nas redes sociais, a marca de joalharia inspirada na tradição portuguesa revela os bastidores do processo de estampagem que deu vida a um dos elementos mais marcantes do espaço.
Com um forte impacto visual, o tecido assume-se como peça central da decoração, contribuindo para criar uma atmosfera acolhedora e profundamente identitária, como vemos na imagem. A direção criativa do projeto esteve a cargo de Ricardo Preto, que se inspirou no conceito de uma casa portuguesa para conceber o ambiente da nova loja.
“O que define o Armazém dos Linhos é a produção das Chitas de Alcobaça, que chegam até nós com histórias muito interessantes. Muitas delas vêm de palácios e de espólios de família. O que temos em comum com a Portugal Jewels é precisamente o facto de pegarmos numa atividade histórica e a trazermos para a atualidade”, explica Filipa Basto, responsável pelo Armazém dos Linhos.
Mais do que um elemento decorativo, a escolha do padrão Jaipur transporta consigo uma herança cultural profundamente enraizada na história portuguesa. As Chitas de Alcobaça são conhecidas pela sua exuberância, pelas cores intensas e pelos padrões inspirados na natureza e no Oriente.
Trata-se de um tecido de algodão estampado, tradicionalmente decorado com flores, frutas e cornucópias, cuja história remonta aos séculos XV e XVI.
Foram os portugueses que trouxeram da Índia não só tecidos, mas também técnicas e referências estéticas que viriam a influenciar a produção têxtil. Ao longo dos séculos, estes tecidos marcaram presença nas casas portuguesas, surgindo em colchas, cortinas, almofadas e revestimentos, mantendo-se relevantes até ao século XX. Esta é, por isso, uma história de património, memória e identidade portuguesa.
Em declarações ao T Jornal, Filipa Basto confirma que o padrão Jaipur já fazia parte da coleção da empresa. A responsável recorda que o Armazém dos Linhos, uma casa centenária adquirida pela família em 2011, atravessava então uma fase de envelhecimento, mas possuía um vastíssimo espólio de desenhos, uma das áreas que mais a fascinou desde o início.
“São desenhos difíceis de estampar. Implicam muitos rolos e muitas cores, têm uma cobertura muito elevada, inúmeros elementos florais e ainda uma risca contínua ao longo de todo o comprimento do rolo, o que exige muita experiência”, explica.
A evolução dos processos produtivos permitiu também recuperar alguns destes padrões históricos através de técnicas mais atuais. No caso deste tecido, a estampagem foi realizada em rolo e não em quadro e recorrendo à estamparia digital.
“Grande parte destes padrões não lhes tocamos. Queremos ser fiéis às cores e ao aspeto antiquado. Gostamos de manter esse espírito de desconcerto. Mas a contemporaneidade também é necessária para que os tecidos não sejam vistos como peças de museu. Por isso, às vezes criamos novas colorações e aplicações diferentes. Em vez de estarem apenas numa parede, podem surgir numa pasta de computador, numa camisa ou numa toalha de mesa”, exemplifica.
Apesar da existência de algumas cópias no mercado, Filipa Basto acredita que a autenticidade e a qualidade continuam a ser fatores diferenciadores. Com base no seu espólio de desenhos, a equipa vai recuperando periodicamente padrões históricos, em parceria com um industrial especializado no Norte de Portugal.
Paralelamente, a empresa desenvolve também projetos à medida, nomeadamente para palácios e edifícios históricos que necessitam de recuperar tecidos originais. “Fazemos todo o trabalho de desenho e desenvolvimento do padrão”, contextualiza, evidenciando uma vertente menos conhecida da atividade.
O último ano tem sido particularmente desafiante para o Armazém dos Linhos. Atualmente instalado numa localização temporária, o negócio prepara-se para ter uma nova morada, na Rua dos Clérigos.
“Estamos em plenas obras para trazer o espírito da loja antiga, com os balcões e os móveis de madeira. Vai ser um renascer da marca e da empresa. Espero que agora numa morada definitiva. Estamos simultaneamente a fazer um rebranding da marca para assinalar esta nova etapa”, conclui.
Embora opere num nicho de mercado e mantenha uma estrutura familiar, o histórico Armazém dos Linhos tem procurado diferenciar-se, valorizando o património têxtil português enquanto se aproxima de novos públicos e das gerações mais jovens.