Bebiana Rocha
O consórcio do projeto GIATEX apresentou, no passado dia 18 de março, os principais resultados alcançados, destacando os desenvolvimentos tecnológicos implementados para a otimização de processos industriais com foco na redução do consumo de água. O evento foi organizada em quatro painéis distintos, cada um dedicado a um PPS.
No PPS2, dedicado a “Novos Produtos e Estruturas Têxteis Eco-Funcionais”, participaram Nuno Azoia, da Aquitex, Manuel Sá Barros, da Adalberto Textile Solutions, Pedro Magalhães, da Tintex Textiles, e Bárbara Leite, da António Barroso Malhas.
Nuno Azoia, innovation manager da Aquitex, destacou a complexidade do desenvolvimento de produtos químicos para a indústria e salientou que, após muitos anos de evolução, inovar torna-se cada vez mais difícil, com avanços muitas vezes pequenos, mas de impacto real para as empresas.
Referiu ainda a necessidade de adaptar soluções à realidade específica de cada empresa, dando como exemplo os processos a baixa temperatura, que nem sempre trazem poupanças, especialmente para empresas com cogeração e acesso a água quente quase “gratuita”.
“Pequenos ajustes na concentração ou na temperatura é o que temos feito”, explicou. No caso dos tingimentos naturais, Nuno Azoia revelou que é possível reduzir até 60% a carga química dos efluentes, um resultado significativo. Contudo, alertou que para a indústria que procura peças cada vez mais duráveis, os produtos químicos desenvolvidos tornam-se mais difíceis de biodegradar. Colocou ainda que o futuro da moda mais sustentável depende de maior abertura da indústria da moda para trabalhar em conjunto com a indústria têxtil, evitando repetições desnecessárias: “Não precisamos de ir a um branco tão branco; há corridas que se repetem por diferenças ligeiras na cor, que são aceitáveis”.
Manuel Sá Barros, diretor industrial da Adalberto Textile Solutions, reforçou esta ideia, sublinhando a importância de equilibrar requisitos do cliente – solidez, intensidade de cor, sustentabilidade e custo. No âmbito do GIATEX, a Adalberto realizou um levantamento exaustivo da sua situação interna, com a recolha de 150 amostras de água para identificar as fases do processo com maior impacto na toxicidade. Um dos desafios identificados foi substituir a ureia por outro produto químico.
Pedro Magalhães, head of innovation da Tintex Textiles, partilhou a experiência da empresa com biocoloração ao longo de mais de dez anos, trabalhando atualmente com três tonalidades em malhas de algodão. No âmbito do projeto, destacou a parceria com a Facol para explorar o tingimento em fio. “Os nossos processos são replicáveis”, afirmou, mostrando a abertura da empresa de Vila Nova de Cerveira para colaborar e fortalecer o ecossistema têxtil.
Bárbara Leite, da António Barroso Malhas, referiu que a empresa também tem testado corantes naturais, nomeadamente à base de algas, embora os resultados ainda não estejam totalmente satisfatórios. No GIATEX, a empresa testou corantes derivados de resíduos têxteis, que têm apresentado alguma variabilidade, mas que poderão no futuro gerar resultados consistentes, como no caso da Tintex, em número reduzido de cores confiáveis.
Nuno Azoia destacou numa segunda ronda que existem várias áreas de melhoria do lado da indústria e que a mudança de paradigma para novos corantes depende da própria indústria da moda, processo que exige tempo. Atualmente, os corantes cuba são cada vez menos usados, mas mantêm desempenho inigualável, sendo indispensáveis em determinados nichos de mercado. Quanto aos amaciadores de base natural, reconheceu que ainda não atingem a performance exigida pelo mercado.
Manuel Sá Barros acrescentou que a diversidade de produtos e de máquinas nas empresas dificulta a otimização global dos processos. No projeto, procurou-se uma observação integrada, analisando diferentes vetores, do laboratório à prática, com o objetivo de rentabilizar o processo laboratorial – fazendo amostras cada vez menores e investindo em máquinas para pequenas quantidades. Destacou também a criação de “muros de qualidade” e o investimento em controlo de qualidade por câmaras de vídeo para estampados, melhorando a deteção precoce de defeitos. Reforçou ainda que, ao reduzir o consumo de água, as empresas concentram mais os produtos químicos, tornando mais difícil atingir os parâmetros de toxicidade. Concluiu que “o maior impacto da sustentabilidade vem da falta de literacia dos decisores de moda”.
Bárbara Leite apresentou soluções de poupança na empresa, como a reciclagem de soda cáustica e a utilização de desperdício têxtil para estampado posicional. Revelou ainda que estão a desenvolver um novo processo de preparação de malha, sem entrar em detalhes.
O PPS2 do GIATEX privilegia a criação de alternativas sustentáveis aos processos convencionais, atuando em duas frentes principais: desenvolvimento de novos ativos de coloração e acabamento com elevado potencial de redução da pegada de carbono e hídrica, e criação de uma coleção de substratos têxteis produzidos com tecnologias de enobrecimento limpas.