Bebiana Rocha
O programa Sociedade Civil, da RTP2, dedicou a emissão de segunda-feira ao tema da lã, com o objetivo de chamar a atenção do país para as características únicas desta matéria-prima e para as dificuldades que a fileira laneira atravessa. “A lã das ovelhas já não paga a tosquia”, enquadrou o apresentador, lembrando que se trata de “uma fibra natural, renovável e biodegradável” e sublinhando ainda que é “a única matéria-prima têxtil produzida em Portugal”.
O painel de convidados reuniu José Robalo, presidente da ANIL, Luís Cristino, cofundador da OMA, e Gil Vicente, da direção da Ovibeira. Ao longo da hora de emissão, José Robalo destacou-se pela intervenção incisiva, denunciando a “concorrência completamente desleal” que o setor enfrenta desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio.
A ANIL, associação centenária com raízes na Covilhã, é um reflexo das profundas transformações da fileira: se após o 25 de Abril contava com cerca de 300 empresas associadas, hoje são 15. Há vários anos que José Robalo tem alertado o Governo para a necessidade de apoiar os produtores de lã, travar a degradação das características técnicas da matéria-prima e garantir que todo o processo de tratamento possa ser assegurado dentro de portas.
O responsável recordou que as ovelhas merino nacionais têm a mesma base genética das australianas, mas que a qualidade da lã portuguesa se foi degradando por falta de aposta estratégica, ao contrário do que sucedeu na Austrália. Hoje, a indústria tem dificuldade em encontrar lã com 24 microns em Portugal.
“A lã é uma commodity e, como tal, tem parâmetros a cumprir. Para certos artigos preciso de lã com determinadas características. Os industriais não vão pagar 14 euros aos australianos se tiverem lã aqui à porta”, afirmou, defendendo a definição urgente de uma visão estratégica para a fileira. “Para que queremos a lã?”, questionou retoricamente, certo de que se trata de uma fibra nobre e com futuro.
Num enquadramento mais contextual, Luís Cristino ajudou a explicar como se chegou a este ponto de fragilidade: “Nós não consumimos produtos de lã. Só agora as marcas começaram a perceber as suas características e que pode ser usada durante todo o ano.” Enquanto especialista em sustentabilidade, foi perentório: “Não há fibra mais bio do que a lã.” Lembrou que foram investidos milhões em investigação quando “a roda já estava inventada”, sublinhou a importância do conceito de território e apontou a falta de perceção do consumidor. Deixou ainda um alerta simbólico: este passará a ser um tema de todos quando “deixar de aparecer o queijo da Serra da Estrela na mesa”.
Gil Vicente trouxe para o debate a realidade dos agricultores e o potencial de aplicação múltipla da lã. Referiu o exemplo dos merinos da Beira Baixa, cuja produção foi integralmente adquirida pela Penteadora recentemente para a confeção de mantas de excelência. Esta agregação de valor permitiu melhorar o rendimento dos produtores. No entanto, em condições normais, a lã é vendida a cinco cêntimos o quilo. Uma ovelha, que produz pouco mais de dois quilos de lã por ano, custa cerca de dois euros a tosquiar – o que leva muitos agricultores a preferirem enterrar a lã a receber apenas dez cêntimos.
O dirigente alertou também que escoar toda a produção exclusivamente para o setor do vestuário é inviável, defendendo a necessidade de diversificar aplicações. Deu como exemplo o trabalho desenvolvido com lãs grossas, atualmente exportadas para Inglaterra para utilização em isolamentos. Incentivou ainda à criação de uma marca de lã portuguesa, eventualmente com submarcas no futuro, e anunciou que a Ovibeira está a desenvolver um Passaporte Digital dedicado ao merino da Beira Baixa.
O programa contou também com a participação de Pedro Tavares, da Têxtil Tavares, empresa centenária até aqui fundamental no processo de lavagem da lã. “Começámos a empresa no rio”, recordou, numa referência às origens da atividade. Reconheceu, contudo, que a lã foi perdendo valor ao longo dos anos, também por razões culturais. A conversa convergiu para o encerramento do lavadouro da Guarda por questões ambientais e terminou com a mensagem de que a indústria têxtil e vestuário nacional continua a consumir volumes significativos de lã – reforçando a importância estratégica de garantir a sobrevivência da fileira em Portugal.