02 fevereiro 26
Entrevista

Bebiana Rocha

Ameba: “Portugal é o Silicon Valley da Indústria Têxtil”

As cadeias de abastecimento têxteis estão entre as mais complexas do mundo, com milhares de SKUs, múltiplos fornecedores e informação crítica ainda dispersa por e-mails, folhas de cálculo e PDFs. Esta fragmentação dificulta a visibilidade operacional e a tomada de decisão em tempo real, tornando a aplicação prática da Inteligência Artificial uma das maiores oportunidades para o setor.

Neste contexto, o T Jornal entrevistou Cedrik Hoffman, CEO da Ameba, para compreender em maior detalhe como funciona esta plataforma de Inteligência Artificial desenvolvida para fabricantes de têxteis e vestuário, que vantagens concretas traz ao setor, que potencial identifica na indústria e quais as perspetivas de parceria futura com a indústria têxtil e do vestuário portuguesa. Desenvolvida em colaboração com um grupo restrito de parceiros industriais, incluindo as portuguesas Anglotex e Carmafil, a Ameba utiliza IA para interpretar dados da supply chain, ligá-los a SKUs, encomendas e fornecedores e transformá-los numa visão operacional em tempo real.

 

Como descreveria, de forma breve, o que faz a Ameba?

A Ameba é uma plataforma de Inteligência Artificial criada para fabricantes de têxteis e vestuário, que automatiza os fluxos comerciais e de compras de uma ponta à outra.

A plataforma recolhe automaticamente informação proveniente de e-mails, folhas de cálculo, PDFs e mensagens, transforma-a em dados estruturados e disponibiliza às equipas um painel em tempo real com o estado dos SKUs (Stock Keeping Unit), os caminhos críticos das encomendas e alertas antecipados quando existem riscos de atraso nas entregas.

A Ameba consegue ainda fazer follow-up automático com fornecedores e sincronizar todos os dados com sistemas ERP e PLM, permitindo que as equipas passem menos tempo à procura de atualizações e mais tempo a gerar negócio e a fortalecer relações com clientes e fornecedores.

 

Quais são os principais desafios de gestão de supply chain que a Ameba resolve?

O maior desafio é a visibilidade. A informação está dispersa por ERPs, folhas de cálculo, e-mails e equipas internas, o que dificulta respostas rápidas e precisas a alterações em encomendas, disponibilidade ou pedidos dos clientes.

Além disso, as equipas comerciais e de compras acumulam demasiado trabalho administrativo – follow-ups, duplicação de dados e gestão manual de encomendas. A Ameba centraliza e estrutura essa informação, automatiza o acompanhamento e fornece insights em tempo real, permitindo operações mais rápidas e controladas.

 

 A Ameba agrega informação altamente fragmentada. Como funciona isso na prática e que tipo de dados são estruturados na plataforma?

A Ameba utiliza IA para interpretar informação de supply chain proveniente de e-mails, folhas de cálculo e PDFs, onde ainda reside grande parte dos dados operacionais. Extraímos os principais detalhes, ligamo-los aos SKUs, encomendas e fornecedores corretos e transformamo-los numa visão operacional em tempo real.

Nos bastidores, utilizamos “agentes” de IA em várias etapas, que leem mensagens e anexos, interpretam o conteúdo, mapeiam relações e executam ações como follow-ups automáticos com fornecedores ou alertas de risco. O nosso objetivo é transformar comunicação desorganizada numa fonte de verdade clara, desde a encomenda do cliente até às ordens de compra e produção interna.

 

“Quando a informação está fragmentada, a execução transforma-se em caos. É por isso que a Ameba é construída em torno da automação da velocidade e da clareza operacional”.

 

 

O que o levou a criar a Ameba?

A Ameba nasceu diretamente da minha experiência pessoal a gerir um negócio industrial na Ásia e, mais tarde, a construir a cadeia de abastecimento da VALOREO, um dos maiores grupos de e-commerce da América Latina.

Na VALOREO, passávamos mais tempo a identificar atrasos do que a resolvê-los – a contactar fornecedores, atualizar folhas de Excel e a reagir a surpresas praticamente todos os dias.

Mesmo com alguns dos melhores softwares de supply chain do mundo, o trabalho continuava a ser excessivamente manual. Foi aí que percebi que a maioria das ferramentas tinha sido pensada primeiro para equipas financeiras, e não para os operadores que gerem efetivamente as compras e a produção. Essa lacuna tornou-se uma oportunidade: criar uma solução feita à medida para reduzir o caos e devolver velocidade, clareza e controlo às equipas de supply chain.

 

 Pode partilhar um pouco do seu percurso profissional e de que forma isso influencia a gestão da Ameba hoje?

Sou natural da Alemanha e mudei-me para a China aos 16 anos num intercâmbio escolar – uma experiência que marcou profundamente a minha vida. Mais tarde, estudei na London School of Economics e iniciei a minha carreira na banca no Goldman Sachs e no BNP Paribas, antes de decidir que queria construir empresas em vez de apenas aconselhá-las.

Por falar mandarim, mudei-me para Taiwan, adquiri uma empresa industrial e escalei-a até se tornar um fornecedor Tier 1 de hardware para algumas das maiores empresas de gaming do mundo. Durante a pandemia, o negócio passou por um período muito difícil. Foi nessa altura que associei-me a amigos do private equity e mudei-me para o México para cofundar a VALOREO, adquirindo e fazendo crescer várias marcas nos setores da moda, bens de consumo e mobiliário.

Em dois anos, angariámos mais de 160 milhões de dólares, adquirimos mais de 25 marcas e crescemos para mais de 200 colaboradores no México, Colômbia e Brasil.

Estas experiências ensinaram-me algo muito claro: quando a informação está fragmentada, a execução transforma-se em caos. É por isso que a Ameba é construída em torno da automação, da velocidade e da clareza operacional.

 

 O que o entusiasma mais neste projeto?

Vivi os problemas que os nossos clientes enfrentam, tanto como operador de supply chain como enquanto CEO de uma empresa industrial. De certa forma, estou a construir a Ameba para uma versão passada de mim próprio.

As cadeias de abastecimento têxteis estão entre as mais complexas do mundo: milhares de SKUs, inúmeros componentes, muitos fornecedores e mudança constante. Essa complexidade gera dados desorganizados e fragmentados, e aplicar IA exatamente a este problema é, na minha opinião, a maior oportunidade para todo o mercado. Não porque soe apelativo, mas porque é onde a IA pode gerar o maior impacto.

E, a nível pessoal, a minha mulher é fornecedora de tecidos em Taiwan, por isso, se fizermos isto da forma certa, não estaremos apenas a melhorar as operações dos nossos clientes, mas também a melhorar a vida de todo o ecossistema – incluindo fornecedores como ela.

 

“Hoje a Ameba é uma plataforma escalável, com integrações robustas”. 

 

Como evoluiu a Ameba desde os primeiros tempos?

Nos primeiros tempos, desenvolvemos a Ameba lado a lado com um pequeno grupo de parceiros, incluindo a Anglotex e a Carmafil. Passámos muito tempo no terreno com as suas equipas, a compreender a realidade desorganizada do dia a dia das compras e da produção.

Hoje, a Ameba é uma plataforma escalável, com integrações robustas, que nos permite implementar rapidamente em mais fabricantes, sem perder a abordagem centrada no utilizador que moldou o produto desde o início.

 

Que novas funcionalidades ou desenvolvimentos tecnológicos estão atualmente em preparação?

Estamos a lançar duas capacidades principais.

A primeira é o processamento automatizado de fichas técnicas (tech packs): a Ameba extrai e traduz informação-chave do produto – especificações, medidas, materiais e prazos – e sincroniza-a diretamente com sistemas ERP. Isto reduz drasticamente o trabalho manual e acelera a introdução de novos produtos.

A segunda é a analítica avançada: dashboards e gráficos de KPIs em tempo real que ajudam as equipas a identificar problemas mais cedo, compreender tendências de desempenho e tomar melhores decisões na execução comercial e da supply chain.

 

Quem é hoje o principal público-alvo da Ameba: grandes grupos, PME ou ambos?

Ambos, desde que exista complexidade operacional real. A Ameba gera mais valor para fabricantes que gerem múltiplos fornecedores, muitos SKUs e elevados volumes de coordenação diária.

Organizações muito pequenas ou verticalmente integradas podem não sentir todo o impacto, mas para a maioria dos fabricantes têxteis e de vestuário de dimensão intermédia, os ganhos de eficiência são significativos.

 

Como apoiam as empresas durante a implementação e utilização? Em quanto tempo surgem resultados?

Trabalhamos de forma próxima com os clientes desde o primeiro dia – mapeando processos, configurando a Ameba de acordo com os seus fluxos de trabalho e integrando com os sistemas existentes. Já desenvolvemos integrações com ferramentas comuns em Portugal, incluindo o Protextil, o que acelera a implementação.

Disponibilizamos onboarding, formação e apoio contínuo, e a maioria dos clientes começa a ver resultados mensuráveis em poucas semanas, porque o trabalho manual diminui rapidamente e a visibilidade melhora de imediato.

 

Ameba

 

“Tratamos a segurança dos dados como uma funcionalidade central do produto e não como um complemento”. 

 

Que novas oportunidades surgem quando os dados estão organizados e disponíveis em tempo real?

Os dados em tempo real dão velocidade e confiança às equipas. Em vez de dependerem de folhas de Excel ou de perseguirem atualizações, conseguem priorizar melhor, reagir mais cedo e tomar decisões com base no estado real de cada encomenda.

Isso permite melhor planeamento, detetar antecipadamente riscos, resposta mais rápida aos clientes e melhoria contínua – libertando as equipas para se focarem no crescimento em vez da gestão diária de crises.

 

Portugal é um mercado estratégico para a Ameba? Se sim, porquê?

Sim, Portugal é um mercado-chave para a Ameba. Muitas empresas modernizaram o chão de fábrica, mas as operações comerciais continuam muito manuais: preços, comunicação com clientes, acompanhamento de encomendas e follow-ups consomem demasiado tempo e geram risco.

Portugal manteve a sua relevância global porque a indústria se reinventa constantemente e permanece aberta à inovação. Costumo dizer que Portugal é o Silicon Valley da indústria têxtil.

Estamos também a assistir a uma transição geracional, com líderes de segunda geração interessados em modernizar e desenvolver o legado dos seus pais. A Ameba encaixa naturalmente nesse processo, trazendo velocidade, automação e visibilidade em tempo real para o lado comercial das fábricas.

 

Que vantagens competitivas identifica na indústria têxtil e de vestuário portuguesa?

Portugal combina uma forte herança industrial com uma verdadeira mentalidade de inovação. As empresas são reconhecidas pela qualidade, pelas equipas qualificadas e pela fiabilidade, enquanto investem fortemente em maquinaria moderna, materiais avançados e sustentabilidade.

Portugal é também extremamente ágil: os fabricantes conseguem responder rapidamente às tendências e oferecer prazos de entrega curtos, apoiados pela proximidade aos principais mercados europeus. Esta combinação faz de Portugal um dos polos têxteis mais fortes a nível global.

 

“Muitas empresas modernizam o chão de fábrica, mas as operações comerciais continuam muito manuais.”

 

Ameba 1

 

Que papel prevê para a Inteligência Artificial na indústria nos próximos anos?

A IA é tão boa quanto os dados que a suportam, e as empresas que tentam “prever o futuro” com bases desorganizadas acabam por falhar.

A grande oportunidade atual é prática e enorme: usar IA para reduzir trabalho manual, captar dados automaticamente e criar visibilidade operacional fiável. Com essa base, a IA pode ajudar as equipas a tomar melhores decisões, prevenir atrasos, recomendar ações e gerir cadeias de abastecimento com muito mais controlo ao nível do SKU.

Dentro de dez anos, nem sequer chamaremos “plataformas de IA” a estas ferramentas. Será simplesmente a forma como as operações modernas funcionam.

 

A digitalização pode tornar-se um verdadeiro motor de sustentabilidade no setor têxtil?

Sim – e o maior impacto virá da redução do desperdício, e não apenas do seu reporte. Atualmente, cerca de 30% da roupa produzida nunca chega ao consumidor, sobretudo devido à sobreprodução e a ciclos de planeamento rígidos.

A IA pode tornar as cadeias de abastecimento mais responsivas, permitindo que marcas e fabricantes ajustem encomendas a meio da estação, reduzam excesso de stock e evitem produção desnecessária. Isso é positivo para as margens e uma grande vitória para a sustentabilidade.

 

O que significa, na prática, a Ameba ser compatível com SOC 2 e RGPD? Que garantias oferecem ao nível da segurança dos dados?

Tratamos a segurança dos dados como uma funcionalidade central do produto, e não como um complemento. A Ameba apenas processa os tópicos, documentos e sistemas que cada cliente autoriza, num ambiente isolado.

Na prática, garantimos isolamento total dos dados por cliente, encriptação em trânsito e em repouso, registos de auditoria detalhados, monitorização contínua e processos formais de resposta a incidentes. Nunca misturamos dados entre clientes e não utilizamos informação de um cliente para beneficiar outro.

 

Quais são as ambições de longo prazo da Ameba?

Queremos passar de uma lógica reativa de “apagar fogos” para operações proativas, onde as equipas se podem focar na inovação, desenvolvimento de produto e sustentabilidade, em vez de perseguirem atrasos.

Hoje, a Ameba pode parecer uma ferramenta de IA de última geração. A longo prazo, queremos que se torne a camada standard para execução comercial e de supply chain, à semelhança dos ERP e PLM, mas finalmente pensada para a velocidade e complexidade da indústria moderna.

 

Como é composta a equipa da Ameba?

A Ameba é um produto tecnicamente muito exigente, e a equipa reflete essa complexidade. Somos atualmente 16 pessoas, das quais 12 estão focadas em engenharia e produto, abrangendo backend, frontend, design e gestão de produto.

A equipa inclui profissionais com experiência em empresas como a Palantir, Microsoft e Meta, bem como um antigo engenheiro quantitativo de um hedge fund. Tenho enorme orgulho na equipa que construímos, porque desenvolver um sistema como a Ameba exige talento técnico profundo, padrões elevados e muita resiliência. Sem este grupo, não seria possível construir algo tão ambicioso.

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