Bebiana Rocha
A sustentabilidade da cadeia global de abastecimento de caxemira dependerá cada vez mais da rastreabilidade, da transparência e de um maior apoio aos produtores. A conclusão é da Textile Exchange, que publicou ontem, em parceria com a Integrity AG e a Environment, um estudo de Avaliação do Ciclo de Vida (LCA) da fibra, identificando os principais desafios e oportunidades para os dois maiores países produtores: Mongólia e China.
Baseado em informação recolhida junto de agricultores e pastores, complementada por contributos de especialistas e revisão da literatura científica, o relatório conclui que as pressões ambientais, económicas e sociais sobre a produção de caxemira poderão ter impacto na estabilidade do abastecimento e reforçar a necessidade de uma cadeia de valor mais transparente.
“Apesar das diferenças ao nível da governação, da geografia e da estrutura de mercado, agricultores e pastores da China e da Mongólia enfrentam desafios comuns”, refere o documento, apontando as alterações climáticas, a precariedade financeira, a reduzida capacidade de influência sobre a formação dos preços e o envelhecimento dos produtores como alguns dos principais fatores de risco para o futuro da atividade.
Ao mesmo tempo, o estudo identifica sinais de evolução positiva. A remuneração baseada na qualidade da fibra, a criação de cooperativas, a expansão de programas de formação e certificação e a implementação de sistemas de rastreabilidade digital são apontadas como instrumentos capazes de reforçar a resiliência da cadeia de abastecimento e responder à crescente procura por caxemira produzida de forma sustentável.
Nas recomendações finais, a Textile Exchange defende que os fornecedores devem dar prioridade à rastreabilidade e à transparência. “A manutenção de registos claros sobre a origem da fibra, a sua qualidade e o respetivo estatuto de certificação pode reforçar a confiança dos compradores e facilitar o acesso a segmentos de maior valor acrescentado”, sustenta a organização.
O estudo evidencia igualmente diferenças estruturais entre os dois principais países produtores. Na China, a produção está integrada em políticas de desenvolvimento rural e beneficia de investimento público, refletindo uma crescente profissionalização da atividade. Já na Mongólia, continua fortemente ligada ao modo de vida nómada e enfrenta desafios acrescidos relacionados com a degradação ambiental e a vulnerabilidade económica.
Na Mongólia, onde a análise incidiu sobre seis províncias, as alterações climáticas, a degradação dos solos, a escassez de água e o avanço da desertificação surgem entre as maiores ameaças à produção. A expansão da atividade mineira constitui igualmente uma preocupação, uma vez que tem ocupado áreas de pastagem comunitária. “Estes impactos estão a transformar de forma estrutural o modelo pastoral”, refere o relatório.
Os produtores mongóis possuem, em média, 296 cabras por agregado familiar e obtêm cerca de 52% do seu rendimento através da venda de caxemira. Contudo, a maioria continua a comercializar a fibra em bruto através de intermediários, permanecendo exposta à volatilidade dos preços e com acesso limitado aos processadores e aos mercados de exportação. A fragilidade financeira é também evidente: dos 110 pastores inquiridos, 92 afirmaram não conseguir poupar rendimentos de anos anteriores e 80 disseram recorrer a empréstimos para suportar as despesas da atividade.
Na China, maior processador e exportador mundial de caxemira, os produtores possuem, em média, 282 cabras por agregado familiar. A venda da fibra constitui igualmente a principal fonte de receita, gerando um rendimento médio anual de 91.100 yuans (cerca de 13 mil dólares), embora a maioria dos agricultores combine esta atividade com outras produções agrícolas.
As explorações chinesas desenvolvem-se em propriedades delimitadas por cercas, ao contrário da realidade nómada da Mongólia. Ainda assim, o estudo alerta para desafios semelhantes, nomeadamente o envelhecimento dos produtores – a maioria tem mais de 55 anos -, o prolongamento dos períodos de seca e a necessidade de financiamento. Dos 60 agricultores inquiridos, 47 afirmaram recorrer a empréstimos para manter a atividade, enquanto programas de relocalização em regiões como a Alxa League estão igualmente a alterar os modelos tradicionais de produção.
“À medida que a procura mundial por caxemira produzida de forma sustentável continua a crescer, fica evidente a necessidade urgente de adotar uma abordagem direcionada para a sustentabilidade e a responsabilidade social”, conclui a Textile Exchange.