Bebiana Rocha
Para assinalar o Dia da Mulher, o T Jornal entrevistou três protagonistas da indústria que integram os órgãos sociais da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. Vindas de gerações e segmentos distintos do sector, foram convidadas a partilhar os seus percursos, aprendizagens e a deixar uma mensagem de futuro para a indústria.
Alexandra Oliveira, gerente das empresas Bordados Oliveira, JSB Oliveira, JMJ bordados e JSB Inovação, cresceu dentro de uma empresa familiar. Foi nesse ambiente que, quase sem se aperceber, aprendeu o ritmo, a exigência e a responsabilidade que caracterizam o sector. A empresária encerra esta série de entrevistas, sublinhando uma mensagem clara: a conciliação entre a vida profissional e pessoal não é um luxo, mas uma necessidade que as mulheres devem encarar como parte natural do seu percurso.
Ao longo da conversa, partilha também as suas principais inspirações – a mãe, as mulheres com quem trabalha diariamente e as mulheres da sua família -, recorda lições que marcaram o seu caminho e deixa uma ideia que considera essencial: tudo o que alcançamos resulta, em grande medida, das pessoas com quem escolhemos trabalhar. E, na sua perspetiva, as mulheres têm um dom particular para liderar de forma próxima, empática e mobilizadora.
Como começou a sua ligação com o STV?
A minha ligação ao setor têxtil e do vestuário começou muito antes da minha vida profissional. Cresci dentro de uma empresa familiar fundada pelo meu pai e pelo meu tio em 1989, e foi nesse ambiente que aprendi, quase sem perceber, o ritmo, a exigência e a responsabilidade que caracterizam o setor. Em adolescente, comecei a ajudar durante as férias escolares, o que me deu uma visão prática do trabalho e reforçou esta ligação que sempre senti como natural.
Curiosamente, a minha formação académica seguiu um caminho completamente diferente. Formei-me na área do ensino e ainda exerci durante alguns anos pois sempre tive uma paixão enorme pelas línguas, pela comunicação e pela educação, e foi isso que me levou a escolher essa área. No entanto, apesar de a minha formação não estar diretamente ligada ao setor têxtil, ela acabou por complementar o meu percurso. Deu-me competências de comunicação, análise, pensamento crítico e relação interpessoal que hoje considero fundamentais no meu trabalho e na forma como me posiciono dentro da indústria.
Que momentos mais marcaram a carreira?
Alguns momentos marcaram de forma especial o meu percurso. O primeiro foi, sem dúvida, ter crescido dentro de uma empresa familiar, onde aprendi desde cedo o valor do trabalho, da resiliência e da responsabilidade. Mais tarde, já em adulta, houve dois momentos decisivos: o primeiro foi quando percebi que, apesar de a minha formação ser noutra área, tinha competências que podiam acrescentar valor ao setor; o segundo foi quando assumi funções que me permitiram ter uma visão mais abrangente da indústria e do impacto que o nosso trabalho tem nas empresas e nas pessoas. Esses momentos consolidaram a minha ligação ao setor e definiram o caminho que sigo hoje.
Quais são as maiores aprendizagens?
Ao longo do meu percurso, aprendi que nada se conquista sozinha. Tudo o que alcançamos resulta das pessoas com quem escolhemos trabalhar, das equipas que construímos e da forma como valorizamos cada contributo. Percebi também que a capacidade crítica é essencial – e felizmente faz parte da cultura das nossas empresas, onde todos têm voz e onde as decisões são mais fortes porque são partilhadas. Estas aprendizagens moldaram a minha forma de trabalhar e a forma como vejo o setor: como um espaço coletivo, onde o sucesso é sempre um trabalho de equipa.
Como sente que a presença feminina transforma a ITV? Que características femininas considera que acrescentam valor à ITV?
A presença feminina transforma a ITV porque acrescenta uma forma muito própria de liderar, de trabalhar e de pensar o setor. Para além da capacidade de criar ambientes colaborativos e de valorizar o contributo de cada pessoa, há também uma atenção constante ao detalhe, ao rigor e à organização, que são fundamentais numa indústria tão exigente. Mas o impacto não se fica por aí. As mulheres trazem uma visão mais abrangente, uma sensibilidade para antecipar problemas e uma capacidade natural de gerir várias dimensões ao mesmo tempo – pessoas, processos e resultados. Essa combinação faz com que as equipas funcionem melhor, que as decisões sejam mais equilibradas e que o setor evolua com mais consciência e mais humanidade. No fundo, o valor acrescentado está na forma como as mulheres conseguem juntar competência técnica, visão estratégica e uma liderança que aproxima e mobiliza.
Que mudanças gostaria de ver no sector nos próximos anos?
A mudança que gostaria de ver no setor passa por uma evolução que coloque verdadeiramente as pessoas no centro e que permita às empresas crescer de forma mais estruturada e sustentável. Acredito que a ITV tem feito um caminho importante, mas ainda há espaço para reforçar a qualificação das equipas, criar ambientes de trabalho mais estáveis e dar às pessoas oportunidades reais de desenvolvimento. Quando as equipas se sentem valorizadas e têm espaço para aprender e progredir, o setor torna‑se naturalmente mais forte.
Também considero essencial que a modernização deixe de ser apenas tecnológica e passe a ser organizacional. Processos mais claros, comunicação mais fluida e estruturas que permitam às equipas trabalhar com autonomia fazem toda a diferença num setor tão exigente. E, claro, gostava de ver a sustentabilidade integrada no dia a dia das empresas, não como um slogan, mas como uma prática real – desde a forma como se produzem peças até à forma como se gerem recursos.
No fundo, o que espero para os próximos anos é um setor mais humano, mais preparado e mais consciente do seu papel no futuro da indústria e das comunidades onde está inserido.
Que mensagem deixaria às mulheres do sector?
A mensagem que deixaria às mulheres do setor é que não precisam – nem devem – escolher entre serem apenas uma coisa. A vida profissional e a vida familiar não são mundos separados; são dimensões que se influenciam e se enriquecem mutuamente. O equilíbrio não nasce de uma divisão perfeita, mas da capacidade de reconhecer que há momentos para estar mais presente no trabalho e outros em que a família precisa de nós com mais intensidade. E isso não diminui o nosso valor em nenhum dos lados.
O setor é exigente, mas também está a mudar, e essa mudança acontece porque cada vez mais mulheres mostram que é possível liderar, decidir e crescer profissionalmente sem abdicar daquilo que é essencial na vida pessoal. A conciliação não é um luxo – é uma necessidade – e deve ser vista como parte natural do percurso de qualquer mulher.
No fundo, a mensagem é simples: não deixar que nos digam que temos de ser só uma coisa. A força das mulheres na ITV está precisamente na capacidade de integrar todas as dimensões da vida e transformar essa experiência em valor para o setor.
Que legado gostaria de deixar na indústria?
O legado que gostaria de deixar na indústria passa sobretudo pela forma como as pessoas trabalham juntas e se sentem dentro das organizações. Gostava de ser lembrada por contribuir para um setor mais humano, onde as equipas são valorizadas, onde cada pessoa sente que tem voz e onde a colaboração é vista como a base de tudo o que se constrói. Acredito profundamente que o futuro da ITV depende da capacidade de criar ambientes de trabalho mais equilibrados, mais conscientes e mais preparados para integrar as várias dimensões da vida – e, se puder deixar essa marca, mesmo que pequena, sinto que já valeu a pena.
Que mulheres inspiram a sua forma de liderar e estar?
A minha forma de liderar é profundamente influenciada por mulheres que, cada uma à sua maneira, me mostraram o que significa ter força, equilíbrio e sentido de responsabilidade. A primeira é a minha mãe, cuja ética de trabalho sempre me guiou e continua a ser uma referência diária. Depois, inspiro‑me muito nas mulheres que trabalham comigo – especialmente aquelas que conseguem ser tudo ao mesmo tempo: profissionais dedicadas, esposas, mães, filhas, e que, mesmo com todas essas dimensões da vida, não viram as costas quando a empresa precisa delas. São mulheres que honram o caminho que tantas outras abriram antes de nós e que não desvirtuam a luta pela igualdade de género, mantendo‑a viva através do exemplo.
E, num plano mais pessoal, inspiro‑me também nas mulheres da mimha familia que me acompanham no dia a dia e que me ajudam a manter esse equilíbrio entre todas as partes da minha vida, mulheres que me lembram que a força não está em fazer tudo sozinha, mas em ter uma rede que nos sustenta e nos permite ser melhores em tudo o que fazemos.
Como imagina o futuro do sector e qual é o papel das novas gerações femininas neste caminho?
O futuro da ITV será mais tecnológico, mais exigente e mais orientado para a sustentabilidade, e isso vai obrigar o setor a trabalhar de forma mais organizada, mais qualificada e mais consciente do impacto das suas decisões. As empresas vão precisar de equipas preparadas, processos claros e uma cultura que valorize tanto a inovação como a estabilidade.
As novas gerações femininas terão um papel direto nesta transformação. Trazem uma visão mais crítica, mais equilibrada e mais atenta às pessoas, e isso é essencial num setor que precisa de evoluir sem perder a sua base humana. São mulheres que já cresceram com outra noção de igualdade, que não aceitam retrocessos e que integram naturalmente várias dimensões da vida – trabalho, família e desenvolvimento pessoal – sem sentirem que têm de abdicar de uma para serem competentes na outra. Essa forma de estar, mais completa e mais consciente, é exatamente o que o setor precisa para se modernizar e ganhar capacidade de adaptação.
No fundo, o futuro da ITV vai depender muito da forma como estas novas gerações se afirmam, participam e influenciam as decisões – trazendo novas competências, novas expectativas e uma visão mais ampla do que significa trabalhar numa indústria que quer ser competitiva e sustentável.