28 agosto 26
Economia

Bebiana Rocha

Alemanha dá sinais de retoma e Portugal já sente o impulso

A economia alemã está a dar sinais de recuperação depois de três anos marcados pela recessão e estagnação, uma evolução que poderá melhorar as condições de procura num dos principais mercados europeus para o sector têxtil e vestuário nacional. Os sinais positivos surgem num momento em que as exportações portuguesas para a Alemanha também aceleraram, embora a ITV apresente uma evolução mais desigual.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou esta quarta-feira que a economia do país está novamente a crescer e que a recessão deverá ser ultrapassada até ao final do ano. “Já estamos a crescer a um bom ritmo no terceiro trimestre”, afirmou numa conferência de imprensa, acrescentando que as previsões para 2027 estão a ser revistas em alta e que a Alemanha poderá alcançar um crescimento económico de pelo menos 1% no próximo ano.

Os indicadores de confiança acompanham este discurso. O Índice de Clima Empresarial do Ifo subiu 2,1 pontos em agosto, para 88,8, registando a quarta subida mensal consecutiva e atingindo o valor mais elevado do último ano. No segundo trimestre, a economia alemã cresceu 0,3% face aos três meses anteriores, acima da primeira estimativa de 0,2%.

A melhoria da confiança é particularmente relevante para uma economia com forte peso industrial. As exportações alemãs cresceram 2% no segundo trimestre e as expectativas de exportação da indústria atingiram em agosto o nível mais elevado desde fevereiro de 2022, sinalizando uma melhoria das perspetivas para o setor empresarial.

Para Portugal, os sinais de recuperação surgem acompanhados por uma evolução positiva das exportações. Em junho de 2026, as exportações portuguesas para a Alemanha cresceram 6,2% em termos homólogos, correspondendo a um aumento absoluto de 49,8 milhões de euros. Foi a segunda maior subida absoluta entre os parceiros comerciais de Portugal, apenas ultrapassada por Espanha, que registou um acréscimo de 227,6 milhões de euros.

No setor têxtil e de vestuário, contudo, a fotografia do primeiro semestre é mais desigual. Entre janeiro e junho de 2026, Portugal exportou para a Alemanha 234,6 milhões de euros em têxteis e vestuário, contra 239,9 milhões de euros no mesmo período de 2025, uma redução de cerca de 2,2%.

O recuo é explicado sobretudo pelo vestuário. As exportações desta categoria diminuíram 5,3%, para cerca de 141 milhões de euros. Dentro deste grupo, o vestuário de malha registou uma quebra de 6,8%, para 110,2 milhões de euros, enquanto o vestuário que não é de malha apresentou uma ligeira subida de 0,8%, para 30,8 milhões de euros.

Já os produtos têxteis apresentam uma evolução mais favorável. As exportações das categorias de matérias têxteis, excluindo o vestuário, cresceram 5,3% no primeiro semestre, para cerca de 74,6 milhões de euros. Entre os principais aumentos destacam-se os tecidos impregnados, revestidos ou recobertos, com uma subida de 20,7%, para 3,9 milhões de euros, os tecidos especiais e tecidos tufados, que cresceram 16,5%, para 3,9 milhões de euros, e o algodão, com um aumento de 11,9%, para 6,2 milhões de euros.

Também as outras fibras têxteis vegetais registaram uma evolução expressiva, com as exportações a aumentarem cerca de 70%, para 1,4 milhões de euros. Em sentido contrário, as fibras sintéticas ou artificiais descontínuas recuaram 18,7%, para 11,6 milhões de euros, enquanto os filamentos sintéticos ou artificiais diminuíram 14,1%, para 4,4 milhões de euros.

A evolução mostra, assim, que a eventual recuperação da procura alemã ainda não se está a refletir de forma transversal na ITV portuguesa. Enquanto o vestuário mantém uma evolução negativa, os produtos têxteis apresentam crescimento em várias categorias, incluindo algumas de maior especialização e valor acrescentado.

O Governo alemão coloca o investimento, o emprego e a inovação no centro da estratégia de recuperação. O ministro das Finanças, Lars Klingbeil, considera essenciais os investimentos financiados pelo fundo especial de 500 mil milhões de euros para infraestruturas e clima, defendendo que, sem este esforço adicional de financiamento e investimento, a Alemanha continuaria em recessão.

Para as empresas portuguesas da indústria têxtil e de vestuário, a combinação entre uma economia alemã a dar sinais de retoma e um mercado onde os produtos têxteis já estão a ganhar terreno constitui um cenário a acompanhar nos próximos meses. Uma recuperação sustentada da confiança, do investimento e da atividade industrial poderá criar condições para uma melhoria das encomendas, num mercado em que a proximidade, a flexibilidade, a especialização e o valor acrescentado continuam a ser fatores importantes de competitividade.

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