06 maio 26
Economia

Bebiana Rocha

ABIT acredita que Portugal pode duplicar exportações têxteis para o Brasil

No workshop ‘Em Foco Brasil’ da AICEP, a última parte da sessão, conduzida por Fernando Pimentel, da ABIT, destacou a importância de um trabalho conjunto entre Brasil e Portugal para competir no mercado global não pelo custo – como tem feito a Ásia -, mas pela qualidade, inovação e proximidade. Nesse contexto, apontou Portugal como um hub logístico natural para a Europa e, em sentido inverso, o Brasil como um mercado de nicho sofisticado para as empresas portuguesas.

O presidente emérito e diretor-superintendente da ABIT sublinhou que o mercado interno brasileiro deixou de ser dominado exclusivamente por empresas nacionais e está hoje a ser disputado “palmo a palmo” pela concorrência asiática. Para ilustrar esta realidade, apresentou números que revelam a pressão sentida pela indústria: nos últimos 20 anos, as exportações brasileiras do setor caíram para metade, enquanto as importações quintuplicaram.

Perante este cenário, defendeu que a sobrevivência da indústria depende de uma mudança radical de mentalidade, centrada no aumento da produtividade e na aposta em nichos de elevado valor acrescentado.

Relativamente ao Acordo UE-Mercosul, Fernando Pimentel alertou que os benefícios não serão imediatos, uma vez que está previsto um calendário de desagravamento tarifário entre oito e 11 anos. Atualmente, o Brasil aplica uma tarifa de 35% sobre o vestuário importado, enquanto a União Europeia pratica taxas entre 6,3% e 12%.

O responsável revelou ainda que o preço médio do vestuário importado pelo Brasil ronda os 13,20 dólares por quilograma, considerando este dado uma prova de que o consumidor brasileiro continua recetivo a produtos europeus de gama alta. Portugal é atualmente o terceiro maior fornecedor europeu de têxteis para o Brasil, atrás da Itália e da Alemanha, mas a ABIT acredita existir potencial para duplicar esse valor nos próximos anos através de parcerias segmentadas.

Em matéria de sustentabilidade e regulação, Fernando Pimentel admitiu que o setor continuará a enfrentar exigências regulatórias cada vez mais apertadas. Ainda assim, destacou como principal vantagem competitiva do Brasil o facto de possuir uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo: cerca de 70% da energia utilizada pela indústria têxtil brasileira é renovável. Acresce ainda uma produção de algodão sustentável que não depende de irrigação artificial. Na sua perspetiva, estes fatores podem tornar-se decisivos para enfrentar a concorrência asiática.

Entre os principais desafios para quem pretende investir no Brasil, apontou as elevadas taxas de juro reais, atualmente na ordem dos 10%, que acabam por desincentivar os investimentos em modernização. Referiu também a litigância laboral e as dificuldades em atrair mão de obra qualificada como entraves relevantes ao desenvolvimento da indústria.

Partilhar