Bebiana Rocha
A NellyRodi, uma das mais reconhecidas agências francesas de previsão de tendências e consultoria estratégica para as indústrias criativas, apresentou no passado mês de maio um estudo dedicado à evolução do mercado do luxo. Intitulado Intangible Luxury, o documento foi revelado numa conferência digital conduzida por Clara de Pirey, Constance Le Nay e Rodolphe de Turckheim, que procuraram identificar as transformações que estão a redefinir o conceito de luxo e as expectativas dos consumidores ultra ricos.
Ao longo da apresentação foram abordados temas como os novos imaginários do luxo, as expectativas dos ultra-ricos, os códigos associados à emoção, ao serviço e à experiência, bem como os cenários disruptivos que poderão moldar o setor até 2035. A principal mensagem foi clara: num mundo cada vez mais dominado pela inteligência artificial e pela automatização, o produto terá de se afirmar como uma prova de humanidade.
Mais do que a posse de um bem, os consumidores valorizam cada vez mais a história, o conhecimento, a ligação emocional e a segurança proporcionada pela durabilidade e pela possibilidade de reparação. A transmissão de saber-fazer, a autenticidade dos processos e a capacidade de preservar um património cultural passam a ser fatores determinantes na criação de valor.
Para ilustrar esta mudança, a equipa da NellyRodi destacou exemplos recentes de marcas de luxo que estão a expandir a sua atuação para territórios culturais e experienciais. A Chanel abriu em Xangai uma livraria dedicada à arte contemporânea, concebida como um espaço de consulta, partilha e transmissão cultural, sem um objetivo imediato de venda de produtos. Já a Prada desenvolveu na mesma cidade um espaço que cruza design, narrativa cinematográfica e experiência imersiva, contando para isso com a colaboração do realizador Wong Kar-Wai.
Estes exemplos refletem uma mudança estrutural: as marcas de luxo estão a deixar de ser apenas produtoras de objetos desejáveis para assumirem o papel de curadoras intelectuais e culturais. O foco desloca-se progressivamente dos bens materiais para as experiências, num movimento que tem vindo a ganhar força nos últimos anos.
Segundo os dados apresentados, desde 2023 apenas o segmento das experiências tem contribuído positivamente para o crescimento das despesas globais em luxo. A nova hierarquia social deixa de estar associada apenas à posse de produtos raros e passa a assentar na capacidade de aceder a lugares exclusivos, viver experiências únicas e investir em processos de desenvolvimento e enriquecimento pessoal.
Entre os fatores que explicam esta evolução destacam-se a saturação material e a saturação cognitiva. Num contexto em que os consumidores são constantemente expostos a produtos, informação e estímulos digitais, cresce a procura por momentos de significado, exclusividade e tranquilidade.
O estudo identifica dois grupos particularmente relevantes para compreender esta transformação. Por um lado, os HNWI (High Net Worth Individuals), indivíduos com mais de um milhão de dólares em ativos, que representam cerca de 41 milhões de pessoas em todo o mundo e concentram aproximadamente 150 biliões de dólares em riqueza. Por outro, os VIC (Very Important Customers), responsáveis por uma parcela desproporcionada do consumo de luxo: embora representem apenas 2% dos clientes das marcas, geram mais de 40% dos gastos globais do setor.
A análise das suas intenções de consumo revela uma preferência crescente por experiências, sobretudo no universo das viagens, da saúde e do bem-estar. Entre as principais expectativas identificadas surgem conceitos como elevação, serenidade, exclusividade, reconhecimento e união, valores que tendem a ganhar importância face à mera aquisição de produtos.
O cenário projetado para a próxima década aponta para uma sociedade fortemente influenciada pela inteligência artificial, onde a diferenciação deixará de resultar da performance tecnológica. À medida que a IA torna os serviços mais fluidos, eficientes e acessíveis, a raridade baseada na capacidade técnica tenderá a perder relevância.
Neste contexto, o luxo deverá expandir-se para novos territórios ligados à evasão, à cultura, à privacidade e à segurança. O valor passará a residir precisamente naquilo que pode ser automatizado, mas que continua a ser realizado por escolha humana. O desejo deslocar-se-á para processos deliberadamente lentos, para a imperfeição que revela autenticidade e para experiências que reforçam a ligação entre pessoas.
Para o setor português, fortemente reconhecido pela qualidade, proximidade produtiva e know-how especializado, esta evolução representa uma oportunidade para reforçar a diferenciação através da valorização das pessoas, dos processos e da herança industrial que tornam cada produto único.