21 fevereiro 24
MODTISSIMO

Mário Jorge Machado

A (in)perfeição como fator de desenvolvimento

O tema da edição 60+3 da MODTISSIMO – (IN)PERFECT – remete-nos para o caminho de desenvolvimento e crescimento que o sector têxtil e vestuário português tem feito ao longo dos tempos, na busca do seu aperfeiçoamento, ultrapassando dificuldades, constrangimentos e imperfeições, as suas e as do sistema.

Sempre com uma perspetiva construtiva de oferecer o seu melhor ao mundo, aprimorando sucessivamente a sua resposta. Promovendo nas suas organizações e em todos os que para elas contribuem uma cultura de melhoria contínua em busca da excelência, onde as imperfeições são vistas como oportunidade de crescimento, desenvolvimento e transformação.

Com uma abertura de espírito e análise autocritica para implementar e adaptar sistemas e processos cada vez mais otimizados, na busca da eliminação de perdas e desperdícios, sem descurar o compromisso com a qualidade, o valor, a inovação, a sustentabilidade, procurando sempre a superação da resposta às necessidades dos clientes e restantes stakeholders.

A (im)perfeição faz parte do processo criativo e da inovação, dois drivers de desenvolvimento essenciais ao crescimento desta indústria. É na tentativa de superar o erro, a falha, uma não resposta ou uma resposta pouco satisfatória aos desafios e necessidades que conseguimos fazer grandes descobertas ou pelo menos as adaptações necessárias para permanecermos um passo à frente.

A (im)perfeição faz também parte desta grande transformação que estamos a viver em prol de uma indústria mais sustentável e circular. E aqui de uma forma duplamente representada. Por um lado, queremos muito a otimização, eliminar desperdícios e minimizar a utilização de recursos, procurando a perfeição dos processos, desde os criativos à logística, com um foco muito grande nos processos industriais. Todavia, preocupamo-nos pouco sobre o impacto que a procura pela perfeição nos produtos tem em termos da sustentabilidade ambiental. Quantos recursos são desperdiçados à procura da perfeição? Que (im)perfeições deveríamos, enquanto sociedade e consumidores, aceitar e até valorizar? Embora a decisão não nos caiba inteiramente a nós, enquanto indústria e detentores de um conhecimento do processo industrial que poucos têm, temos uma responsabilidade acrescida nesta reflexão, esclarecimento e sensibilização das partes que têm o poder da decisão.

(Im)perfeito é também o momento que vivemos: por um lado, quanta volatilidade, incerteza e contração na economia e nos negócios e, por outro, quanta pressão para a mudança, para o investimento, para a expansão e para o acreditar. É seguramente um momento bastante desafiante, onde a confiança e a resiliência do nosso sector está a ser testada, mas acredito que o que temos vindo a semear nos últimos anos não foi e não será em vão.

Continuamos aqui, fortes e resilientes, a lutar pelo nosso sector, muitas vezes com um espírito de missão que poucos percebem e muito poucos valorizam. Faz também parte da (im)perfeição. Vamos por isso aproveitar esta edição da MODTISSIMO para celebrar a beleza de (im)perfeição, um pouco ao jeito da arte japonesa “wabi-sabi”, como o motor de desenvolvimento e crescimento desta indústria, que tem oferecido tanto a todos nós e a Portugal.

Mário Jorge Machado

Presidente da ATP

 

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