Num momento em que o Passaporte Digital de Produto se afirma como uma peça central na transição digital e sustentável da indústria têxtil e vestuário, o debate sobre os seus impactos reais, desafios de implementação e implicações para as empresas ganha nova relevância. Para aprofundar estas questões, falámos com Catarina Carvalho, investigadora do 2C2T e autora do estudo que analisa a aplicação do DPP no setor, numa conversa centrada no papel da ciência, na confiança dos dados e nas oportunidades e constrangimentos que esta ferramenta poderá trazer para a indústria portuguesa e europeia.
De que forma acha que a evolução científica pode contribuir para a evolução do setor têxtil e de vestuário nacional?
A evolução científica é hoje um dos principais motores de transformação do setor têxtil e de vestuário. Durante muitos anos, a competitividade da indústria foi sobretudo associada à capacidade produtiva, ao preço e à rapidez de resposta. Atualmente, estes fatores continuam a ser importantes, mas já não são suficientes. O setor enfrenta uma transição profunda, marcada por novas exigências ambientais, digitais, regulamentares e sociais. Neste contexto, a ciência permite passar de uma indústria essencialmente reativa para uma indústria mais preditiva, transparente e orientada por dados e pela tecnologia.
No caso do setor têxtil nacional, a investigação científica pode contribuir em várias dimensões: no desenvolvimento de novos materiais de menor impacto ambiental, na criação de fibras recicladas ou biodegradáveis, na eficiência de processos de tingimento e acabamento com menor consumo de água, energia e químicos, na implementação de ferramentas digitais de rastreabilidade e na avaliação rigorosa do ciclo de vida dos produtos. A ciência também permite apoiar as empresas na adaptação a novas exigências europeias, como o Ecodesign for Sustainable Products Regulation e o Digital Product Passport.
Acredito que a evolução científica será determinante para reposicionar a indústria portuguesa num segmento de maior valor acrescentado. Portugal não deve competir apenas pela produção, mas pela capacidade de produzir melhor: com mais conhecimento, mais transparência, mais rastreabilidade e mais responsabilidade ambiental.
No seguimento do artigo científico sobre o DPP. Como podemos garantir a confiabilidade dos dados coletados?
A confiabilidade dos dados é provavelmente uma das questões mais críticas na implementação do Passaporte Digital de Produto, sigla em inglês DPP. O DPP só terá valor se a informação que contém for verificável, comparável e atualizada. Caso contrário, corre-se o risco de criar apenas mais uma camada digital de comunicação, sem verdadeira transformação da cadeia de valor.
Para garantir essa confiabilidade, é necessário atuar em vários níveis. Em primeiro lugar, é essencial definir normas comuns para a recolha, estruturação e atualização dos
dados. A informação sobre composição do produto, origem das matérias-primas, processos produtivos, pegada ambiental, presença de substâncias perigosas, possibilidades de reparação, reutilização e reciclagem deve seguir critérios harmonizados. Sem esta harmonização, cada empresa poderá medir e comunicar de forma diferente, dificultando a comparação entre produtos.
Em segundo lugar, será fundamental assegurar mecanismos de verificação independente. Isto pode incluir auditorias, certificações, validação por entidades externas e integração com bases de dados reconhecidas. A rastreabilidade não pode depender apenas da autodeclaração das empresas/marcas, porque isso aumentaria o risco de greenwashing digital.
Em terceiro lugar, a tecnologia pode ajudar, mas não substitui a governança. Blockchain, inteligência artificial (IA), plataformas interoperáveis e identificadores digitais podem reforçar a integridade dos dados, mas a confiança depende também de responsabilidades claras: quem introduz os dados, quem os valida, quem os atualiza e quem responde por informação incorreta.
No artigo, uma das ideias centrais é precisamente que o DPP pode consolidar dados hoje dispersos num sistema mais unificado, permitindo maior transparência e tomada de decisão informada ao longo da cadeia de valor. Mas para isso será indispensável garantir qualidade, consistência e integridade da informação desde a origem do produto
Que oportunidades esta transição sustentável e transparente pode trazer para a indústria portuguesa?
Esta transição pode representar uma oportunidade muito relevante para a indústria portuguesa, sobretudo porque Portugal já tem uma tradição industrial forte no setor têxtil e de vestuário, uma cadeia de valor relativamente próxima e uma crescente aposta em inovação, sustentabilidade e digitalização.
O DPP pode permitir às empresas portuguesas diferenciar-se num mercado europeu cada vez mais exigente.
Esta transição pode também abrir espaço para novos modelos de negócio. A informação contida no DPP pode apoiar estratégias de reparação, reutilização, revenda, reciclagem, design para desmontagem e produção com menor impacto ambiental.
Portugal está numa posição favorável nesta matéria do DPP?
Ao longo dos últimos anos, o setor têxtil nacional tem vindo a investir significativamente em automação, rastreabilidade, sustentabilidade e transição digital, o que coloca Portugal numa posição mais preparada do que muitos mercados concorrentes.
Contudo, os desafios continuam a ser significativos, sobretudo para pequenas e médias empresas. Muitas PME possuem elevado know-how produtivo, mas nem sempre dispõem de maturidade digital, recursos financeiros ou equipas especializadas para implementar sistemas complexos de recolha, gestão e interoperabilidade de dados. E este será um dos pontos mais críticos do DPP: a capacidade de transformar dados dispersos ao longo da cadeia em informação estruturada, verificável e continuamente atualizada.
Outro desafio importante prende-se com a normalização dos dados e a interoperabilidade entre sistemas. A implementação do DPP exigirá uma linguagem digital comum entre diferentes empresas, plataformas e países, o que implica investimentos em infraestruturas digitais, formação técnica e alinhamento regulatório.
Ainda assim, considero que Portugal tem uma oportunidade estratégica muito relevante.
Que desafios são mais significativos? Poderão vir a surgir outros? Se sim, quais?
Os desafios mais significativos são tecnológicos, económicos, organizacionais e regulatórios.
Algumas empresas poderão recear partilhar informação sensível sobre fornecedores, formulações, processos produtivos ou estruturas de custo. Será necessário encontrar um equilíbrio entre transparência e proteção do conhecimento industrial.
Também antecipo desafios ligados à cibersegurança, à soberania dos dados e à atualização contínua da informação.
Como é que a IA e a tecnologia Blockchain podem acelerar esta transformação?
A inteligência artificial e o blockchain podem acelerar a implementação do DPP, mas em funções diferentes e complementares.
A inteligência artificial pode ser particularmente relevante na análise e interpretação de grandes volumes de dados. A IA pode ajudar a transformar estes dados em conhecimento útil: prever impactos ambientais, identificar ineficiências na cadeia, apoiar decisões de ecodesign, otimizar processos de reciclagem e até recomendar estratégias para prolongar a vida útil dos produtos.
No setor têxtil, a IA pode também apoiar o controlo de qualidade, a identificação de defeitos, a separação automática de materiais para reciclagem e a previsão da durabilidade dos produtos. Isto é muito relevante porque a circularidade depende não apenas da recolha de resíduos, mas da capacidade de saber exatamente que materiais existem, em que condições estão e que destino podem ter.
O blockchain pode contribuir para a integridade e rastreabilidade dos dados. Ao permitir registos descentralizados e difíceis de alterar, pode reforçar a confiança na informação partilhada entre diferentes atores da cadeia. Isto é especialmente importante em cadeias globais, onde a informação passa por muitos intermediários e pode perder-se ou ser alterada.
A tecnologia só será eficaz se houver dados de qualidade, normas comuns, governação clara e vontade de colaboração entre empresas.
A harmonização entre países e cadeias globais foi mencionada pela EURATEX e por várias empresas como fundamental. Qual é o seu comentário neste ponto?
A harmonização é absolutamente fundamental. Sem harmonização, corremos o risco de criar um sistema fragmentado, burocrático e difícil de aplicar. A harmonização deve acontecer em vários níveis: nos dados obrigatórios, nas metodologias de cálculo ambiental, nos identificadores digitais, nos requisitos de acesso à informação, na proteção de dados e nos critérios de verificação. É necessário evitar que o DPP se transforme num peso administrativo excessivo.
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