17 janeiro 24
Feiras

Jorge Fiel

2024? Vai ser um ano difícil, prognósticos só no final do jogo

Primeira grande feira do ano, a Heimtextil costumava ser um espécie de sismógrafo que refletia e revelava o estado da nação têxtil (em particular no segmento lar), a confiança e humores de compradores e fabricantes. Com a volatilidade que anda no ar ninguém arrisca fazer previsões. O máximo que os expositores e visitantes arriscam é que 2024 vai ser “um ano difícil”.  Prognósticos só no final do jogo.

Os números finais da Heimtextil 2024 até são animadores e permitem aos otimistas olhar o ano que aí vem aí alguma esperança: 46 mil visitantes, de 130 países, 2.838 expositores, de 60 países, um crescimento importante de 25% face à edição de janeiro de 2023.

Isto apesar de a Alemanha estar cada vez mais parecida com a França e a feira ter sido afetada por um greve nos comboios dos trabalhadores da Deutsche Bahn (que afetou a circulação do S-Bahn) e de agricultores furiosos andarem a cortar estradas com os seus tratores.

Mas os mais pessimistas preferiram chamar a atenção para o facto de terem a impressão que havia muito menos gente do que era costume nos corredores –  e partem daí para concluirem que a Heimtextil já não é o que era.

António Leite, 53 anos de vida e 35 de Heimtextil, ainda se lembra, como se fosse hoje, de como era a feira nos primeiros anos em que começou a vir a Frankfurt em janeiro, acompanhando o pai, José Leite, que trabalhava na Têxtil S. José.

“Partilhávamos o stand do ICEP e ainda havia o escudo. Mas ganhava-se muito dinheiro. Saíamos daqui com encomendas para meio ano. Agora o que levamos são pedidos de amostras”, comenta António Leite, que em 1998 fundou a Lumatex.

Mas as experiências variam muito, de empresa para empresa. No stand da Emme, Belinda Ferreira e o seu sócio (e marido) Pedro andaram sempre num roda vida, com a mesa ocupada por clientes, que faziam fila, e sempre a puxar do livro das encomendas. “Da primeira vez que aqui viemos, em 2015, toda a gente nos avisou para não desanimarmos, que teríamos de ser persistentes, que até ganharmos o primeiro cliente o mais provável é termos de voltar mais duas ou três vezes a Frankfurt. Ora a primeira pessoa que se sentou no nosso stand fez logo uma encomenda”, recorda Belinda.

Maria Alberta Canizes, secretária geral da Home from Portugal e uma veterana com muitos anos de ICEP, também desfia recordações: “A primeira vez que aqui viemos foi em 1978, ocupávamos 28 m2. Agora, em 2024, os stands portugueses ocupam 4 700 m2”.

Os tempos gloriosos da feira já acabaram. “The times they are a changing”, como cantava o jovem Bob Dylan. A Heimtextil já não é a Meca onde é pecado não ir em peregrinação, para se tornar um hábito, é como quem vai passar as férias de verão ao Algarve.

Nos anos 20 do século XXI, a feira já não é só (será até cada vez menos) um local de compra e venda – mas também (e essencialmente) um sítio onde os expositores espiolham o que os colegas andam a fazer, encontram os seus clientes, falam com eles olhos nos olhos, sem a mediação de um ecrã de computador, e mostram-lhes, ao vivo e a cores, as novidades, que eles podem tocar.

As feiras servem também para acertar o relógio pelas novas megatendências – Afinal o que é mesmo sustentabilidade? Como podemos tirar partido da Inteligência Artificial sem queimar os dedos? – e se por acaso caírem encomendas, ou levaram daqui novos contactos bastante promissores, isso já será ouro sobre azul.

“Os negócios correram bem”, resume Cristina Terra da Motta, a representante em Portugal da Messe Frankfurt, que por dever do ofício trocou impressões, ao longo dos quatro dias que durou a feira, com os 65 expositores portugueses presentes na Heimtextil.

Cristina chama ainda a atenção da importância e impacto que terá na presença portuguesa na Heimtextil 2025 a parceria estabelecida com a Studio Urquiola para redesenhar o layout da feira.

A representante da Messe Frankfurt em Portugal acredita que a nova distribuição de espaços saída da cabeça da arquiteta e designer espanhola Patricia Urquiola vai calar as queixas de expositores portugueses saudosistas dos tempos em que estavam no Pavilhão 11, com a crème de la crème dos têxteis-lar, o lugar a que têm direito, e não como agora, em que no novo pavilhão 12 podem ter indianos ou turcos como vizinhos.

As feiras mudaram muito desde a Idade Média até agora – e estão a mudar cada vez mais depressa. É preciso compreender a profundidade do Eclesiastes 3:1 – “Tudo tem a sua a ocasião própria e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”.  Mas quando, em Frankfurt, a jornalista do Expresso perguntou a Mário Jorge Machado (Adalberto) quais os seus desejos para 2024, a resposta foi lacónica: “Encomendas”.

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