António Freitas de Sousa
É saudável fazer parcerias com empresas de outros setores - afirma Francisco Xavier Leite, CEO da Têxteis Penedo
omo correu 2019?
Tivemos um ano relativamente agradável, com um crescimento nos dois dígitos. Contraria a tendência – de que temos conhecimento.
Que volume de negócios vão atingir?
Deverá estar perto dos 12 milhões de euros, um crescimento de dois dígitos.
Está otimista para 2020?
Esta tendência de crescimento não se vai repetir para o ano. O volume de negócios deste ano foi fruto do investimento em maquinaria que fizemos nos dois últimos anos. O mercado não é tão vasto que permita novamente esse crescimento. A nossa expectativas é, em 2020, crescer acima dos 5%.
Não é mau de todo…
Não estou de todo pessimista.
O grosso continua a ser a exportações…
São 100% da faturação.
Está à procura de novos mercados, ou os tradicionais sustentam o negócio?
Tentamos sempre novos mercados, tendo em conta os investimentos e a necessidade cada vez maior de conforto de vendas. Estamos a tentar os mercados da Europa de Leste – extremamente complicados, como se sabe – em África só a África do Sul tem dimensão.
Que mercados são interessantes na Europa de Leste?
A Rússia, a Polónia, a Roménia, as novas economias em crescimento.
E do outro lado do Atlântico?
Estados Unidos e Canadá são os nossos melhores mercados, para onde exportamos entre 55% a 60%.
E a América do Sul?
Exportamos pouco: a economia sul-americana está muito fraca.
A guerra comercial entre Estados Unidos e a China tem-vos afetado?
Tem havido algum receio, alguma incerteza e instabilidade, mas os clientes acabam por ter necessidade de comprar: as prateleiras não podem ficar vazias.
E a China?
Estamos lá indiretamente, através de Hong Kong…
Enquanto existir …
(Risos) A China está nas mãos de cinco famílias, elas é que ditam as regras e as leis, tudo é subjugado à sua vontade.
E Macau?
Já tivemos alguns contactos, algumas vendas esporádicas – não com a constância de Hong Kong – mas é uma geografia que será reativada.
Em Macau o ‘made in Portugal’ ainda é um trunfo?
Sim, é, ainda há muita gente que fala português. Comunicação e credibilidade são coisas importantes.
A hotelaria, um dos ‘cores’ da empresa, tem expandido em Portugal e nomeadamente no Porto. O mercado interno não lhe interessa?
Temos alguns negócios com grandes grupos hoteleiros, mas não têm ainda grande expressão. Estamos a fazer o nosso caminho para lá chegar.
Uma das formas de fazer crescer o negócio é acrescentando inovação, uma área onde a Penedo dá cartas.
É um ponto sensível. Acabámos de fazer uma uma nova empresa em associação com a Sedacor – a Cork-a-tex New Generations Yarns – que vai produzir fios de cortiça. É um produto superpremiado, a última vez em Frankfurt. A nossa perspetiva é que vai ser um produto bem recebido pelo consumidor em geral: para além de propriedades próprias da cortiça, incorpora outras essenciais para hospitais (anti-ácaros, anti-bactérias), que vai proporcionar mercados de outro nível. A cortiça é um anti-fogo natural, é um isolante, tem grande apetência para a decoração e portanto acho que vamos ter ali um produto super-interessante.
A empresa será detida a 50% por cada um dos sócios?
Exatamente.
Em ano-cruzeiro, quanto vão faturar?
No primeiro ano contamos faturar cerca de 700 mil euros, para, no segundo ano, ultrapassarmos os 1,5 milhões. Depois é uma questão de o mercado absorver o produto, temos essa expectativa. Para já, vai haver um critério muito restrito de colocação do produto: vamos tentar abordar as grandes marcas que demonstraram interesse e outros que nos foram abordando. Vamos procurar privilegiar os que demonstraram mais interesse, nomeadamente na feira de Frankfurt. O negócio vai desenvolver-se em pirâmide: vamos começar pelo topo, depois iremos descer, abrindo e alargando produções.
E no caso dos tecidos com incorporação de lâmpadas led?
O target em termos de pirâmide é o mesmo, mas a fase de produção massiva está mais demorada, porque temos tido dificuldade na industrialização. Estamos a implementar as melhorias com os nossos parceiros, para vermos se conseguimos ultrapassar o problema. Mas posso dizer que temos mercado de alto nível à espera do produto, já há uns anos.
O racional de negócio é também avançar para uma empresa subsidiária, como no caso do fio de cortiça?
Não, passará apenas pelo nosso controlo, porque aqui está em causa uma tecnologia da Penedo, que já temos, mas que ainda não consegue responder às quantidades que o mercado pretende.
A parceria com a Sedacor é a primeira experiência de autonomização de uma subsidiária?
Sim.
Parece-lhe um bom caminho? Está aberto a outras experiências do género?
Tudo tem de ser estudado caso a caso. No caso da cork-a-tex foi um conhecimento de longos anos – o tempo que demorou a apurar o fio de cortiça foi o tempo em que nos fomos conhecendo e adaptando; foram sete, oito anos em que fomos aproximando formas de pensar, de agir e de apostar numa parceria.
Estas parcerias no setor têxtil são raras. Porquê?
É uma pergunta complexa. Dentro do mesmo ramo, da mesma área de atuação, entendo que essas parcerias são difíceis.
São empresas demasiado concorrentes…
Há interesses, há desníveis de produto, de qualidade, que impõem dificuldades às parcerias, que se tornam difíceis de acontecer. Acho perfeitamente possível uma empresa têxtil fazer uma parceria com outra empresa de outro setor e inclusivamente saudável.
Mesmo assim, o ganho de dimensão para apostar em mercados internacionais pode introduzir racionalidade nas parcerias. Concorda?
Concordo. Os norte-americanos têm o hábito de perguntarem se não seriam boas essas parcerias quando se verifica que não temos dimensão e capacidade de resposta para aceder a alguns negócios – certamente que com a China seria ainda pior. Mas a dimensão não é tudo. É mais fácil ir a nichos de negócio em que as quantidades são reduzidas, que estar a tentar entrar pelo volume.
Que outras inovações estão na calha para alimentar esses nichos?
Temos um gabinete de I&D sediado no CITEVE em que diariamente há esse contacto entre a Penedo e os centros tecnológicos num constante desenvolvimento de novas ideias e novos conceitos. E em termos de empresa estamos constantemente a avaliar evoluções: temos reuniões mensais em que vamos discutindo ideias que são ou não consideradas. Se virmos que são boas ideias, tentamos dar-lhes seguimento – nem sempre se consegue.
Que é feito da marca Isadora Paris?
Está prestes a ser relançada, de forma mais lenta do que o que eu queria. Esperamos que o site oficial de vendas online saia ainda este ano. Temos já vários distribuidores acertados – inclusivamente nos Estados Unidos. Já estamos a exportar a marca para o Brasil, alguns países da Europa. Vende produtos de topo da Penedo, e alguns acessórios.
Os têxteis entendidos como um todo estão bem espaldados em termos de associativismo e da sua ligação ao Estado? Falta alguma coisa?
Falta uma postura mais agressiva por parte do Estado – no que tem a ver com a AICEP. Se analisarmos a agressividade do Estado espanhol e do correspondente espanhol à AICEP, do italiano, vemos que o nosso está atrás. Eles são mais agressivos, são mais presentes.
E em termos das associações?
Acho que estamos relativamente bem representados. Têm feito algum esforço de estar presente e acompanhar as empresas quer coletiva quer individualmente nas feiras em que Portugal está como montra – nomeadamente em Frankfurt, que é o expoente máximo. São cerca de 70 a 80 empresas, talvez mais, que ali estão sempre representadas, e há sempre um acompanhamento eficaz.
Pode ser a altura certa para essa reivindicação: o quadro do Portugal 2030. Acha importante o reenquadramento da AICEP?
Acho que sim. Há muitas coisas que se podem fazer ao nível da promoção de Portugal, alguma já aconteciam há muitos anos: feiras, missões coordenadas pelo antigo ICEP, que hoje estão delegadas em associações cujo foco não é o mesmo. Uma coisa é termos uma associação empresarial, outra coisa é o peso e o estatuto do Estado a fazer as coisas.
Que alterações proporia do Portugal 2020 para o Portugal 2030? Está na altura de se mudar a dimensão das empresas elegíveis?
Acho que é uma área que merece estudo. As consideradas grandes empresas deveriam ser comparticipadas. À sua dimensão, cada empresa tem os seus próprios problemas. Entendo que deveria haver apoio, não certamente na mesma proporcionalidade de uma PME. Todas as empresas merecem proteção para darem continuidade ao negócio – que trás valor acrescentado para o país. As pequenas empresas precisam de grandes empresas para trazerem massa crítica para o país.
Já teve propostas de compra para a Penedo. Está interessado em vender?
Não. O futuro da empresa é familiar – é essa a minha perspetiva e o meu desejo. Já surgiram algumas propostas de compra, nomeadamente de fundos de investimento.
Eram interessantes?
Se fossemos olhar desapaixonadamente para o aspeto monetário, eram boas propostas. Tenho alguns amigos que não resistiram. Pensando no aspeto familiar e na continuação do negócio, a questão não se põe. Tenho uma ideia muito clara da continuidade – as empresas são um sítio sagrado, não uma casa de apoio para os familiares.
Não está vendedor. Está comprador?
Já se colocou essa hipótese…
Já analisou o dossiê de alguma empresa?
De vez em quando põem-me questões desse âmbito. Não recuso liminarmente olhar para eles.
Tem cinco filhas…
Irão estagiar sempre fora da empresa, como entendo que deve ser – para adquirirem competências e conhecimentos fora do chapéu da família. Quando se sentirem competentes, logicamente que terão a possibilidade de integrarem os quadros da Penedo.
Está confortável com o novo salário mínimo?
Não é um mal mas terá certamente efeito em muitas empresas. No caso da Penedo esperamos que tenha pouco impacto pois procuramos pagar sempre acima do salário mínimo, o que obrigará a um reajuste em alta, para que não haja ninguém que fique nesse limite. O aumento do salário era necessário, tendo em conta o desfasamento enorme entre o salário mínimo e o médio. Temos que admitir que, mesmo com duas pessoas a trabalhar em casa, o salário mínimo não é suficiente para as pessoas terem uma vida confortável.
Estava a trabalhar na Bordalima – depois de já ter passado pela Foncar – quando um cliente lhe fez saber que queria comprar colchas. Não percebia nada do assunto, mas perguntou, até ter chegado à Penedo e ter encontrado a recetividade para desenvolver o desenho pretendido, o qual teve muito sucesso e com grande volume de compras. Devido a esta parceria positiva, o dono da empresa propôs-lhe sociedade. “Nunca tinha visto um jacquard”, mas não havia de ser por isso que não se lançaria como empresário. Trinta anos depois, e já sozinho no negócio, depois de o sócio ter optado por uma empresa de import/export de fios em detrimento da indústria e de uma experiência que correu mal com um familiar que chegou a ter 40% da empresa, a Penedo atingiu uma dimensão que lhe permitiu atingir um volume de negócios de cerca de 12 milhões de euros e ter para oferecer ao mercado um dos fios mais inovadores que é possível encontrar no país. Se pensasse só no dinheiro, já teria vendido a empresa a um dos fundos que lhe vão rondando a porta, mas Xavier Leite quer a Penedo rigorosamente familiar e concentrada no crescimento. As suas cinco filhas, de dois casamentos, andam pelo mundo a criar as competências necessárias para lhe poderem suceder.
A Têxteis Penedo sempre teve uma política interna de modernizar e atualizar os seus equipamentos, tecnologia e softwares topo de gama. Porquê?
O princípio da Empresa é o de tentar estar sempre á frente no setor, criando novos produtos e conceitos, o que obriga a constantes investimentos em modernização, quer a nível produtivo, quer a nível das ferramentas complementares para esses desenvolvimentos.
Esta nova tendência da Indústria 4.0 apareceu da necessidade de modernização da indústria ou precisamente porque a indústria já estava a tentar fazer esta alteração?
Apesar de agora estar apelidada de indústria 4.0 a Têxteis Penedo já há muito tempo que aplicava estes conceitos sendo uma das KETs que sempre procuramos aplicar aproveitando os outputs industriais como motor da evolução e modernização, tendo sido um dos fatores de sucesso da nossa empresa. Penso que a indústria têxtil em Portugal já estava a fazer as alterações necessárias para os conceitos da indústria 4.0 pois terá percebido que seria vital para a sua sobrevivência.
Como avalia a relação a Penedo com as instituições do sistema científico e tecnológico
Temos uma relação de proximidade e cooperação estreita desde á longos anos com muitos projetos a decorrer e muitos outros em perspetiva.
Com a sustentabilidade na ordem do dia, que estratégia tem a Penedo para esta área e qual o papel do Cork-a-Tex neste campo?
A Penedo tem uma estratégia muito forte na área da sustentabilidade com o uso de materiais reciclados (GRS), algodão orgânico, linho orgânico entre outros, detendo as certificações GOTS, STeP como suporte desta orientação. Nesta estratégia, o Cork-a-Tex será um produto premium por incorporar sustentabilidade e economia circular e por ser único no mundo, com patente internacional.