João Costa
“Voltaremos a exportar 5 mil milhões antes de 2020”
T0 Agosto 2015

Jorge Fiel e Isabel Cristina Costa

João Costa, 61 anos, presidente da ATP, garante que o mau tempo já passou, mas adverte para alguns perigos, como a escassez de recursos humanos especializados: “Há dificuldade em contratar engenheiros têxteis, pois há mais procura e menos oferta"

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oão Costa é um homem prudente. Daquele tipo de pessoas que olha para os dois lados antes de atravessarem uma rua de sentido único. Mas não tem dúvidas. Não há que ter medo. O pior já passou. O futuro da nossa ITV é risonho. Vamos voltar a exportar cinco mil milhares de euros antes de 2020.

Após um período de grandes dificuldades, a ITV vive momentos mais positivos. A que é que isso se deve?

Com a entrada dos grandes países asiáticos na Organização Mundial de Comércio (OMC) fomos invadidos por produtos de baixo preço. E os compradores começaram a colocar as encomendas na China, na Índia, etc… A crise de 2008 agravou este estado de coisas e a questão do preço assumiu uma importância ainda maior. Em 2009, as nossas exportações atingiram o seu patamar mais baixo. Mas as empresas estiveram à altura da situação, modernizando-se, ajustando as suas estruturas, reduzindo pessoal, redirecionando o negócio, procurando novos mercados e novos clientes. Este esforço beneficiou da flexibilização da legislação laboral. E a própria crise levou os compradores a identificarem as vantagens da proximidade dos fornecedores. O crescimento substancial das exportações, que este ano vão andar na casa dos 4,8 mil milhões de euros, deve-se a esta formidável capacidade de adaptação e qualificação das empresas.

 

O setor tinha uma imagem muito negativa, de ser constituído por empresas de vão de escada, baseadas na exploração de mão-de-obra barata, e por industriais gananciosos que só pensavam em comprar Ferraris. Sente que, lentamente, essa imagem vai sendo apagada?

No início dos anos 80, a desvalorização do escudo tornou as exportações muito competitivas, em termos de preço e no imediato. Essa circunstância gerou um período de crescimento explosivo da têxtil. O setor inchou de forma desorganizada, com a chegada de muita gente que só pensava no lucro, não respeitava as regras, não pagava ao Fisco, à Segurança Social e aos fornecedores. Fazia lembrar a corrida ao volfrâmio, em que os novos-ricos acompanhavam as refeições com pão-de-ló e champanhe francês. Para ganhar dinheiro bastava montar uma confeção. Esse mundo acabou, desapareceu. Hoje, só sobrevive e prospera quem aposta na qualidade, na criatividade, na inovação e na certificação do produto, na flexibilidade, e é capaz de dar uma resposta rápida e cumprir os prazos a que se compromete com os clientes. A ITV é um setor muito exigente e um dos mais competitivos do país, mas acredito que a má imagem dos anos 80 ainda não esteja completamente limpa.

 

João Costa
"Não temos futuro sem uma base industrial forte"

Nos anos da troika, as exportações da ITV subiram de 65% para 79% da sua produção. É a prova de que os programas de apoio à internacionalização, que a ATP desenvolve, através da Selectiva Moda, atingiram já o nível de sustentatibilidade e coerência desejados?

Estão a um bom nível, mas não podemos parar. Têm de ser permanentemente intensificados e refinados. Essa é a nossa grande batalha. Num setor desta dimensão só se pode viver no mercado internacional. Crescemos a exportar e só podemos continuar crescer nas exportações, que acredito estejam em 90% do total da produção, pois uma boa parte do fio e tecidos que são vendidos no mercado interno, e contabilizados como tal, acabam por ser exportados.

 

As exportações estão muito expostas ao risco Europa? Parece-lhe que é de apostar nos novos mercados emergentes?

A Europa será sempre o nosso primeiro mercado. Apesar da crise, as vendas para Espanha não pararam de crescer e este ano podem chegar aos mil milhões de euros. A aposta na Europa não é uma opção. É o mercado mais exigente do mundo e onde somos mais competitivos. Nos Estados Unidos, apesar do preço ser um fator mais determinante, estamos a alargar a nossa base. O ano passado crescemos 30% e este ano mantemos esse ritmo. Se o acordo EUA/UE for assinado e acabarem as barreiras aduaneiras, chegaremos rapidamente aos mil milhões. Mas temos também de olhar para outras geografias muito interessantes, como a América Latina, o Médio Oriente e até a China, onde se sente uma apetência crescente por produtos europeus.

 

“O crescimento baseia-se em três caminhos: têxteis técnicos, marca própria e private label”

A cotação atual do euro face ao dólar já é suficiente para aumentar a competitividade das nossas exportações?

Sim. Nem estávamos à espera de tanto, a relação 1,20/1,25 já nos deixava satisfeitos. Mas, do ponto de vista cambial, a competitividade das exportações depende de outras moedas, como o yuan, que valorizou 35% face ao euro. Há dez anos, um euro valia dez yuans, hoje vale sete. O ambiente cambial está-nos mais favorável.

 

O custo do dinheiro em Portugal já deixou de ser um fator crítico para as empresas ou sente que a liquidez com juros mais baixos vai sempre para os mesmos?

Para as empresas bem geridas com níveis de capitalização adequados, o custo do dinheiro já não é um fator crítico. Conseguem financiamentos a níveis bastante baixos, pouco acima dos praticados na Alemanha. O problema para as outras empresas é que a banca está mais escrutinada e sensível ao risco, o que faz com que a matriz de avaliação seja mais exigente, dificultando-lhes o acesso ao dinheiro e os custos de financiamento.

 

A generalidade das empresas do setor ainda sofre de uma capitalização débil. Como se resolve esse problema? 

Não será fácil, até porque era muito importante conseguir, num período curto, níveis de capitalização adequados, até para se poder aceder aos fundos do Portugal 2020. Com a crise, as empresas tiveram de se ajustar e pagar indemnizações, com custos de financiamento muito elevados. Compete ao Estado assegurar instrumentos que reforcem a sua estrutura de capitais.

 

O Banco do Fomento não anda nem desanda. Ainda acredita que possa vir a ser um instrumento positivo para as empresas?

Tem de ser. Demorou demasiado tempo a ficar com o seu plano de construção resolvido. Mas agora, com a missão definida, tem de começar a apoiar as empresas rentáveis, com bom produto e futuro.

 

Os elevados custos de energia são o mais grave obstáculo à competitividade do setor?

Os custos de energia são um problema. Nas fiações, tecelagens, tinturarias e acabamentos, ou seja nas empresas de capital intensivo, chegam a superar os custos com o trabalho. A opção demasiado intensa nas renováveis tornou a energia excessivamente cara. O país precisa de criar um mix renováveis/tradicionais que impeça a energia de continuar a ser um fator de perda de competitividade.

 

Os espanhóis são bons nas redes de retalho. Nós apostamos mais no B2B. O caminho é manter este estado de coisas?

Temos de orientar o nosso crescimento por três caminhos: têxteis técnicos e funcionais, marca própria e private label. Como o nosso mercado interno é pequeno e a procura externa grande, os empresários não sentiram a necessidade de desenvolver redes de retalho. Devemos dinamizar a vertente do negócio com o consumidor final, mas não podemos ter a veleidade de vender tudo com marca e distribuição próprias. Os têxteis técnicos e funcionais estão a ter uma evolução muito interessante. Grandes marcas de automóveis como a BMW, a Mercedes e a Porsche compram cá os estofos e outros materiais. E é importante continuar a fornecer as grandes marcas internacionais. Ainda recentemente visitei no Fundão uma empresa que fornece a Louis Vuitton.

 

O plano estratégico aponta para que em 2020 a ITV volte a atingir os cinco mil milhões de euros, o valor recorde de 2001. É provável que esse valor seja atingido antes?

Somos muito cautelosos nas previsões. Mas apesar da situação na Grécia ter abrandado uma forte dinâmica de crescimento – em Maio foi notória a contenção dos compradores – é provável que essa meta seja antecipada e atingida já em 2018, e que a têxtil estabilize a valer 10% do total das exportações nacionais de mercadorias.

 

A nível associativo, o processo de concentração abrandou. Faz sentido continuar a consolidação até que toda a fileira tenha uma só organização e fale a uma só voz?

Na nossa opinião faz todo o sentido. Mas não é um processo fácil. Creio que para já vamos ter uma pausa, mas não vamos nunca desistir de trabalhar para a unificação da representação do setor.

 

O poder político já percebeu que Porter tinha razão quando recomendava o apoio aos setores tradicionais da nossa indústria?

A partir de 2005, em Portugal e na Europa, instalou-se no poder político a ideia errada de que os setores tradicionais tenderiam a desaparecer. Foi esbanjado muito dinheiro público na perseguição da quimera de uma Nokia portuguesa. Mas a realidade forçou a mudança de ideias. A têxtil, vestuário e o calçado foram os setores que mais cresceram durante a crise. E o poder político já se convenceu que os setores tradicionais podem ser competitivos, inovadores e ter futuro.

 

A reindustrialização é um discurso, um sonho ou uma realidade?

É as três coisas, mas tem de ser cada vez mais uma realidade. Foi um erro tremendo a Europa pensar que podia abdicar da indústria e ficar apenas com os serviços que lhe estão associados. Não há desenvolvimento sustentável sem indústria, a locomotiva que reboca a investigação, desenvolvimento e novas tecnologias. Se queremos ter emprego não podemos ser apenas um país de serviços. O turismo é importante, mas não temos futuro sem uma base industrial forte, consolidada, desenvolvida e inovadora.

Perfil

Presidente da ATP desde 2008 (sucedeu a Paulo Nunes de Almeida), João Costa, 61 anos, vive na Póvoa, mas nasceu em Famalicão, oitavo e último filho de um casal de agricultores. Perdeu a mãe cedo (tinha 11 anos) o que o obrigou a dar corda aos sapatos desde miúdo.

Em 1969, com apenas 15 anos, embarcou no Príncipe Perfeito para Luanda, onde se desenrascou sozinho até voltar em 1975, em fuga da guerra civil que no entretanto deflagrara na antiga colónia Durante os seis anos do seu período angolano, foi aprendiz de torneiro, empregado de mesa num hotel de 5 estrelas, dono de um café/restaurante, empregado de balcão numa loja que vendia vestidos de noivas, fez a tropa e trabalhou nos seguros.

Retornado a Portugal, viveu em Lisboa e Guimarães antes de se fixar no Porto, onde fez o curso de Economia na FEP (onde teve como professores Miguel Cadilhe, Teixeira dos Santos, Daniel Bessa e Carlos Tavares, entre outros, e foi colega de Rui Rio e Jorge Seabra) enquanto trabalhava na Bonança e desenvolvia a atividade de solicitador. Ainda foi, durante um ano, diretor dos serviços municipalizados da Póvoa, antes de, em 1986, se tornar industrial têxtil com o projeto Romatex.

As perguntas de
Mário Jorge Machado
CEO da Estamparia Adalberto

Qual a visão que tem para o setor têxtil europeu e o papel que Portugal pode desempenhar?

Encaro o futuro com muito otimismo. Vejo a nossa ITV a continuar a trajetória de modernização, a ser umas das mais inovadoras e qualificadas do mundo, inserida num setor orientado para a moda e marcado pela inovação e criatividade. Vejo Portugal como um país com emprego mais qualificado, com mais rendimento e um mercado interno mais desenvolvido, a produzir bens com mais refinamento e valor acrescentado e servido por um Estado mais ágil, eficiente e descentralizado, com maior justiça na distribuição de recursos pelas suas regiões.

 

Quais as três principais medidas que devem ser tomadas para impulsionar o investimento no setor?

Um programa consistente de apoio à capitalização das empresas, com recurso ao Banco do Fomento, que já deveria estar operacional. Um crédito fiscal ao investimento mais claro, simples e vantajoso que o existente, com isenção de IRC para as start ups.  Concretizar a reindustrialização, intervindo na redução real dos custos produtivos, de modo a atrair investimento.

Paulo Nunes de Almeida
Presidente da AEP

Identifique uma medida concreta que gostaria o Governo concretizasse para bem do setor que a ATP representa…

A redução da TSU para as exportadoras de produtos de mão-de-obra intensiva que concorrem à escala mundial com países em que os custos de trabalho  – e os custos sociais a ela associados – são substancialmente mais baixos. Seria um incentivo ao aumento das exportações, que deveriam valer 70 a 80% do PIB.

 

Nos últimos quatro anos, enquanto o PIB caía, a têxtil crescia. Como explica esse comportamento? É uma resposta afirmativa da têxtil à globalização?

Sem dúvida. Foi uma resposta afirmativa que demonstra uma grande capacidade de resiliência e adaptação à nova realidade que se lhe impôs com a crise. As empresas deram provas de estar à altura dos desafios.

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