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A Carmafil é o exemplo – um entre muitos, com certeza – de uma empresa que decidiu não ficar parada no tempo e apostar no crescimento da sua dimensão para poder responder às demandas cada vez mais exigentes dos clientes. O novo contexto em que o sector europeu se desenvolve é muito diverso do que sucedia há apenas poucos anos e a resposta à mudança não pode ser feita sem ser antecipadamente pensada.
oincidindo com a pandemia – mas com a Covid-19 sem força suficiente para estancar o projeto – a Carmafil apostou em deixar de ser um prestador de serviços para passar a ser um parceiro dos seus clientes. É isso que vai levar a Paris, à Première Vision: um ‘vision’ do que é uma empresa preparada para responder a todas as exigências – mesmo aquelas que resultam de pormenores a que só as certificações dão um cunho de certeza.
Como carateriza a Carmafil?
Somos uma empresa com 30 anos, que ao longo dos tempos já passou por várias modificações. Não somos os fundadores. Entrei na empresa como fornecedor e passei a ter uma participação na empresa no ano 2000, como aconteceu com o João, que era funcionário. Trabalhámos durante quatro anos cinco sócios. Em 2004, os dois comprámos as quotas dos outros três – ficámos os dois com posições paritárias. Trabalhávamos essencialmente o mercado nacional – na confeção, especialmente artigos de senhora. Nos anos 2005 e seguinte, o mercado nacional começou a fraquejar. Numa perspetiva de crescimento – comprámos as atuais instalações e remodelámo-las – sentimos necessidade de nos virarmos para as exportações. Não tínhamos experiência, mas como consequência da vontade de crescer e da própria globalização arriscamos. A partir de 2007 passámos a ter uma estrutura mais digna para receber clientes estrangeiros – e assim foi até 2019.
Que mercados escolheram?
Principalmente o francês e o espanhol, e mais tarde o italiano. Sentimos novamente necessidade de crescer, e por isso tivemos de fazer algumas alterações estruturais na empresa. Entretanto, triplicámos a estrutura, a dimensão da empresa. Começámos a trabalhar o mercado alemão e intensificamos a presença no mercado italiano.
Que investimento tiveram de fazer para atingir essa nova dimensão?
Investimentos dois milhões em 2020, 2021.
Em plena pandemia. Um risco.
O projeto já existia, houve que o levar para a frente. Ainda não está finalizado, mas a parte produtiva já está pronta. Tudo o resto estará pronto este ano.
Terão contratado mais trabalhadores.
Sim. Passámos de menos de 50 pessoas para perto de 100. Ainda sei o nome de todos os funcionários, mas começa a ser complicado.
Qual é o peso dos mercados interno e externo?
O mercado nacional vale cerca de 28% a 30%. Para um volume de negócios próximo dos 7,5 milhões de euros em 2022.
A pandemia colocou problemas aos planos?
Tínhamos um projeto em mãos, tudo contratado, as máquinas compradas. É certo que aproveitámos todos os apoios que apareceram. Nunca fechámos – nunca recorremos ao lay-off – conseguimos trabalhar sempre acima dos 60%, 70%. Não tivemos grande quebra de produção nem de encomendas, tanto internas como externas: os clientes não cancelaram encomendas, simplesmente suspenderam. Tanto assim, que em 2021 chegámos a uma faturação de 9,5 milhões. Portanto, houve uma pequena descida em 2022.
O que explica essa descida?
A quebra do mercado terá a ver com a invasão da Ucrânia e com a inflação. E continua a cair. A faturação estará um pouco empolada pelos preços, que também dispararam – mais uma vez a inflação a condicionar o mercado. Para o ritmo que vinha de trás, de 2021, este ano isto está um bocado ‘calmo’. Há encomendas, mas a ideia seria, a partir dos 9,5 milhões, continuar a crescer.
Como vão fechar o balanço deste ano?
Vamos tentar fechar ao mesmo nível do ano passado – vamos ver se será possível.
Quais são as perspetivas do projeto de crescimento que está em execução – nomeadamente em termos dos mercados que querem atingir?
A nossa estrutura está montada para atingirmos um volume de negócios entre os 10 a 12 milhões de euros. É esse o nosso objetivo. Estamos evidentemente a procurar novos mercados. Um dos nossos focos é o mercado da América do Norte – Estados Unidos e Canadá. Estamos a preparar-nos para trabalhar esse mercado – que não é fácil. Não podemos vacilar: se entrarmos, é mesmo para avançar.
Como é que uma empresa portuguesa se aproxima do mercado norte-americano?
Já temos pessoas a fazer prospeção de mercado. Vamos também expor na Première Vision de Paris, por onde passam muito compradores da América do Norte. Essa será a nossa rampa de lançamento.
Que exposição querem ter a esses mercados quando o projeto estiver em execução?
Entre os 20% a 30%. Não muito mais, para não concentrar em demasiado o negócio.
Sentem que o mercado português já é considerado como de proximidade pelos americanos?
(Filipe Maciel, diretor comercial): Sim, é essa a experiência de várias empresas têxteis, nomeadamente daqui de Barcelos. Acho que Portugal, a médio prazo, será um dos principais fornecedores têxteis dos Estados Unidos, costumo até dizer que Portugal será a fábrica dos americanos. A proximidade do mercado, apesar de termos um oceano de distância, é importante. Acredito que os Estados Unidos vão priorizar Portugal em relação aos mercados asiáticos. Acredito por outro lado que o mercado europeu vai priorizar a longo prazo mercados como a Turquia. Por isso, é prioritário as empresas têxteis prepararem-se para o mercado dos Estados Unidos – até porque é um mercado tão grande que é aconselhável que todas as empresas comecem a caminhar nessa preparação. Se todas as empresas estiverem preparadas para trabalharem o mercado dos Estados Unidos, acredito que consegue abranger todas as empresas. Devia haver mais cooperação entre as empresas.
Como é que, do seu ponto de vista, essa cooperação poderia estabelecer-se?
Por exemplo, indo em grupo às feiras – para reduzir custos – seria um bom princípio. Acredito que, se as empresas, em vez de terem uma postura de competição, cooperarem, chegam mais longe. A Carmafil tem uma política de transparência – e isso é comunicado dentro e fora de portas aos nossos clientes e aos nossos fornecedores. Mas sabemos que nem todas as empresas se regem pelo mesmo princípio. Se houvesse uma cooperação entre todas as empresas ou entre um grupo de empresas, de transparência – sem que haja esmagamento de preços, sem entrar nesses caminhos – conseguiríamos um grupo forte de entrada naquele mercado.
Já estamos nesse patamar?
Não. A Carmafil está preparada para se desenvencilhar sozinha. Temos a capacidade produtiva, temos a força de trabalho.
Qual é a proposta de valor que vão apresentar a uma empresa americana?
A empresa trabalhou durante alguns anos para servir um certo número de clientes e não procurou novos mercados, porque não tinha a capacidade produtiva para o fazer. Neste momento temos essa capacidade – e o plano de aproximação ao novo mercado foi sendo preparado nos últimos três anos. É algo que foi trabalhado intensamente no mercado europeu e agora estamos preparados para o mercado americano. Tivemos clientes que começaram a exigir determinado tipo de certificações – o que nos fez responder nesse sentido. Ao contrário do que é normal, usar as certificações para benefício de alguns clientes, percebemos que, se as usarmos para benefício próprio, teremos muito mais a ganhar. Temos colaboradores a trabalhar nessa área a tempo inteiro e percebemos que desse modo ‘usando e abusando’ das certificações, melhoramos não só ao nível da ambiental e social como também na gestão das operações – o bem-estar dos trabalhadores, as condições de trabalho e a capacidade é algo que os norte-americanos exigem – e que a experiência nos mercados europeus nos permitiu compreender, dado que absorve muito este tipo de informação. Foi uma consequência muito positiva.
Há muitos europeus ainda virados para a Turquia?
Há sempre a comparação entre Portugal e a Turquia a nível do preço. Acredito que, no segmento em que a Carmafil trabalha, isso já não importa muito. Não somos de todo uma empresa que trabalha para o fast fashion – o nosso segmento é o médio-alto e luxo – e essa comparação acaba por não nos preocupar muito. Mas inevitavelmente temos marcas europeias de luxo que continuam a fazer esse tipo de comparação. Nos Estados Unidos, a médio-longo prazo, isso vai haver uma tendência em sentido contrário.
Na prática, como vão fazer a aproximação ao mercado norte-americano a partir de Paris?
Para além de uma equipa comercial muito forte, temos também trabalho de design e criação – o que nos permite fazer uma junção espetacular. A nossa apresentação na Première Vision vai contemplar uma coleção própria, feita pela Carmafil – que mostrará que somos capazes não só de sermos o habitual produtor ‘on demand’, como somos também capazes de ajudar em todos os segmentos que os clientes precisam. Temos muitos clientes que, quando enviam as fichas técnicas, pedem sugestões, inspirações, tendências. Acabamos por desenvolver todo o produto com os nossos clientes.
Têm tudo para ter uma marca. Querem um dia vir a ter uma?
Associada à Carmafil, não. Mas quem sabe? Que teríamos capacidade para tal, não tenho qualquer dúvida. Mas, para além daquilo que se produz, uma marca é também capacidade de venda – e essa não é a nossa área. Certo é que a Carmafil está preparada para trabalhar com qualquer mercado do segmento médio-alto e de luxo, não há dúvida. Daí estar neste momento em condições de nos mostrarmos agora a mercado – passado este período de trabalho no plano de desenvolvimento. Havia momentos em que não podíamos aceitar novos clientes simplesmente porque não tínhamos capacidade instalada para isso. Agora que temos essa capacidade, faz parte da estratégia da Carmafil mostrar e apresentar aquilo que é capaz de fazer. Nesse contexto, a imagem da Carmafil vai também ser reestruturada – a nova imagem vai ser apresentada na Première Vision.
O ‘made in Portugal’ já é uma marca que vale a pena?
Sim, acho que sim. De há muito, e está cada vez mais implementada, o que é muito bom. É pena não haver mais apoio nesse sentido. É um massacre!
Quando diz ‘massacre’ está a falar de quê?
Da fiscalidade, das obrigações da segurança social – há uma enorme carga de impostos.
Na pandemia, por exemplo, os apoios não foram suficientes?
Nessa altura sim, só faltou alguma fiscalização para evitar os abusos.
A empresa parece estar confortável com a nova geração: o diretor comercial é filho de um dos sócios e a gestora de Planeamento é filha do outro. Como vão gerir o futuro da Carmafil?
Os sócios, não nos sentimos cansados, mas vemos aqui potencial. É um orgulho. Ambos abraçaram a Carmafil de tal forma que nos dá um certo conforto. Queremos que continuem com a mesma garra.
Aos 54 anos (a idade de ambos) os dois sócios paritários da Carmafil estão em pleno processo de crescimento e de redimensionamento da empresa – que já leva três décadas de existência. O futuro passa por apresentar aos clientes uma proposta de valor muito acima do mero ‘on demand’. O futuro passa também pela nova geração, Catarina Cardoso e Filipe Maciel.
Emílio Cardoso e João Maciel, únicos administradores da empresa desde 2019, quiseram apostar no redimensionamento da Carmafil e de a preparar para novos desafios. Para trás ficou a dimensão que lhes impedia de aceitar novos clientes e de implicar a produção em mercados mais exigentes. Tudo isso é passado. O futuro, que há muito não se confina a Portugal, já nem sequer se confina à Europa.
Quais os principais desafios que as futuras gerações vão encontrar na indústria têxtil portuguesa?
O grande desafio é focarmo-nos na qualidade da produção e procurar novos mercados. O sector têxtil português terá de passar pela produção de alta qualidade, mais ainda do que aquilo que já consegue, e o desafio é conseguir responder a essa procura.
Como é que esses desafios podem ser superados ou contornados?
Será um sector de pequenos nichos – e é isso que nós, na Carmafil, temos de explorar.
Que impacto tem na têxtil a situação económica do mundo em geral?
É um forte impacto, que espero que seja passageiro. A guerra, a inflação – talvez a segunda acabe antes da primeira. Nós na Carmafil estamos a sentir esse impacto, e a indústria em geral sente o mesmo. Frequento muitas empresas prestadoras de serviços, tinturarias, tecelagens, e estão a sentir bastante esses impactos.
Quais as perspetivas de futuro para a Carmafil?
Acredito no potencial da empresa para crescer, contando com a ajuda de todos – nomeadamente dos mais novos. Nunca fui de baixar os braços: sempre houveram dificuldades na têxtil, sempre houve crises e elas foram ultrapassadas. Temos de estar atentos, de estarmos focados no nosso trabalho, de tentar sempre coisas novas.