RedHouse
“É mais fácil vender umas calças a 300 e tal do que a 80 euros”
T76 - Outubro 22

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O objectivo de Miguel Silva não é vender e fazer mais, é afirmar a RedHouse como conceito de luxo para poder depois fazer aquilo que lhe apetecer a nível criativo

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omo explica o sucesso e a rápida notoriedade internacional da RedHouse num mercado tão específico e de alto valor acrescentado?  

Foi sempre um bocado degrau a degrau, começamos por fazer um produto não normal, que na altura não existia. O nosso principal produto, que são as calças de ganga, comecei por criar apenas para mim. Como não encontrava calças de que gostasse, comecei a criá-las e à medida que as usava as pessoas vinham perguntar onde podiam comprar. Foi um pouco viral. Do mesmo modo com a exportação, foi um bocado andar atrás. Recebemos primeiro um contacto de uma cadeia de lojas da Suíça, metemo-nos no avião e fomos lá falar com eles. Não tivemos quaisquer apoios ou incentivos. 

 

E como surgiu esse contacto da Suíça? 

Foi alguém que terá ido a uma das lojas perguntar pela nossa marca, nessa altura já tínhamos alguma notoriedade em Portugal. Foi o nosso início de exportação e com isso começamos a ter algum fluxo de caixa e a procurar distribuidores em todo o lado. 

 

Mas a marca ganhou rapidamente notoriedade em Portugal, como é que isso aconteceu? 

Se eu agora pensar… é estranho, normalmente não penso nisso, mas… foi um conjunto de coisas, essencialmente a explosão do Facebook na altura. Ou seja, se tivesse iniciado o negócio três ou quatro anos antes, não tinha resultado. Foi naquela altura em que explodiu o Facebook, ainda não havia Instagram. Foi uma mistura de sorte com trabalho, tínhamos uma boa ideia de fotografia e conteúdo e fazíamos uma coisa que ninguém fazia. Coincidiu com uma fase em que as pessoas começaram a sair mais à noite a expor-se no Facebook, a ter gosto na forma e no estilo com que se vestiam, o que até aí não acontecia, principalmente com os homens.

Marcas de luxo
“Quase todas as marcas de luxo fazem as coisas em Portugal”
 

 

O fluir de uma cultura alternativa… 

Não era cultura alternativa. Não havia antes a cultura de comprar roupa para postar nas redes sociais, isso não existia. Hoje em dia as pessoas gostam de quase todos os dias comprar roupa nova, postar nas redes sociais, e com isso a nossa marca começou a subir a qualidade, a subir os preços e o estatuto. Os jogadores [de futebol] a procurar-nos porque tínhamos uma roupa diferente, que não existia. 

 

O que é que procurou que desse essa diferença, eram os tecidos, o design, o que foi? 

Essencialmente a vestibilidade e o design, fundamentalmente era isso. 

 

E qual era o modelo que procurava e que não existia no mercado?  

Toda a gente vestia o mesmo, era tudo padronizado. Lembro-me que quando Cristiano Ronaldo foi para o Manchester fez uma campanha para a Pepe Jeans com umas calças rotas. Creio que foi a primeira marca a fazer calças rotas, e foi um sucesso mas na colecção seguinte deixou de se fazer. Foi um click para mim, gostei tanto daquilo que depois por mais que procurasse não encontrava em lado nenhum. Havia um ou outro pormenor, mas não aquela coisa de destruir tudo, de pintar a calças, meter picos… 

 

O pintar as calças foi uma inovação da RedHouse, ou já havia alguém a fazer isso?

Já devia ter havido algo do género, só que não da mesma maneira que nós fizemos as cores. 

 

Explique lá então essa diferença… 

Há calças que nós pintamos quase completamente, parecem daquelas de quem anda nas obras. É…, como hei-de dizer, um exagero de luxo.

“Procuramos um mercado que não existia, não podíamos concorrer com marcas consagradas”
Fazemos coisas exageradas mas queremos ter sempre a melhor qualidade possível, desde que começamos. E cada vez temos melhor qualidade, vamos aprendendo mais, estão sempre a aparecer coisas novas. Mas há coisas que não me lembro de ver noutras marcas, como calças cheias de tinta, com picos, com trabalhos de patch como nós fazemos. Tudo junto, não há. 

 

E como chega a essas soluções? 

Vou ser sincero, no início era aquilo que eu gostava de vestir. Hoje em dia é uma mistura de gosto pessoal e daquilo que as pessoas querem.

 

No fundo, o vosso é um mercado de luxo. Isso resulta do conceito ou da qualidade dos materiais?

É semi-luxo, luxo são as marcas grandes. A qualidade é fundamental e conseguimos ter preços de vendas que nos permite ir sempre ao melhor. Compramos as gangas no melhor sítio do mundo, numa empresa em Itália, onde nem as melhores marcas compram porque é muito caro. A gama premium dessa fábrica somos só nós e outra marca a comprar.  

 

É assim desde o início, ou foram percebendo que quanto mais qualificado era ao produto melhor vendia?

Quando começamos vendíamos as calças a 80 euros, e eu já achava caro, mas fomos percebendo que se fizermos um produto melhor, com mais qualidade e com mais coisas, há sempre cliente para ele. É mais fácil vender umas calças a 300 e tal euros do que a 80. A 80 há muita concorrência, e uma pessoa não olha para uma calça e 80 euros como olha para a de 300, não é a mesma coisa. Não pode ter a mesma qualidade, só o processo de lavagem nas nossas calças custa quase 50 euros. Temos uma área na lavandaria com pessoas a trabalhar à mão, a dar tinta a fazer bigodes, é tudo manual. 

 

E com as tintas é o mesmo processo?

É tudo à mão, tudo manual. É por isso que nenhuma calça é igual à outra, umas têm mais tinta, noutras está noutro sítio, cada peça é única. 

 

Muitos dos vossos clientes são figuras mundiais, desportistas de topo, pilotos de Fórmula 1, como chegaram a esse tipo de mercado? 

É um mercado que, na minha ótica, na altura não existia. Nós não pensamos a curto prazo, se o fizéssemos tínhamos outra mentalidade no segmento onde estamos inseridos. Desde o início que tentamos procurar um mercado que não existe, não podíamos concorrer com marcas consagradas como Pepe Jeans ou Kenzo Paris. Olhamos para um mercado entre os cento e tal, duzentos euros e as marcas que vendem a 800, quisemos entrar a meio do segmento. Porque eu olhava para tudo e não existia, não existia um segmento intermédio. 

 

E como alcançaram esses clientes, ou como é que eles chegaram à RedHouse? 

Normalmente olha-se para os futebolistas como uns deuses, mas eles também são miúdos, gente normal. Conheço e dou-me bem com muita gente, vão-se conhecendo pessoas, e eles também querem aparecer, participar nos grupos. Nos casos dos jogadores mais importantes, do Messi ou do Neymar, isso foi através de um parceiro de negócios que os conhecia. Levou os nossos produtos, eles adoraram, começaram a pedir mais. Mas os casos são muito diferentes, há os que vêm falar connosco, através do Instagram, ou os que simplesmente compram no site. Cada caso é diferente, depois há também aqueles que chegam ao balneário e os colegas vêm e perguntam onde comprou. Por exemplo, no Lille estava o Cheka, o Renato Sanches e o Rafael Leão, o Cheka foi o primeiro das depois já todos o balneário nos comprava. 

 

Mas entretanto já chegaram à Fórmula 1, o Lewis Hamilton usa as vossas calças… 

Há muita gente que se calhar usa e nós não conseguimos ver. No início andávamos sempre à procura disso, lembro-me das primeiras vezes que o Messi começou a usar, mas se a pessoa não postar nós não conseguimos saber. Há muitos jogadores do Porto que as pessoas me vêm dizer que usam, mas já não conseguimos saber. 

 

Falando agora do negócio, têm uma lógica de coleções, como aparecem os produtos no mercado? 

Há sempre uma lógica de fazer primavera/verão e outono/inverno, mas no nosso mercado já não há aquela coisa dos timings para isso acontecer. Fazemos calças, T-shirts, swets, mas também casacos, às vezes, calçado, chapéus, meias, cintos, fazemos já muita coisa. Temos agora também coisas de verão, toalhas, calções, mas a ideia daqui para a frente é mais ter um brand concept. Produtos para dar imagem à marca, mesmo que nem sequer se vendam.  

 

Como assim? 

Coisas que envolvam um conceito de luxo. Imagine-se um conjunto de loiça, um chapéu, a associação a uma marca de carros ou um Rolex com a marca RedHouse. Nem que se faça só um e nem se venda. O objectivo é encontrar parceiros para fazer isso, para que a marca seja cada vez mais visualizada em cada vez mais sectores e projectar uma imagem de luxo, porque é assim que cresce o luxo. O objectivo não é fazer mais produtos ou vendê-los, é afirmar a RedHouse como conceito de luxo, fazemos vestuário e nem queremos entrar por outro patamar, mas que tudo o que nós fizermos esteja rodeado de luxo.

 

Entre vendas diretas online e colocação em lojas, qual é a proporção nas vendas? 

Muito maior nas lojas. Também vendemos bem online e não vendemos mais porque muitas vezes as coisas esgotam. Mas antes de vendermos online as coisas estão já há algum tempo nos distribuidores, as lojas compram dois ou três meses antes. 

 

Em quantos mercados está hoje implantada a RedHouse? 

Não tenho ao certo, mas serão mais de 30 países um pouco por todo o mundo. 

 

Estiveram recentemente na Magic Las Vegas e foram logo premiados pelo conceito e marca inovadora, o que vos levou até aos EUA? 

Foi um desafio de pessoas amigas e fomos experimentar, até porque é um mercado onde ainda não estamos. Nunca andamos muito atrás de feiras e exposições, até porque nos ocupam muito tempo e não temos stock para entrar em novos mercados. É tudo um bocado passo a passo para não falharmos com ninguém. 

 

O facto de ser feito em Portugal tem sido importante para a afirmação da Marca? 

Os distribuidores gostam, é garantia de qualidade e além disso agora quase todas as marcas de luxo fazem cá as coisas. As pessoas gostam que seja português, a qualidade do produto português é muito boa e reconhecida em todo o mundo. 

 

Como é o processo de produção? 

Com exceção da ganga, o resto da matéria prima fazemos em Portugal, modelamos, cortamos e confecionamos. Depois vai tudo para a lavandaria e delegamos também alguns acabamentos, como meter botões. Mas o objetivo é dominar cada vez mais todo o processo, até porque tudo isto tem um pouco de segredo e a experiência é também muito importante. 

 

Têm confeção própria?  

Sim, montamos uma confecção, temos cada vez mais pessoas a trabalhar e queremos em breve concentrar todo o processo. Precisamos cada vez mais, até para garantir que não falhamos nos prazos. Não é só por uma questão de negócio, mas também para controlar todo o processo.

 

Em termos de marca qual é a sua ambição?

Não sei, para ser sincero. O que eu queria era que isto crescesse para um nível em que eu tenha a maior liberdade do mundo para fazer o que quero, chegar a um ponto em que tenha uma notoriedade grande e eu possa fazer aquilo que me apetecer a nível criativo. 

 

Para terminar, qual é origem ou foi a ideia do nome da marca?  

Está relacionado com um grande amigo meu que faleceu em 2012 num acidente de carro, um episódio muito chato. Chamávamos-lhe “red”,  por ser muito corado, vermelho, e quando comecei trabalhar nisto  pensei que esta podia ser também a casa dele, daí RedHouse, como uma espécie de homenagem.  

Perfil

Miguel Silva

Aos 37 anos, o fundador e director criativo da RedHouse já deixou a sua marca no universo da moda e do têxtil português. Com um conceito de exagero de luxo, as suas calças ostensivamente rotas e manchadas com tinta são vendidas a preços nunca antes imaginados e usadas por famosos e figuras públicas em todo o mundo. Miguel Silva é uma espécie de outsider, que corre em pista própria e que a partir de Portugal quer afirmar a sua marca no circuito do luxo da moda internacional.

As perguntas de
Vasco Pizarro
Diretor de Markting Lavandaria Pizarro 

 

Numa marca com a sofisticação e características da RedHouse que importância/influência podem ter os consumidores na evolução dos produtos? 

Às vezes penso que são as pessoas que ditam as tendências, mas outras já acho que não é bem assim. Nem sei, mas hoje em dia o público é cada vez mais influenciador, há muitos miúdos que influenciam outros no Instagram, muitos mesmo. Mas tento não ligar muito, porque o que o público está mesmo à espera é que o surpreendam, de coisas diferentes, o efeito surpresa de que não estavam à espera.

 

Por onde perspectiva que possa avançar a RedHouse em termos de inovação e customização? 

Acho que está tudo interligado. O facto de crescermos e chegarmos a certos sítios vai ter que ver com a capacidade de inovação e diferenciação, mas depende também dos nossos fornecedores. Sozinho não posso chegar a uma fábrica e dizer que quero uma malha com estas e estas caraterísticas, é um processo mais alargado.

Cândido Freitas
Sócio-gerente JSB Inovação Têxtil, Ldª

Quais os maiores desafios para lançar uma marca como a sua a partir de Portugal? 

Uma das grandes dificuldades foi ter que andar a chatear as pessoas nas lojas, a bater às portas em todo o lado e tentar impingir-lhes o produto. Deveríamos ter uma feira de multimarcas, onde as marcas se apresentassem às lojas e distribuidores.

 

Que dificuldades/obstáculos tem encontrado a RedHouse na sua afirmação internacional?  

Encontrar os distribuidores certos é mesmo muito complicado. Além disso, a falta de visibilidade, e quem podia dar visibilidade, que são os grandes sites como a Farfetch, não estão a dar. E são eles que nos podem dar visibilidade para todo o mundo. O processo é através das lojas, que fazem o produto subir para a Farfetch, mas por alguma razão isso ainda não se concretizou. Mas vai chegar a altura.

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