Mário Jorge Machado
"A grande virtude do setor têxtil é a capacidade de se adaptar"
T68 - Dezembro 2021

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Surgiu em 2019, mas o seu impacto manteve-se ao longo de todo o ano de 2021: a pandemia e as suas metástases estiveram presentes nas decisões, no desempenho e até nas motivações do sector têxtil, como aliás no de toda a indústria.

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ue balanço faz deste ano tão desafiante para a indústria têxtil?

Tínhamos a expectativa que o ano de 2021 fosse um pouco mais tranquilo – com a introdução da vacinação. Mas acabou por ser um ano em que a pandemia não foi bem resolvida – alguns constrangimentos mantêm-se e com as novas variantes podem tornar-se ainda mais complexos – mas para além das dificuldades ao longo do ano, houve a quebra das cadeias de abastecimento, houve alterações dos preços da energia, das matérias-primas… Foi muito desafiante para a indústria, para quem precisa de manter toda a cadeia produtiva. Houve incrementos de custos muito grandes, muitas dificuldades de negociação para passar esses aumentos de custos aos clientes. O sector têxtil e vestuário está ensanduichado entre grandes fornecedores – como os do no sector energético, que são ‘price makers’ – e as grandes marcas com muita capacidade de negociação, o que fragiliza a sua posição.

 

Esses aumentos em cadeia não foram antecipados, não há, aparentemente. uma razão lógica para que estes aumentos tenham acontecido?

Depois de vermos o filme, conseguimos arranjar explicações. Não conseguimos antecipar. Mas, mesmo que o tivéssemos conseguido, muito pouco poderíamos ter feito. Com a diminuição abrupta da procura, houve muitas unidades que encerraram e cuja reabertura, por exemplo no sector energético, não se faz de um dia para o outro. A pandemia alterou quer por um lado o portefólio dos produtos mais vendidos quer, por outro, fez com que alguns tipos de produtos tivessem uma queda muito abrupta. Um exemplo: neste momento estão a ser construídos muitos barcos para transportar contentores, mas entretanto, foram muitos barcos abatidos; ora, abater um barco demora uma semana, fazer um barco demora dois a três anos.

 

É também uma questão de consumo?

Houve grandes alterações.

Reindustrializar
“Só existirá reindustrialização se incorporar mais-valia económica”
Estivemos em casa, conseguimos mais poupanças, começámos a comprar determinados produtos em maior quantidade. No caso do têxtil temos essas alterações bem evidenciadas: os têxteis para o lar apresentam este ano crescimentos próximos dos 30%; o vestuário de malha com 10%; o vestuário mais formal ainda está aquém de 2019, com valores negativos da ordem dos 20%. É um sector que está a recuperar a várias velocidades. Neste momento, há empresas que produzem tecidos para automóveis que estão em lay off. Estamos a assistir a uma situação que não conhecíamos: há procura, há capacidade instalada, mas falta um pequeno componente, os microships, e toda a cadeia de abastecimento está a ser fortemente impactada.

 

Há nisso um lado virtuoso: as cadeias de fornecimento que usam o sudoeste asiático talvez estejam fora de moda?

Há duas situações. Uma é essa: percebermos que, na Europa, não termos as fileiras industriais completas evidenciou as nossas fragilidades – o caso das máscaras foi um exemplo gritante. Isso mostrou quão míopes fomos em não termos percebido que há componentes que são estratégicos para o funcionamento equilibrado da economia. Mas não estamos a tirar as devidas ilações.

 

A miopia ainda não passou?

Infelizmente não passou na totalidade. Ainda estamos numa posição em que se continua a comprar à Ásia por uma questão de cinco cêntimos.

 

E manifesta-se junto dos empresários, junto da decisão política ou estão todos envolvidos?

Todos temos responsabilidade. Desde logo como consumidores: preocupamo-nos pouco com a cadeia de abastecimento quando encontramos um produto mais barato. Ao nível da decisão política, não se pode impedir que um dado importador vá comprar p

O sector têxtil e vestuário está ensanduichado entre grandes fornecedores – como os do no sector energético, que são ‘price makers’ – e as grandes marcas com muita capacidade de negociação, o que fragiliza a sua posição
rodutos em qualquer zona do globo. A questão é mais de perceção estratégica. Dos governos para perceberem de que forma vão dar competitividade global às economias dos seus países. Estamos a falar de quotas estratégicas. Um exemplo: alguma empresa que esteja a exportar para a China mais que um determinado montante de um produto, é obrigada a instalar uma fábrica na China, senão não pode aumentar as suas exportações. Se a Europa tomasse algum tipo de medidas similares, haveria uma garantia estratégica de abastecimento.

 

Os puristas da democracia iam ficar com os cabelos em pé…

Estamos a falar de uma visão estratégica. Se a China a tem – a visão de perceber que, se está a importar muito de um produto é porque ele é essencial para a sua economia, então uma parte tem de ser produzida na China – porque não nós? Do ponto de vista estratégico, faz todo o sentido.

 

A Comissão Europeia está a fazer tudo o que pode, nomeadamente na frente da industrialização?

Só existirá reindustrialização se ela incorporar alguma mais-valia económica. Veja o caso dos equipamentos de proteção individual: neste momento, a grande maioria do que se vende na Europa já é novamente produzido na Ásia. Porque a Ásia está a fazer preços que são mais baixos que a produção da Europa. Estamos a repetir o mesmo erro: os equipamentos existem na Europa, só que estão parados. Os transportes estão a atenuar esta diferença, mas voltou a compensar produzir na Ásia.

 

A via fiscal não resolve esse problema?

No que diz respeito à energia elétrica, a Europa defende que quem produzir por fontes não renováveis e exportar para a Europa, tem de pagar uma taxa correspondente ao custo da licença de emissão de CO2. Permitir que quem produz fora da Europa sem ter em conta encargos adicionais que foram introduzidos aos produtores na Europa é desincentivar que os investimentos sejam feitos na Europa.

 

Os acordos preferenciais, por exemplo com o Vietname, não são a evidência desse problema?

Exatamente. Estamos a procurar ajudar alguns países a terem maior desenvolvimento económico – o que é louvável – mas não podemos ser ingénuos…

 

A Europa empobrece alegremente…

Isso mesmo. A arte é ajudar quem produz fora sem prejudicar quem produz dentro.

 

A discriminação positiva da produção europeia é outra via?

Voltamos à questão da tributação na entrada das fronteiras. Se estamos a produzir de forma sustentada na Europa, devíamos construir um conjunto de regras a dizer o que é a produção sustentável e quem produzisse fora dessas regras devia ser taxado. Devia fazer-se nos têxteis o mesmo que se faz na energia: uma taxa de sustentabilidade. Se não for assim, corremos o risco de eliminar a indústria têxtil e do vestuário da Europa, através da inviabilidade da produção sustentável. Do outro lado, e felizmente, vamos tendo alguns consumidores que estão disponíveis para comprar apenas produto sustentável. Há consumidores que já têm uma visão sobre a importância do planeta que ainda falta a alguns políticos. Veja a questão dos automóveis: porque é que o governo concede um incentivo fiscal a quem compra carros elétricos? Esta visão tem de ser generalizada a toda a produção sustentável.

 

A Euratex tem, neste particular, um papel importante?

A União está a fazer o plano estratégico para o têxtil e o vestuário na próxima década, deve estar pronto no início do próximo ano, já com atraso. A Euratex é a instituição que tem estado a negociar e a fazer loby. Há dois grupos na Europa: o pró-ambiental e o pró-economia. O primeiro, tem uma visão muito redutora. O outro defende o pagamento de uma taxa sobre quem, fora da Europa, não produz de forma sustentável.

 

Internamente, o ano fica marcado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, mas também pelo chumbo do OE 2022. Como comenta, do ponto de vista das empresas?

Tudo o que é instabilidade torna mais difícil a gestão das empresas. A expectativa é que o ano acabe com um incremento das exportações relativamente a 2019, o que mostra a capacidade que o sector tem de se adaptar. É a sua grande virtude, apesar de vivermos num quadro regulatório e legislativo adverso, nomeadamente no que tem a ver com as leis laborais, onde se introduziu maior rigidez. Tudo vai no sentido da rigidificação do sistema, que vai no oposto do que é necessário ao crescimento da economia. Temos de perceber que a economia não cresce por decreto, mas sim pelo grau de competitividade. A questão, por exemplo do salário mínimo: o seu incremento não tem sustentabilidade no crescimento da produtividade…

 

O que, no limite, pode acabar com postos de trabalho

Acaba sempre: está estudado que estes incrementos acabam com algumas empresas; se a economia está a crescer, o desemprego será absorvido. Em Portugal, há ainda um risco acrescido: não haver jovens que substituam os reformados.

 

O ministro Pedro Siza Vieira parece ser bastante liberal nestas matérias. Perdemos uma oportunidade?

Perdemos, porque este governo estava apoiado em dois partidos que têm uma visão rígida do mundo. São partidos que acreditam que a iniciativa privada não deve existir e que as empresas devem ser nacionalizadas. Nacionalizámos a TAP.

 

Mas, por outro lado, a Efacec, correu para os braços do Estado, pedindo a nacionalização. Como se compatibilizam estes movimentos contrários?

O Estado deve ter um papel de harmonização. Defendo um Estado regulador, mas que seja também um sistema que, perante situações anómalas, funcione como um amortecedor. Deve ser o último recurso em termos de garantia. Como aconteceu com o sistema financeiro. Este é um papel muito importante, o último recurso, que foi o que aconteceu na Efacec – mas é o último recurso, não uma forma de estatização. Uma intervenção estatal excessiva acaba por provocar rigidez.

 

A gestão do PRR está a ser bem conseguida?

Quando existe uma oportunidade para a iniciativa privada investir, ela responde. As candidaturas foram muito superiores àquilo que era perspetivado, o que mostra mais uma vez que, no país, há quem esteja disponível para investir, para arriscar, para criar riqueza. As Agendas para o Investimento tinham um valor inicial de 980 milhões de euros – as candidaturas chegaram a perto de 15 mil milhões. Estamos a falar de uma capacidade assombrosa que uma parte das empresas têm para criar projetos. De qualquer modo, o apoio do PRR vai ser curto – devíamos tê-lo usado muito mais para apoiar o investimento privado, que iria gerar riqueza, que pagaria impostos, que permitiria o Estado social. Ao contrário, estamos a usar o PRR para pagar o Estado social, o que não gera riqueza no futuro, não se reproduz.

 

Por fim, 2021 é um ano positivo ou é para esquecer?

No sector têxtil é olhando para as exportações e para a criação de riqueza, 2021 acaba por ser positivo. Podia ter sido melhor, mas na generalidade é positivo. A grande questão é 2022: como vamos enfrentar os novos desafios? O sector está preparado? Sim: vai continuar a ser um ano de crescimento.

Perfil

Foi eleito presidente da ATP no último dia do mês de julho de 2019. O até então CEO do grupo Adalberto tinha pela frente um desafio de curto prazo que já conhecia: estava a chegar ao fim uma década que se constituía como um dos ciclos mais virtuosos da indústria têxtil nacional. Economia circular, sustentabilidade, inovação, reindustrialização, digitalização, indústria 4.0 eram os chavões que começavam a ganhar corpo e a impactar o futuro. Mas esses eram apenas os desafios endógenos: é que, entretanto, chegou a pandemia de Covid-19 e tudo passou a ser tremendamente mais difícil. No final de um ano híbrido entre confinamento e desconfinamento, impõe-se um balanço em discurso direto.

As perguntas de
José Robalo
Presidente da ANIL

Não acha que o governo devia apoiar mais a participação dos têxteis nos encontros internacionais, que ficam muito caros tendo em conta a realidade portuguesa? 

Deveria não só apoiar mais, já que as comparticipações são muito pequenas, mas ir também mais longe a apoia a criação de novas coleções considerando-as como inovação. E isto são propostas que a ATP já fez chegar ao governo

Face às novas ameaças da pandemia, pensa que os apoios para a indústria serão suficientes? 

Em caso de problemas no abastecimento de matérias-primas, quebras de produção ou de encomendas, deveria ser aplicado o regime de lay-off simplificado nos moldes em que foi utilizado do início da pandemia. E a ATP opôs-se vivamente quando no ano passado esse regime foi precocemente retirado.

Braz Costa
Diretor Geral do CITEVE

Como compara os desafios da ITV portuguesa com os assumidos pela ITV europeia? 

Os desafios são similares. Tanto a Europa como Portugal têm como principal objetivo ter moda sustentável e que seja também competitiva. E esse é que é o grande desafio, produzir moda sustentável sem perder a competitividade.

Quais são as especificidades de Portugal e como está a fazer valer os seus interesses junto da Comissão Europeia? 

A nossa é que o setor do têxtil e vestuário tem uma grande importância no tecido económico português. Representa 18% da indústria transformadora, o que implica uma responsabilidade acrescida no país. Atuamos, por um lado, junto da Euratex, onde a ATP tem tido um papel importante, nomeadamente na definição da estratégia para a Europa, onde tivemos intervenção de relevo. Por outo, também junto do nosso governo, que naturalmente os repercute no seio dos órgãos europeus.

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