Nuno Mangas
O objetivo do COMPETE2020 é a capacitação das empresas
T63 - Maio/Junho 2021

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O grande objetivo do COMPETE2020 é incorporar conhecimento e valor e para isso é preciso investir em I&D. O têxtil é altamente competitivo, tem empresas que quase não precisam de ser incentivadas, mas Nuno Mangas diz que que é preciso trazer mais empresas a jogo e os próximos instrumentos vão no sentido de ampliar o leque de empresas que beneficiam dos apoios, seja em matéria de sustentabilidade, seja noutros investimentos.

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ue balanço faz do cumprimento dos seis eixos centrais do Compete 2020, olhando com pormenor para o reforço da internacionalização, capacitação de ativos e projetos sustentáveis?

Estamos na fase final do atual quadro financeiro plurianual. Embora seja ainda prematuro fazer um balanço muito exaustivo, podemos já fazer uma análise olhando para os grandes eixos do COMPETE. Temos um conjunto vasto de apoios às empresas, com 67% do incentivo atribuído pelo Compete, sendo que dois terços deste valor foi a PME, o que nos dá também uma ideia real do tecido empresarial português. 

No contexto dos nossos instrumentos, para além da capacitação de recursos e apoio diretos à internacionalização, trabalhamos todo o ciclo de inovação, destacando o apoio à Inovação e às atividades de I&D. 

Mas não queremos só apoiar a modernização das empresas. O grande objetivo do COMPETE2020 é, através dos seus instrumentos de política públicas incorporar mais conhecimento e valor em cada sector de atividade e para isso é preciso investir mais em I&D e na capacitação das empresas. 

Trabalhamos desde a base, acompanhando toda a cadeia do tecido empresarial nacional para criar empresas mais competitivas e diferenciadas, quer nos sectores mais tradicionais, como o têxtil, quer numa lógica de evolução para setores diferentes.

 

Considera que esses investimentos em I&D permitem valorizar o sector têxtil nacional, nomeadamente através da criação de produtos sustentáveis de valor acrescentado? 

Claramente. Os instrumentos atuais já incentivam a que isso aconteça, embora não seja impositivo. Há empresas com esse foco e há outros que ainda não o têm.

Trazer conhecimento e valor
O grande objetivo do COMPETE2020 é incorporar conhecimento e valor e para isso é preciso investir em I&D
Eu diria que, em termos futuros, todas as nossas empresas terão de apostar em processos e materiais sustentáveis, que não só as valorizem no mercado interno mas sobretudo que as tornem competitivas no mercado global. 

 

Olhando para a agenda verde europeia percebe-se que a sustentabilidade e circularidade são questões incontornáveis para as empresas. No atual quadro já estamos a dar esse sinal, não como um vetor obrigatório, mas reforçando o apoio a projetos e investimentos verdes.

 

Significa isso que o apoio a investimentos de cariz sustentável vai aumentar no próximo quadro? 

Essas são as orientações em termos europeus que estão, de resto, já presentes no PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]. 

Na verdade, temos em alguns setores de atividade, nomeadamente no têxtil, empresas líderes que quase não precisam de ser incentivadas a trilhar este caminho porque autonomamente leram os sinais do mercado e são bons exemplos internacionais, mas existem ainda muitas empresas sem essa vertente incorporada que precisam de ser motivadas e apoiadas nesse sentido. 

Digo muitas vezes que é preciso trazer mais empresas a jogo e os próximos instrumentos deverão ir nesse sentido, de ampliar o leque de empresas que beneficiam dos apoios do COMPETE, seja em matéria de sustentabilidade, seja noutros investimentos, nomeadamente para incorporar no seu modelo de negócio a transformação digital, outro pilar essencial das políticas europeias.

 

A ITV já está a trilhar esse caminho há vários anos. Considera que a pandemia veio acelerar esses processos?

Sem dúvida. E esse facto deve-se não s

Olhando para a agenda verde europeia percebe-se que a sustentabilidade e circularidade são questões incontornáveis para as empresas. No atual quadro já estamos a dar esse sinal, não como um vetor obrigatório, mas reforçando o apoio a projetos e investimentos verdes.
ó à capacidade individual das empresas que, estando inseridas num sector altamente competitivo, assumem um nível de inovação elevado quando comparado a outros sectores, mas também ao coletivo.

 A ITV tem a sorte de ter um centro tecnológico como o CITEVE, associado ao CeNTI, com muitos dos projetos apoiados pelo COMPETE, o que favorece os caminhos da inovação e da sustentabilidade. Basta olhar para alguns destes projetos para perceber o caminho que está a ser feito desde as áreas de investigação e desenvolvimento até à penetração dos produtos no mercado. 

A pandemia, que naturalmente fez desacelerar o ritmo das empresas, permitiu alguma reflexão que muitas vezes não é possível no habitual contexto das empresas. E no caso da têxtil permitiu reforçar o caminho que já estava a ser feito e até, em muitos casos, acelerar.

 

No âmbito das empresas, o COMPETE disponibiliza projetos coletivos e individuais. São complementares? Como funciona este casamento?

 

São realidades que se combinam muito bem, sobretudo num tecido empresarial como o português. Isto porque temos algumas empresas líderes, que são já grandes players, mas a esmagadora maioria são empresas médias, pequenas ou mesmo micro. 

Ou seja, grande parte não consegue ter estruturas próprias para, por exemplo, participar a título individual numa feira internacional ou desenvolver um processo de capacitação dos seus ativos. Nestes dois eixos, em particular, as ações coletivas são muito relevantes não só porque dão resposta a necessidades que as empresas per si teriam dificuldade em abarcar, mas também porque incentivam o trabalho em rede. 

Tradicionalmente pensa-se que é mais fácil competir do que cooperar e muitas vezes, sobretudo para as PME, cooperar faz muito sentido, sem que isso signifique que se deixe de competir. A participação em feiras internacionais é um bom exemplo disso pelas razões que já mencionei e também pela presença qualificada que se consegue coletivamente quando comparado a uma presença individual.

 

Num sector altamente exportador como o têxtil, a pandemia obrigou muitas empresas a reforçar os investimentos na área da digitalização. Que respostas estão a ser dadas perante esta nova realidade?

Acreditamos que o futuro passará por um modelo híbrido. Tivemos até há pouco tempo abertas as candidaturas para projetos conjuntos onde são dados claros sinais desta articulação entre as presenças físicas e o reforço da digitalização.

Como consumidores alterámos comportamentos, como prova o aumento exponencial do comércio digital e das compras online. 

A pandemia acelerou o processo e as empresas têm de repensar os seus modelos de negócio. É essencial que se consiga manter alguma experiência sensorial no digital em ciclo completo: desde a compra do produto até à sua entrega, à embalagem, aos processos de devolução, etc. Tudo isto é importante e conta. Somos humanos, as sensações e a experiência ao longo de todo o processo são importantes, pelo que o digital, sendo um fator competitivo para as empresas, por si só não é suficiente.

 

O modelo híbrido é então o futuro em concreto para a ITV?

Exatamente. E a prova disso é que acrescentamos o digital, não o substituímos pelas ações físicas nos nossos instrumentos. 

A minha expectativa é a de que as candidaturas agora em curso combinem estas duas dimensões que, bem conjugadas, podem determinar o sucesso dos investimentos. 

O próximo quadro financeiro, lendo sempre de antemão a forma como os empresários recebem estes instrumentos e os utilizam, irá certamente seguir a mesma linha. 

No sector têxtil em concreto percebemos que a presença física, o contacto e o toque são indispensáveis e que, por muito que o online possa evoluir, nunca os vai substituir. 

É por essa razão que prevemos mais apoios nas ações digitais, mas sem retirar os habituais instrumentos físicos, nomeadamente de apoio à presença em feiras internacionais.

E depois há ainda outra dimensão que, não sendo tangível, é extremamente relevante para a competitividade e inovação empresarial, que é o facto de sectores como o do têxtil e da moda, precisarem do contacto internacional, da inspiração que resulta do conhecimento de outras realidades. Quando as empresas vão ao exterior e participam em feiras, conversam com outros players e têm uma perceção diferente e mais abrangente do que a concorrência oferece; há um ganho imensurável que perdura.

 

Mas estas participações em feiras internacionais requerem um grande investimento e uma aposta consistente?

Esse é um dado fundamental. Os processos de internacionalização têm de ser contínuos, não se pode esperar ter resultados com uma única tentativa de abordagem a mercados externos. O que não quer dizer que tal não possa acontecer. 

É um processo que envolve muita persistência

Há que testar os mercados, ler sinais subtis, e para isso há que ter presente esta ideia de processo contínuo que implica, lá está, muita persistência por parte das empresas.

 

Daí que seja também fundamental que os instrumentos do COMPETE respondam às necessidades específicas das empresas e não se cinjam aos objetivos das políticas públicas. Como é feito esse diálogo?

Os objetivos das políticas públicas são as nossas linhas orientadoras, mas interessa-nos ter instrumentos que sejam úteis às empresas. 

Por isso é que eu em particular valorizo as visitas às empresas, as conversas com os empresários e o feedback que daí podemos retirar. Na prática, há objetivos de políticas públicas definidos, mas os instrumentos têm de ser ajustados à realidade e às necessidades das nossas empresas.  O que é muito interessante num programa como o COMPETE, são estas sinergias que se criam entre as necessidades do tecido empresarial e os objetivos das políticas públicas, surgindo aqui os diferentes instrumentos como a resposta. Se a nossa atuação fosse top/down não faria sentido porque a probabilidade de dar respostas às necessidades reais das empresas seria muito menor.

 

Uma das grandes queixas dos empresários têxteis relaciona-se com a falta de recursos humanos e com a sua baixa qualificação. Um dos eixos centrais do Compete é exatamente a valorização e capacitação dos ativos das empresas. Pode nomear alguns instrumentos específicos? 

O nosso papel está centrado nos ativos das empresas, não tanto na captação de novos recursos. Mas neste eixo em concreto temos neste momento vários avisos abertos, nomeadamente um específico para cinco clusters, entre eles o têxtil. 

É um excelente exemplo deste contacto com as empresas de que falamos, porque é um projeto que resulta de uma conversa entre o Ministro da Economia e empresários destes mesmos setores, e que responda ao período em particular que vivemos. 

Trata-se de projetos de capacitação de ativos que, num período de decréscimo produtivo, permite às empresas dar formação aos seus funcionários, em regime flexível ajustado a cada empresa, e que pode ser uma excelente alternativa ao lay off. 

Ou seja, as empresas podem ter os funcionários a trabalhar uma parte do seu horário e utilizar o tempo restante em acções de formação que podem, inclusive, ter como formadores quadros da própria empresa.

É um apoio que está a ser dado apenas a alguns sectores, como o têxtil, que, infelizmente, foram mais afetados com a pandemia.

 

Outra questão é a dos prazos de candidaturas, que os empresários têxteis defendem que sejam em contínuo, ao invés dos habituais prazos fechados. O Compete encara essa possibilidade?

Neste momento existe já um instrumento de auxílio que facilita os processos de candidatura e dá alguma previsibilidade aos empresários. Refiro-me ao registo prévio de pedido de auxílio. Mas, para além desse mecanismo, que não é novo, é importante que se perceba que no momento em que estamos, em fim de ciclo, os recursos já são escassos. 

Estamos numa fase em precisamos de gerir cautelosamente o overbooking, o que torna difícil ter nesta fase avisos abertos em contínuo, para que não sejam feitos investimentos que depois não podemos apoiar e assim criar falsas expectativas. 

 

Importa também ter presente que as empresas não devem esperar pelo aviso para criar o projeto. A possibilidade das empresas se candidatarem a financiamento acontece de uma forma regular, por isso as empresas que estiveram a trabalhar em bons projetos podem candidatar-se em vários momentos. E os projetos precisam de ser pensados e amadurecidos. Quando um projeto vem bem pensado é tudo mais fácil, a aprovação é mais fácil, assim como a própria execução, o que traz menos entropia ao sistema.

 

No COMPETE 20-30 que articulação será feita com o Banco do Fomento?

Neste momento temos três programas que irão coexistir: o COMPETE2020, que integrou o REACT, o que representa um acréscimo de cerca de 1,9 milhões de euros na dotação do Programa, o PRR e o PT20-30. No PRR temos um envolvimento mais indireto, sobretudo ao nível das agendas mobilizadoras da inovação empresarial e economia verde.

Em relação ao PT 20-30 já se conhece a estratégia e a estrutura, que incluirá os cinco programas operacionais regionais e outros três eixos temáticos, mas há ainda um longo trabalho em curso. Ou seja, podemos antever que haverá essa articulação com o Banco de Fomento, como já existe para o mecanismo híbrido da inovação produtiva, mas ainda não podemos especificar em quais instrumentos decorrerá essa articulação.

 

De que forma o COMPETE contribui para a competitividade das nossas empresas? 

Há claramente um antes e depois do COMPETE e isso é inquestionável. Uma mudança positiva que é notória desde as áreas da Inovação Produtiva, do I&D, que queremos que venha a representar em breve 3% do PIB graças a uma grande aposta das empresas, até aos processos de internacionalização de que são um óptimo exemplo as empresas em feiras internacionais que, em dez anos, é absolutamente incomparável.

 

Perfil

Embora a sua formação base seja em Engenharia Eletrotécnica, é como professor do ensino superior que tem feito grande parte do seu percurso profissional. Natural de Ourém, em 2009, Nuno Mangas assumiu a presidência do Politécnico de Leiria, função que cumpriu por dois mandatos consecutivos, em simultâneo com cargos diretivos na associação empresarial da Região de Leiria. É com o grande objetivo de aproximar o conhecimento académico da vida prática das empresas que chega ao IAPMEI, em 2018, sendo posteriormente – novembro de 2020 – nomeado Presidente do COMPETE 2020.

As perguntas de
Mário Jorge Machado
Presidente da ATP

Para considerar um sucesso a aplicação dos fundos do PRR e do 20-30, que lugar devíamos ocupar no ranking do PIB per capita a nível da UE no final destes programas?

Considero é que temos de ter ambição, ou seja, compararmo-nos com os melhores e querer estar entre os melhores. Como já conseguimos fazer com a inovação, somos dos países mais inovadores. Mais do que comparar com a média, temos de ter a ambição de estar entre os melhores, nas empresas, nas instituições, nas universidades. E depois há outra dimensão fundamental: tem de ficar mais valor em Portugal. O diferencial entre valor de venda no final e o valor à saída da fábrica é enorme. Temos que conseguir fazer com que fique mais valor na nossa indústria.

Como ao longo das primeiras duas décadas fomos dos países que tiveram acesso a mais fundos europeus e mesmo assim fomos ultrapassados por vários países em termos de PIB per capita, o que vamos ter de mudar na selecção das áreas e tipologias dos projetos a apoiar nesta década por forma a garantir o crescimento económico?

A seletividade dos fundos irá aumentar. Mas olhando para trás, há um antes e um depois, há caminho que não teria sido possível se não tivéssemos fundos comunitários e disso não tenhamos dúvida. Quando olhamos para a incorporação do conhecimento, que é uma das áreas que temos de olhar com atenção, é inquestionável que fizemos um caminho muito positivo.

Todos os projetos correram bem? Com certeza que não, mas isso é da vida. Acontece o mesmo com os produtos lançados pelas empresas. Mas há um claro antes e depois. Basta pensar, por exemplo, no que é hoje a presença internacional das nossas empresas.

José Robalo
Presidente da ANIL

Mais que tendência, a sustentabilidade é uma inevitabilidade em termos mundiais. Considera, desta forma, pertinente a criação de apoios específicos para a Indústria Têxtil no contexto PRR? 

Entre outras, estão previstas no PRR as agendas da bioeconomia, coordenadas pelo Ministério do Ambiente, não tendo o COMPETE um envolvimento direto nessas agendas. Uma dessas agendas é focada no têxtil, por isso claramente há aqui oportunidades.

Dado que o tecido industrial europeu tem desaparecido, resultando numa grave sujeição à produção asiática, considera que os apoios europeus deveriam, prioritária e maioritariamente, ser dirigidos para a reindustrialização? 

É razoavelmente consensual que nós precisamos de diminuir essa dependência e com a pandemia ainda percebemos melhor esse problema. Há já uma iniciativa a nível europeu no sentido de saber quais os produtos chave para que possam passar a ser produzidos na UE. O desafio agora é concretizar porque as políticas europeias e portuguesas já vão nesse sentido. Para além desta questão da dependência de terceiros, que ainda por cima têm práticas e leis muito diferentes das que temos no contexto europeu, há ainda outra dimensão. Ao nível planetário estas trocas comerciais não são uma prática sustentável, pelo que vamos ter de substituir a globalização por sub globalizações, até por questões ambientais.

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