T62 – Maria de Belém Machado
"Temos um plano de investimentos de 4 milhões de euros"
T62 - Março-Abril 2021

António Freitas de Sousa

Uma unidade industrial não pode estar ao mesmo tempo aberta e fechada. Depois de 15 dias de lay-off parcial, Maria de Belém Machado optou por chamar todos os colaboradores. “Quem não está presente, é rapidamente ultrapassado pela concorrência e os clientes perceberam que não ficaram abandonados”.

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pandemia impactou mais o médico ou o empresário que produz bens transacionáveis?
O perigo é maior para os médicos – são autênticos heróis. Os empresários não são heróis. Para mim, a indústria é uma aventura…

Que começa num ano que acabou por tornar-se muito difícil…
Foi um ano difícil, mas, apesar de tudo, aguentámos. Tivemos uma linha de produção em lay-off durante 15 dias, depois quisemos estar presentes para os clientes e para os nossos projetos.

Que passos foram dados para contrariar a pandemia?
Comprei a empresa em julho de 2019…

Uma pequena empresa compra uma de dimensão muito superior…
Não, não foi a SMBM que comprou, fui eu que comprei a Tearfil. Depois de a ter comprado, o ano acabou quase de seguida – foi a nossa chegada, depois foram as férias de verão – e fizemos os orçamentos para 2020. Estávamos a cumprir os orçamentos quando em março o país fechou: em abril, faturamos menos 60%. Em maio, a tentação de fechar foi grande porque as coisas não estavam a fluir – uma das fiações fechou 15 dias mas tivemos logo que chamar todos os colaboradores porque ou estamos no mercado ou não estamos. O mês de maio foi muito complicado, mas em junho começámos a entrar outra vez dentro dos objetivos. Março, abril e maio foram meses muito difíceis – mas apesar de tudo conseguimos o principal objetivo, que passava por equilibrar a exploração da empresa. Este ano estamos a cumprir não só o orçamento, como no primeiro trimestre estamos acima do orçamentado.

Mas em termos de contas, 2020 atingiu os objetivos?
O principal objetivo passava por apresentar resultados da exploração positivos e isso foi conseguido.

O volume de negócios foi de quanto?
Ultrapassámos os 11 milhões, mesmo tendo em conta os três meses de faturação muito baixa, por força da pandemia. O que é um facto é que conseguimos dar a volta, apostando em fios muito na base dos reciclados, dos fios técnicos. Fizemos muito trabalho dentro dos fios reciclados, que vieram para ficar.

Um 2021 em grande
"Neste momento, já estamos acima do previsto no business plan. Estamos confortáveis
e confiantes"

Este ano está melhor?
Este ano, fizemos um orçamento mais audacioso. Neste momento [final do primeiro trimestre], já estamos acima do previsto no business plan. Estamos confortáveis e confiantes.

A ambição do orçamento eram os 15 milhões?
Não, somos mais modestos: 13,7 milhões. Pessoalmente, acredito que vamos ultrapassar os 14 milhões.

Quando comprou a empresa, tinha previsto investimentos de 3,5 milhões.
Não. Não chegámos a investir a esse nível: para investirmos, temos de ter contas sólidas e nesta fase de grandes incertezas tem que haver muita prudência. Revisitamos o plano de investimento permanentemente e quando chegar o momento, avançamos para a sua concretização. Temos primeiro de consolidar as contas, sabemos que tem de ser assim, senão não temos qualquer apoio. O ano de 2020 foi bom tendo em conta a evolução da têxtil face ao efeito Covid-19.

A maior parte dos clientes são portugueses, a exposição às exportações ainda é pequena?
De forma indirecta, mais de 90% do que produzimos é exportado. Mas apostamos muito nas exportações: no ano passado admitimos mais um comercial em março. Não pode viajar – saiu apenas em setembro para visitar a Bélgica e a Holanda, mas teve de vir embora. Mas pensamos que vamos subir substancialmente nessa área. Quando comprei a Tearfil, a imagem estava um bocado degradada: quem ia vender sabia que ia vender e não investiu no negócio…

"Estamos muito focados na sustentabilidade e estamos quase a atingir o desperdício zero: estamos a reutilizar, estamos a reciclar e estamos a inovar com o nosso próprio desperdício"

Mas andou uma série de anos para comprar a empresa?
Andei, desde 2013. Bom, não sei se queriam vender, se havia muita gente a querer comprar – são coisas diferentes. Não podemos desistir nunca. Assinámos o memorando de entendimento em setembro de 2018, mas só consegui comprar quase um ano depois.

Quando entrou, as exportações valiam 12% da faturação de 12 milhões. Já aumentou esta quota?
Sim. Estamos com cerca de 15%. É uma área muito difícil – os próprios clientes estão retraídos, porque também têm poucas encomendas, há um risco. Claro que quase tudo o que fazemos resulta em exportação indireta. Até porque pertencemos ao grupo de fornecedores aprovado pela Inditex – fomos auditados – só aí… E temos muitos clientes que não têm lojas físicas, compram fio aqui e mandam fazer ali, mas a base é connosco.

Mas diretamente, a região dos Países Baixos atrai-a?
Era uma área que não estava coberta pela Tearfil e ali, nos Países Baixos e norte de França, há uma grande zona industrial. E temos clientes que nos pedem os fios mais inesperados.

Isso quer dizer que a empresa está virada para a sustentabilidade?
Estamos muito focados na sustentabilidade e estamos quase a atingir o desperdício zero: estamos a reutilizar, estamos a reciclar e estamos a inovar com o nosso próprio desperdício. Estamos a lançar uma marca – está prestes a ser registada a nível europeu – a Eco Heather, que é um fio em 90% recuperado dos desperdícios da empresa, o que é muito bom. Reciclamos tudo. Um exemplo: os fardos de algodão vêm envolvidos em sacos, que são guardados e quando temos quatro, cinco toneladas, mandamos cortar e desfibrar e reintroduzimos no ciclo produtivo. Recuperar, reciclar,e reutilizar é para nós importantíssimo. Para além das fibras já recicladas, que usamos muito. É um facto que quando vemos o desperdício ir para o caixote do lixo ou para queimar… se houver algum cuidado tudo isso é reaproveitável. Contribuímos, assim, com a nossa pegada ambiental, deixando um planeta mais saudável. E o fio é de muito boa qualidade.

Um dos investimentos previstos seria na aquisição de painéis fotovoltaicos?
Sim, estamos a estudar a sua localização. Não vai abastecer a fábrica toda, mas todos os painéis que montarmos serão para abastecer a fábrica, uma vez que vender à EDP não tem interesse nenhum. Já devia ter sido feito, mas estas incertezas com a pandemia atrasam os investimentos. Tem de ser tudo feito com muito cuidado – isto são 200 pessoas. Só por curiosidade, quando comprámos a empresa, a primeira coisa que os sindicatos perguntaram foi “quantas pessoas é que vão despedir?”. Tive de responder que tínhamos chamado os sindicatos para lhes dizer que queríamos as pessoas todas. Sem pessoas, não trabalhamos. Continuo a acreditar que as fiações portuguesas podem ser muito contributivas para a indústria.

Que investimento precisa para os painéis fotovoltaicos?
À volta de 350 mil euros.

Prevê a possibilidade de desenvolver marcas próprias, até para a aposta nas exportações?
Temos agora o Eco Heather. A Tearfil é uma marca muito conceituada, a própria marca vende. Estamos a trabalhar com a Universidade do Minho e com a Fibernamics nos fios anti-bacterianos e anti-víricos – em projetos que têm a ver com a Covid-19. Temos projetos, queremos evoluir, mas não nos podemos esquecer que só estamos aqui há um ano e meio.

Vai haver aproximação entre as suas duas empresas?
Desde o início que deixei claro às direções de ambas as empresas: estão no mercado em concorrência. Cada uma é totalmente autónoma em relação à outra. Depois, quando o tempo o justificar, logo veremos se é a melhor estratégia ou se devemos fazer ajustes à mesma.

As duas empresas são complementares? Fazia sentido ligá-las?
Podia fazer: a SMBM nunca poderia trabalhar grandes volumes, e a Tearfil trabalha grandes volumes.

Podem manter-se como clientes uma da outra…
Concorrentes, neste momento são concorrentes puras. Mas podiam ser complementares. Juntá-las tinha muitas vantagens, mas como há aquele grande inconveniente, não posso pensar nisso.

Como viu a forma como o Governo apoiou as empresas para superar a pandemia?
Aquilo que foi prometido foi cumprido – mesmo com alguns atrasos. E não foram só os apoios diretos. A minha grande preocupação é com os milhões que vêm para aí: tenho medo que comecem a ficar retidos em Lisboa. Mas tenho de acreditar – não posso colocar tudo em dúvida.

O Banco de Fomento pode ser uma boa ajuda?
O Banco de Fomento pode ser uma boa arma. Com ele, não podem usar a desculpa de que não podem chegar às empresas. O Governo tem agora uma arma para poder chegar às empresas. Por exemplo, quando se quer apostar na poupança de energia, temos de ter máquinas mais modernas – não são só os painéis.

Tem portanto um plano de investimento integrado.
Temos. Mas temos prioridades.

O total do investimento será de quanto?
Cerca de quatro milhões.

Depois de realizados os investimentos, em ano cruzeiro, como antecipa a dimensão da Tearfil? Os 20 milhões são possíveis?
Apesar do nosso plano de médio e longo prazo não ser tão audacioso, eu sou muito otimista e acredito muito na minha equipa, pelo que dou de barato que sim. Entre outras coisas, porque temos grandes projetos com parceiros estratégicos e vários desenvolvimentos que criarão muito valor a jusante do nosso processo. Temos neste momento entre 300 a 400 clientes.

A Inditex que peso é que tem?
Diretamente, nenhum. Indiretamente deverá chegar aos 30%.

É-lhe confortável ou preferia uma exposição menor a um único comprador?
Gostava que fosse menor. No entanto, a pandemia obrigou todas as empresas a reestruturarem-se e a valorizarem a proximidade da cadeia de fornecimento em prol de geografias orientais, porque o impacto de uma paragem dessas economias é suficiente para colocar em risco a sua atividade. Este tipo de coisas acontece para todos e para a Inditex ainda mais: não pode estar dependente de um único fornecedor e Portugal traz-lhe flexibilidade por via da proximidade.

Para o têxtil em geral?
Sim: o que é português é bom, para o têxtil em geral – mas para muitas outras coisas. Temos bons designers, temos bons fabricantes, por esse lado não há nenhum problema.

Para o ‘Portugal é bom’ ir para a frente dava jeito o regresso das feiras?
É muito importante. As feiras são o local onde conhecemos novos parceiros, novos clientes, novas matérias-primas. E como ninguém vai de férias para dentro de um pavilhão de uma feira, todos os que lá estão são importantes. São todos parte interessada. Há sempre alguém que nos traz ideias, que nos leva produtos, que nos faz desafios. Têm muito interesse para nós. Apostamos sempre nas feiras, tanto na Tearfil como na SMBM.

Perfil

Quando comprou a Tearfil, Maria de Belém Machado quis reunir-se com os sindicatos para lhes assegurar que não estava no seu horizonte proceder a qualquer diminuição do contingente de colaboradores. Como disse, manter todos os postos de trabalho é um ponto de honra. Não só porque as máquinas não trabalham sem pessoas – e a empresa não tem viabilidade sem os seus colaboradores – mas também porque, ao longo do seu percurso anterior, como médica, pôde por diversas vezes constatar a devastação que a perda de emprego pode motivar individualmente. É assim que Maria de Belém Machado afirma que despedir seria a última coisa que admite fazer nas suas empresas. O desenvolvimento da Tearfil passa, isso sim, por um plano de investimentos que lhe permita uma aposta renovada na sustentabilidade, tanto da produção industrial como dos produtos que dela saem. São cerca de quatro milhões de euros de investimento – que passam também pela área da energia – com os quais a empresária está a programar a ‘nova’ Tearfil, que em ano cruzeiro pode atingir uma dimensão da ordem dos 20 milhões de euros. Para isso, a empresa conta com a exposição a novos clientes, como é caso de uma nova parceria mantida com uma empresa espanhola interessada em assegurar um fornecimento que pode vir a revelar-se muito importante para o futuro da Tearfil

As perguntas de
Marla Gonçalves
Diretora Comercial da Tearfil

Quais são as suas expetativas para 2021?
Queremos continuar a inovar de forma responsável, a fazer uma leitura atenta e constante do mercado, a trabalhar ao lado dos nossos clientes e parceiros com vista ao crescimento mútuo. Também motivar os nossos colaboradores que são, sem dúvida, a força motriz do nosso sucesso. E a demonstrar que Portugal não pode viver apenas de serviços.

Quais as prioridades traçadas no plano de gestão para assegurar a competitividade da empresa?
Acredito que a inovação responsável tem que ser encarada como fator estratégico de diferenciação e competitividade. Os produtos e processos de fabrico sustentáveis são um alvo privilegiado dos nossos investimentos em I&D. Não pretendemos produzir mais, mas sim produzir melhor, aumentando a eficiência, produtividade, qualidade e a nossa margem operacional. E, naturalmente, reduzindo a fatura energética. Paralelamente, vamos continuar a investir nas competências do nosso capital humano e assegurar a transmissão geracional de conhecimento.

Bernardino Andrade
Administrador da Tearfil

Como se tem pautado o relacionamento com os parceiros financeiros?
Hoje em dia as empresas estão presas a uma notação de rating. É a partir daí que há mais, menos ou nenhuma abertura dos bancos para apoiar as empresas. Da parte da Tearfil, apesar do histórico ainda ser muito curto, temos sentido um grande apoio e interesse por parte de alguns bancos, condição essencial para ajudar ao crescimento que é fundamental para nós.

Como vê o papel desempenhado pela indústria têxtil portuguesa no contexto da criação de riqueza nacional?
Apesar de todo o emprego, impostos, exportações, contribuição para a riqueza do país, por vezes dá a sensação que a indústria têxtil está esquecida pelos decisores políticos, que não a protegem quanto deviam. Repare no que aconteceu com a pandemia: grande parte do país parou, mas a indústria têxtil, de imediato, adaptou-se e continuou o seu processo de geração de riqueza. Esta característica de resiliência, de readaptação é muito interessante na têxtil e não é valorizada como devia.

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