Luís Teixeira
"Incerteza
na China é oportunidade para a têxtil nacional"
T53 - Maio 20

António Freitas de Sousa

A única empresa de origem portuguesa cotada na Bolsa de Nova Iorque tem o seu objeto social alinhado com o luxo e a moda. O mercado português tem pouca presença nesse universo, mas a pandemia reservou para o têxtil nacional a hipótese de fazer o match com o primeiro unicórnio de ADN luso, que tem em Guimarães um dos seus centros nevrálgicos

Q
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ual vai ser o impacto da pandemia num mundo, o das vendas online, que é por definição uma resposta à pandemia?

De uma forma geral, o que sabemos é que no momento mais imediato há uma contração do retalho como um todo – o que já é evidente e há uma grande incerteza sobre o que vai acontecer, principalmente na moda, no próximo ano. Há uma grande incerteza, num cenário em que, na indústria do luxo, é certo que vai haver uma contração de mercado em 2020.

Mesmo no segmento do luxo?

Sim. Paralelamente, temos visto uma aceleração da penetração do online e do e-commerce. Nas últimas oito semanas, a penetração do online cresceu para níveis nunca antes vistos. Aquilo que, na Farfetch em particular e no caso do luxo em geral, é a nossa expectativa é que haja uma contração do mercado como um todo, mas que haja muitos mais clientes a comprar. O que verificámos nos primeiros três meses do ano e já também no início de abril é que continuamos a crescer essencialmente porque temos mais clientes a comprar com a Farfetch.

É de alguma forma a objetivo da Farfetch…

Obviamente que estávamos mais bem preparados para isso que muitos outros retalhistas. Todo o investimento que fizemos na criação da plataforma para o mundo e para a indústria do luxo permite-nos ter um negócio que não é imune – obviamente que é afetado – mas que é muito mais sólido e resiliente para ultrapassar estes desafios.

É o retalho físico que mais sofre?

O retalho físico já começa a abrir, mas nós, durante o período de confinamento, sentimos algum impacto – houve alguns pontos de stock que fecharam – mas não houve impacto material na nossa operação.

Mas há outros impactos. A China é o maior mercado de luxo do mundo. A Farfetch vai recuperar a sua exposição ao mercado chinês?

No mundo do luxo, os clientes chineses são aqueles que mais compram há muito tempo. Estando o retalho físico com limitações, esses clientes estão a acelerar a pernetração do online. O que nós vimos, olhando apenas para a China, no primeiro trimestre crescemos mais do que no ano de 2019, em termos percentuais.

Negócio da China
"Durante o confinamento, a Farfetch cresceu mais em encomendas enviadas para a China que no ano todo de 2019"

O confinamento acelerou esse crescimento?

Exato. Durante o período de confinamento, a Farfetch cresceu mais em encomendas enviadas para a China que no ano todo de 2019.

A China é um mercado importante?

É um mercado muito importante para todas as indústrias e o luxo não é uma exceção: é um dos mercados onde mais investimos até hoje em todas as soluções, ao ponto de termos uma equipa já com mais de 300 pessoas, incluindo uma equipa tecnológica. Na China tudo é diferente.

Em que medida?

Ninguém consegue ganhar ali sem investir e sem uma equipa local. Há vários casos de empresas que foram para a China estando no online e falharam. A Uber e a Amazon são dois casos. Ao contrário, a Farfetch está a capitalizar todo o investimento que fez nos últimos quatro anos, que foi um investimento muito grande…

Da que ordem?

É difícil de mensurar, mas se pensarmos nas pessoas que lá temos em exclusividade, significa que é de facto um investimento grande. Estamos a capitalizar todo o investimento tecnológico e de processos que fizemos ao longo dos anos. A maior oportunidade nos próximos anos, há consenso sobre isso, está na China.

"Todo o investimento que fizemos na criação da plataforma para o mundo e para a indústria do luxo permite-nos ter um negócio que não é imune – obviamente que é afetado – mas que é muito mais sólido e resiliente para ultrapassar desafios"

O mês de abril reforça essa tendência do primeiro trimeste?

Reforça. Crescemos com números aceitáveis.

A Farfetche cresce na China. Onde é que cresce mais mais? E onde é que está a perder?

De uma forma geral, continuamos a crescer – não posso apontar nenhum mercado que não esteja a crescer face ao passado. Há de facto mercados que estão a crescer de forma mais rápida que outros, seja porque há, como no caso da China, maior apetência, seja como noutros mercados onde para além de haver uma maior penetração do online houve outros retalhistas que não conseguiram manter as suas operações em funcionamento.

A penetração da Farfecth em Portugal é residual?

Não é representativa. Portugal é um país muito importante por vários motivos – é aqui que temos o coração da empresa: a nossa plataforma tecnológica e a inteligência dos serviços operacionais, está em Portugal, apesar de sermos uma empresa descentralizada. Temos aqui mais de duas mil pessoas. Sou COO da empresa com uma equipa numerosa distribuída por dez países, mas o grosso e o centro da inteligência está aqui. Está em Portugal cerca de 90% da nossa equipa de tecnologia.

Mas as compras não acompanham…

Em termos do demand dos clientes, não é muito representativo, porque a penetração do online em Portugal é inferior, mas tem também infelizmente a ver com o poder de compra. Em termos daquilo que é o ‘suply’, as boutiques – marcas não temos muitas – também são pouco representativas. Com a aquisição que fizemos no ano passado com a NGG, New Guards Group – uma plataforma de criação de marcas, entre as quais a Off White, a mais conhecida – muita da produção para as suas marcas é feita em Portugal: há já muitos anos que a equipa de gestão desenvolve as coleções e depois contrata a produção em Portugal, vestuário e calçado.

Portugal é visto como um país que produzia bem, entregava bem e era barato. Uns 30 anos depois, como é que os compradores olham para o setor têxtil em Portugal?

Da mesma forma. De uma forma geral, a indústria portuguesa continua a ser vista como uma indústria que consegue criar, desenvolver, produzir com qualidade e entregar com previsibilidade. Essa visão continua e temos o exemplo muito claro da NGG – que faz várias coleções para válrias marcas e não é por acaso que a maior parte das produções são feitas em Portugal, e também em Itália. São os países de referência em termos de qualidade, flexibilidade e serviço. Mas depois temos a questão do contexto, que é um handicap: enquanto país, temos a dificuldades da escala. Produz-se muito bem, cria-se muito bem, mas não para marcas próprias.

Há 30 anos não haveria nenhuma marca portuguesa na Farfetch. Atualmente já há algumas?

Temos algumas, sim – o importante é arranjarmos uma forma de, em momentos menos bons, a indústria responder bem. Imaginemos que neste momento haverá uma contração do textil: a realidade é que as empresas portuguesas, se tiverem menos encomendas, isso pode abalar a ponto de terem de fechar. Esse é o grande problema – e isso liga-se à questão das marcas próprias. O facto de a indústria trabalhar para outros  abre-a ao perigo de as pequenas variações de encomendas terem um impacto muito grande. Agora, qualidade, flexibilidade, talento – a indústria têxtil portuguesa tem tudo.

Descobre alguma oportunidade para a têxtil nacional?

A incerteza vai fazer com que a produção na China ou em qualquer outra parte longínqua do mundo seja mais complicada – o que pode ser uma oportunidade

A Farfetch tem tido uma política agressiva de aquisições. É para continuar?

A nossa última grande aquisição foi a NGG em agosto de 2019. A visão e a estratégia do José Neves [CEO e fundador do grupo] não mudou: a Farfetch é uma plataforma para a indústria de luxo – e uma plataforma 360º, que tenha a parte das vendas digitais mas que seja uma força para toda a cadeia de abastecimento. Acredito que o online vai crescer – as previsões eram que, até 2025, a penetração do online iria chegar aos 25%, mas com esta aceleração já vai tocar os 30% – mas o retalho físico vai ser sempre muito importante. Aquilo que nunca mais vai ser o mesmo é que vai haver muito poucas vendas sem a intervenção da ação digital, mesmo que seja em loja.

Para além do e-commerce?

É aí que está a Farfetch: somos uma plataforma para a indústria, seja com o e-commerce, seja com tecnologia que permite servir melhor os clientes em loja. Temos o projeto que lançámos o ano passado com a Channel, que passa por isso mesmo: junta a experiência online e offline. E para fechar o círculo, a aquisição da NGG é o que nos permite estender a plataforma a montante: criar marcas e criar conteúdos exclusivos para a indústria. E isso não é feito só para alimentar o marketplace: enquanto plataforma, a Farfetch.com é apenas um dos clientes da plataforma. Dito isto, retirámos o guidence de investimento para 2020, mas dissemos que mantemos o nosso objetivo de chegar ao breakeven operacional em 2021. Nunca se pode dizer nunca, mas não se prevêem mais aquisições no futuro próximo, até porque a NGG é uma máquina grande – estamos focados a colher todos os frutos da sua integração.

O breakeven em 2021 é um objetivo antigo. Mantém-se, depois da pandemia?

Mantemos o objetivo. E dissemos ao mercado que ele se mantém. É preciso perceber que, quando se diz que é um objetivo, se achássemos que não era possível não o refeririamos.

O EBITDA é a prova disso?

No primeiro trimestre do ano, o concenso entre os analistas era que teríamos um EBITDA negativo entre 30 a 35 milhões [de dólares] e tivemos 22,319 milhões [negativos]. Isto é algo que já vinha a ser delineado há muito tempo e é um trabalho contínuo, no qual continuamos bastante confiantes. Os indicadorers que temos é que continua a ser perfeitamente possível atingir esse desafio.

Abril reforça essa tendência do EBITDA ajustado?

Penso que vamos continuar na mesma tendência. Não paramos investimento nem crescimento, mas não seria verdade se dissesse que não tomámos precauções. Os analistas dizem que vamos crescer abaixo dos dois dígitos – se conseguirmos crescer mais, obviamente com contenção de custos, vamos continuar na mesma tendência de melhoria de resultados. Vamos ter de esperar.

Os analistas já perceberam qual é o negócio da Farfecth?

A aquisição da NGG não foi compreendida: foi entendida como um aumento de complexidade ou como a mudança da estratégia de negócio e como um aumento de risco, quando na prártica foi apenas uma extensão daquilo que é a nossa plataforma 360º. Começa a ficar bem mais claro o que queremos e os resultados demonstram-no. Acho que o que temos visto nos últimos meses neste período de incerteza é que essa compreensão está a começar a dar-se.

Ainda assim, as ações (a cotar entre os 13 e 14 dólares) estão com um desconto significativo fase ao IPO a 20 dólares. É um preço confortável?

Temos de fazer aquilo que é correto para a empresa. A equipa de gestão não está precupada com o valor da ação mas em fazer crescer o negócio de forma sustentável e escalável, de forma a ganhar quota de mercado.

Faz um balanço positivo da presença na empresa na Bolsa de Nova Iorque?

Desde logo, é um motivo de orgulho muito grande. Trás coisas positivas e coisas menos positivas. Trás uma exposição excelente, uma notoriedade de marca enorme e permite-nos estar noutro campeonato. O balanço é muito positivo.

Perfil

Há uma cultura Farfetch? Há. Basta entrar nas várias instalações da empresa para se perceber que a formalidade tem pouca margem para evoluir e que o ambiente é definitivamente construído para a criatividade e para o conforto pessoal. Prova ainda maior: esta forma de estar no negócio foi replicada numa infinidade de start up nacionais – na tentativa de absorverem o impacto muito positivo sobre os colaboradores. Por estes dias, a maioria deles mantém-se em casa e a empresa ainda não definiu uma regra de regresso, sendo certo que o teletrabalho é há muito uma opção que entra no âmbito do processo natural da empresa. “Não temos hierarquias, não temos estratos, enquanto empresa fomos sempre assim”, admite Luís Teixeira, para afirmar que seria muito difícil à empresa gerir de outra forma o facto de, apenas em Portugal, e entre os mais de dois mil colaboradores (são 4.500 no mundo inteiro), haver pelo menos 50 nacionalidades distintas. Portugueses, italianos e brasileiros enchem o top 3. “Temos pessoas totalmente criativas e pessoas muito lógicas”, num universo que só em termos de centros operacionais está dividido entre Porto, Guimarães, Lisboa, Nova Iorque, Los Angeles, Tóquio, Moscovo, Dubai, Hong Kong, Milão, Xangai e São Paulo. Mesmo assim, Luís Teixeira ainda tem dúvidas: “não sei a isto se pode chamar o mundo Farfetch”.

As perguntas de
Alexandra Oliveira
Pé de Chumbo

Colocam a hipótese de ajudar mais a vender diretamente os designers e marcas de destaque portuguesas?

A Farfetch é a plataforma tecnológica líder global para a indústria da moda de luxo. Hoje, o nosso marketplace liga clientes em mais de 190 países a produtos de mais de 1.200 das melhores marcas, boutiques e lojas departamento do mundo, em mais de 50 países. O nosso mercado é o mundo, e ajudar todos os nossos parceiros é sempre uma prioridade. Temos ainda um número reduzido de marcas portuguesas na nossa plataforma, mas acreditamos que o país tem talento e condições para crescer neste segmento, e temos todo o interesse em potenciar esses negócios.

Alguma vez pensaram na possibilidade de abrirem uma plataforma – ou um cantinho na plataforma – para ajudarem os designers portugueses a terem projeção internacional?

Naturalmente que Portugal é um mercado que nos fala ao coração, desde logo porque o nosso CEO e fundador, José Neves, é Português, e depois porque é em Portugal que temos os nossos centros de tecnologia e de operações, onde temos já grande parte dos nossos colaboradores em 6 escritórios, e onde continuamos a investir consideravelmente. No entanto, como empresa global e no mercado de moda de luxo, estamos focados no cliente e na parceria para todas as marcas e boutiques de luxo, incluindo as portuguesas, que querem atingir outros mercados.

José Cardoso
O Segredo do Mar

Passados cinco anos de investimentos diversificados, que estratégia devemos seguir nesta nova realidade de um e-commerce mais maduro e mais necessário que nunca?

Acredito que esta situação de pandemia veio acelerar significativamente o investimento em soluções online e aquilo que já era uma evolução natural dos negócios. Se é verdade que todas as crises trazem oportunidades, será importante que as empresas se preparem agora para um futuro que se aproxima a grande velocidade, canalizando investimentos para a vertente online dos seus negócios. Eu não acho que as lojas físicas vão desaparecer, mas acredito que o digital vai ser cada vez mais importante e que as experiências nas lojas físicas terão de ser cada vez mais aproximadas das experiências online. Na facilidade, na agilidade, na personalização do atendimento.

Qual a perspetiva da Farfetch quanto à importância das plataformas B2B numa economia com menor mobilidade internacional e necessidades de fornecimento à escala global?

As empresas e os negócios enfrentaram desafios únicos nos últimos meses. Dou um exemplo muito concreto daquilo que pode ser a força de uma plataforma (seja B2B ou B2C). Quando na Europa as lojas começaram a fechar, para muitas boutiques e marcas apenas foi possível continuar a vender através da Farfetch. Estamos a falar de boutiques que enfrentavam riscos enormes e acionámos um conjunto de apoios que passaram por aumentar o apoio logístico, reduzir os custos de utilização da plataforma, ou acelerar o pagamento às boutiques. Como plataforma, a Farfetch é a face mais visível de uma comunidade que, no nosso caso, representa talvez centenas de milhares de postos de trabalho em todo o mundo e é uma parte determinante da nossa economia e da nossa cultura.

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