T70 – Ana Vaz Pinheiro
A Mundotêxtil já exporta para 46 países
T70 - Fevereiro 2022

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O caminho da inovação e do produto diferenciado é a chave para manter o sucesso da Mundotêxtil. O ano de 2021 foi de regresso em força dos negócios, depois de dois anos profundamente marcados pela pandemia, mas faz notar que o ano em curso será, contra todas as expectativas, particularmente difícil – dado o contexto de aumento dos custos de produção, a que agora se junta um presente envenenado: a inflação.

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omo correu o negócio em 2021?

Foi um ano incrível: atingimos uma faturação de 55 milhões de euros, um crescimento próximo dos 44% quando comparado com o ano anterior…

E ultrapassando 2019?

Sim. Em termos de EBITDA recorrente também houve um aumento de 47%. As exportações da Mundotêxtil representam 25% do volume total de exportações portuguesas de felpos. Por isso, foi um bom ano. As exportações são 98% da faturação.

Como se explicam estes números que, dir-me-á se sim ou não, são surpreendentes?

Não são surpreendentes porque são fruto de muito trabalho. Houve um aumento da procura do tipo de produto que nós fabricamos – muito por via da pandemia e do facto de as pessoas estarem muito em casa, o que levou a que o tipo de consumo se alterasse. As pessoas deixaram de gastar dinheiro em restaurantes, em viagens, em roupa, e começaram a reformular tudo o que era têxtil do lar, cama e banho. Desde a segunda metade de 2020 começámos a ver um aumento da procura – que não foi tão acentuada nesse ano porque as lojas estavam encerradas. Só as grandes marcas ou aquelas que tinham ferramentas digitais desenvolvidas e com uma boa rede de distribuição é que subiram muito as vendas em 2020 e em 2021 dispararam.

Acha que 2022 será o reverso da medalha, uma vez que talvez o consumo regresse à moda e ao vestuário?

O ano de 2022 trará uma combinação de fatores. A todos os níveis, não vai ser um ano fácil. Aquilo que temos vindo a observar em termos de consumo, o feedback que temos dos nossos clientes, vai continuar este modelo de trabalho casa-escritório, principalmente nos países da União Europeia, nos Estados Unidos – por isso as pessoas vão comprar alguma roupa, mas não vão descurar o lar: a casa é sempre o lugar seguro e as pessoas, nestas alturas mais disruptivas, o que lhes dá segurança é a família, a casa.

A mudança
Advogada de formação não foi tarefa fácil para o pai convencer Ana a juntar-se à administração da empresa
Por isso, tenho esperança que não haja uma queda acentuada do consumo. Provavelmente vai haver uma estagnação, até por causa da inflação e dos custos de produção completamente descontrolados.

Quais foram os vossos melhores mercados?

Cerca de 70% dos nossos produtos são exportados para a Europa. Na Europa, os nossos clientes estão em França, no Reino Unido, no tradicional mercado de Espanha.

Para alguns produtos, Espanha não tem sido um bom mercado.

Para nós sim, tem sido. É um mercado estável, maduro, a nossa carteira de clientes está fidelizada há muitos anos. A Dinamarca e a Suécia subiram imenso. Fora da Europa, destaca-se Israel, começou a ser um mercado importante para nós em 2019, baixaram um pouco as compras em 2020, mas em 2021 retomaram. Na Ásia, tudo o que é Japão, Hong Kong, Taiwan, são mercados muito bons. Na Ásia, mais de 50% das exportações portuguesas de felpos são da Mundotêxtil.

A América do Norte não a atrai?

Sim, assim como o México, onde temos algumas vendas. Já a América Latina está completamente estagnada. Depois da Europa, os Estados Unidos são o maior mercado que nós temos.

Qual desses mercados reserva maior capacidade de crescimento?

Os Estados Unidos, claro. É um mercado que conhece muito bem o produto português e que o absorve muito bem. Identifica-o como um produto de qualidade, pelo menos na nossa área. E é um mercado enorme, com um poder de compra muito grande. E, quando há subidas de preços, são os primeiros a aceitá-las – e os que não têm receio de passar essa subida para o consumidor final. Na Europa, há sempre um pouco mais de pudor de fazer essa transferência.

Foram eles que criaram o sistema…

… sabem como é que funciona.

Que outros mercados de exportação podem vir a ser prioritários

É na inovação, nomeadamente através da diversificação para uma linha de roupa e acessórios , que a Mundotêxtil tem uma forma de enfrentar o ano de 2022
?
A Mundotêxtil já exporta para 46 países. Não há muito mais para onde crescer. Podemos aumentar eventualmente a nossa quota de mercado em alguns deles, mas temos uma posição confortável na maior parte dos países.

Qual é a dimensão da capacidade instalada da Mundotêxtil? É uma dimensão confortável, ou querem crescer?

Chegámos a fazer uma proposta para a aquisição da Coelima juntamente com a Felpinta, mas não foi a proposta vencedora no processo de insolvência.

Quer dizer que estão compradores de outras empresas?

Não, não estamos. A Mundotêxtil são 596 pessoas, temos um centro de distribuição logística a 5km das instalações fabris e temos várias empresas participadas no estrangeiro – Alemanha, Espanha, Estados Unidos e em Moçambique –, cultivo de algodão e produção de fio.

É a empresa que tem a ver com o programa Cotton made in Africa?

Exatamente, a MCM (Moçambique Cotton Manufactories) é uma parceria com a Crispim Abreu, que emprega já cerca de 300 pessoas. Fica a uns 20 minutos de carro de Maputo, numas antigas instalações da Riopele, que ficaram desativadas depois do 25 de abril.

O número de trabalhadores da Mundotêxtil está estabilizado?

Cresceu em 2021 entre 40 a 50 trabalhadores, depois de decrescer em 2019 e de se manter estável em 2020.

Porque queriam comprar a Coelima, mas não querem comprar qualquer outra?

A Coelima faz um produto complementar ao nosso, mas completamente diferente. No interior da Mundotêxtil não há uma estratégia de diversificação de produto. Dentro dos nossos produtos podemos fazer outro tipo de categorias – temos uma coleção de roupa casual e acessórios (chapéus, chinelos, bolsas) em felpo que acabámos de lançar, mas nada que ultrapasse muito o nosso core. A não ser houvesse uma oportunidade, que não nos desfocasse do nosso objetivo: somos a favor da especialização. A Coelima é uma empresa com muitos anos de história, tinha uma história familiar por trás do negócio, uma marca reconhecida internacionalmente, não seria um investimento feito do zero, o mais difícil já estava feito: a criação da marca, o know how, seria uma oportunidade. Que passou.

Em 2018 investiram 18 milhões de euros, qual é a política de investimentos da Mundotêxtil? 

O ano de 2018 foi o último em que fizemos um grande investimento em termos de maquinaria. Desde 2018 até 2021, investimos mais 12 milhões de euros. Estamos agora a acabar um projeto financiado que termina este ano, mais 2,5 milhões – investidos na modernização do que falta na empresa. As máquinas têm o ciclo de vida longo mas aparecem sempre desafios de tecnologia que temos de acompanhar. Estamos a terminar um investimento na tinturaria de fio, que estava um pouco obsoleta. Estamos a alterar o lay-out da fábrica, a pandemia também serviu para isso: pudemos olhar para dentro e perceber onde é que podíamos aumentar a eficiência, a produtividade. Conseguimos alavancar a produtividade com alterações que fizemos durante a pandemia.

2022 é o regresso às feiras presenciais. É um regresso importante para a Mundotêxtil?

É. Mesmo para as nossas equipas comercial e de desenvolvimento de produto é essencial ter contacto com os clientes. Não quer dizer que o contacto não tenha sido feito – como exportamos para 46 países, não podemos ir todos os anos a todo o lado. Criámos ferramentas de contacto que colmatassem a falta de contacto físico. Mas nós não sentimos o mercado através da Internet, não percebemos o que as pessoas usam, o que querem, se não estivermos nos locais. É essencial que a economia abra depressa.

Como observou a forma como o sector têxtil português tem respondido à pandemia?

Uma das coisas que mais nos carateriza enquanto povo, enquanto país, é a capacidade de nos adaptarmos, e o têxtil acompanha essa capacidade. Mas é preciso ter a noção que as empresas têm de ter bases: uma transição atabalhoada não dará frutos. As empresas sólidas, capitalizadas, com forte componente tecnológica, que valorizam a mão-de-obra, responderam. Essas empresas conseguiram adaptar-se mais facilmente.

E a forma como o governo procurou ajudar as empresas, que comentário lhe merece?

Recorremos ao lay-off logo no início, numa altura em que tivemos muitas encomendas suspensas. O que fizemos basicamente foi não entrar em pânico: tínhamos de ter dinheiro para aguentar os custos numa altura em que as ajudas do governo ainda eram uma incógnita e não queríamos transferir esse stress para o cliente – que já estava com stress suficiente. Temos a sorte de mais de metade da nossa carteira serem programas permanentes, numa base anual ou bianual – por isso, sabíamos que tínhamos produção. O governo respondeu como pôde. O pagamento do lay-off foi importantíssimo – principalmente no têxtil, a tesouraria tem de ser muito longa: desde a compra da matéria-prima até à faturação, podem decorrer nove meses. Não tenho qualquer apontamento mau a fazer.

O PRR é uma oportunidade perdida?

É uma oportunidade única. Entendo que seja importante canalizar fundos para reformas estruturais que o Estado tem de fazer. Mas para termos melhores salários, diminuir o desemprego só se consegue fortalecendo as empresas. Se agora se perder a oportunidade da digitalização, da descarbonização, da resiliência das questões sociais, numa estratégia comungada entre o público e o privado, perderemos uma oportunidade única de alavancarmos o nosso país. Está tudo a demorar muito – saiu agora o Programa de Capitalização das Empresas através do Banco de Fomento, mas o medo é que o dinheiro que vai sobrar para os privados vá para as mesmas empresas de sempre.

O aumento conjugado dos custos das matérias-primas, dos transportes e das energias, de que forma estão a impactar na Mundotêxtil?

É um grande impacto. O custo energético é neste momento um pesadelo – o gás subiu mais de 300%. O algodão está a níveis historicamente altos – há muita gente a ganhar dinheiro no mercado das commodities. Nos transportes, o problema é o mesmo – recebi notícia de que o preço vai aumentar 25% porque os camiões vão ter de adicionar ao combustível um produto para fazer face ao Acordo de Paris. É pegar neste bolo todo…

E juntar-lhe inflação!

E juntar-lhe inflação. E depois chegar a um cliente que não quer subir o preço ao consumidor final, mas vai ter de o fazer. Vai aumentar ainda mais a inflação. Este ano vai ser complicado. A falta de estratégia de política energética em Portugal nos últimos anos, fez com que chegássemos a este ponto. E temos a fervilhar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Os Estados Unidos têm vendido muito gás para a Europa – o que lhes convém…

Talvez seja por isso que a Ucrânia está a arder…

É provável. Todos estes conflitos geopolíticos mexem com tudo. A questão é: passar isto para um cliente, com aumentos de 20, 25, 30%, é muito complicado. Das duas uma: ou o consumidor paga e compra, ou deixa de comprar. E o poder de compra não está a aumentar.

O que é mais importante: a etiqueta made in Portugal ou made in Europe?

Acho que o made in Portugal é hoje importantíssimo. Prevalece sobre o made in Europe, pelo menos no nosso tipo de produto. Se calhar, na roupa é diferente.

Perfil

41 anos, administradora e diretora comercial da Mundotêxtil, onde entrou em 2011. Licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra, chegou a ter escritório de advocacia, em Vizela, antes de se mudar para a empresa liderada pelo pai. Diz que “não fazia ideia de como funcionava a empresa, a vida familiar sempre esteve à parte do andamento da empresa”, um pormenor que parece até ter ajudado na liderança que partilha com o pai e a irmã.

As perguntas de
João Abreu
General Manager da Crispim Abreu

Face aos aumentos da energia, matérias-primas e custos com pessoal, o têxtil português, especificamente o têxtil-lar, corre o risco de perder competitividade? 

É inegável que os aumentos exponenciais dos custos industriais terão um impacto negativo em toda a indústria. Face à incerteza e instabilidade das cadeias de abastecimento é imprescindível traçar planos de mitigação de risco que minimizem o impacto negativo expectável. O caminho poderá passar por uma aceleração da transição energética, otimização dos processos produtivos aumento da produtividade e eficiência e, obviamente, por um aumento do preço de venda.

De que forma é que as preocupações com o bem-estar e valorização dos recursos humanos se têm reflectido no dia-a-dia e no desempenho da Mundotêxtil?

Há muito que o nosso compromisso se centra nos que fazem parte de nós. Potenciar o crescimento das nossas equipas, cultivar um ambiente de trabalho saudável são uma prioridade no nosso dia-a-dia e isso reflete-se, obviamente, na ligação que as equipas têm entre si e com a empresa.

Raul Fangueiro
Diretor do Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil da Universidade do Minho

Qual a importância da relação com os centros de investigação, nomeadamente com a Universidade do Minho, no desenvolvimento da Mundotêxtil?

As parcerias são, provavelmente, a forma mais eficaz de uma empresa impulsionar a inovação e de se adaptar às constantes mudanças. Não temos todas as respostas e, portanto, é essencial percorrermos este caminho ao lado de parceiros que partilham a mesma visão estratégica e que sejam pioneiros nas suas áreas de atuação. A Universidade do Minho é, sem dúvida, um parceiro estratégico da Mundotêxtil e que muito tem contribuído para a cultura de inovação organizacional que temos vindo a desenvolver e a fomentar.

Qual a estratégia futura da Mundotêxtil considerando a integração do binómio inovação e sustentabilidade?

A sustentabilidade e inovação andam de braços dados. É impossível acelerar o ritmo de mudança e transformar o atual modelo de negócio, tornando-o circular, sem que se inclua a inovação nesta equação. Conscientes disso, o nosso foco tem sido o de implementar a estratégia de sustentabilidade alinhando os objetivos desta com os objetivos do negócio.

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